
João dos Santos O Jornal da Educação, Dezembro de 1978
Numa instituição de observação e tratamento de crianças-problema, onde trabalho, uma mãe trouxe um dia a filha, em idade escolar, para ser examinada. O avô paterno e o pai plantaram-se à porta, com o intuito confesso de tirar a criança à mãe, quando ambas saíssem. Tinham para isso razões jurídicas, muito válidas, talvez mesmo legalmente incontestáveis. Na instituição, porém, as pessoas consideravam que lhes não competia decidir a entrega da menina ao pai, contra a vontade da mãe. Pensavam, acho que com razão, que o assunto devia ser resolvido diante do meritíssimo juiz, e não à porta da rua. Entendíamos, portanto, que a criança devia sair sob protecção das autoridades, para ir com os pais ao Tribunal e, ali, os interessados decidirem como fazer, de forma a que a menina não fosse objecto de uma disputa dilacerante. Enquanto pelo telefone e directamente, toda a equipa falava ou tentava falar com as autoridades, a criança viveu 30 horas de angústia, instalada numa casa sem condições para servir de habitação. As autoridades não sentiram, não ouviram, não perceberam mas… explicaram, explicaram, explicaram, pelo telefone e em directo. Cerca de 30 horas a explicarem o que não entendiam. O assunto não competia a ninguém, ou melhor, era empurrado de uma entidade para outra, de um para outro Ministério, de um burocrata para outro burocrata. Uma criança praticamente sequestrada, em risco de ser posta perante a luta violenta dos pais que fisicamente se propunham disputá-la, não mereceu de nenhum funcionário, alto ou baixo, o mínimo de atenção! Nenhum? Não sei. Será o juiz Leandro um funcionário? Já ouvira falar do juiz Leandro, mas não o conhecia. O nome era-me simpático. Leandro era amigo de meu pai, que, sendo eu menino, aparecia lá em casa e se instalava durante todo o tempo que duravam as “revoluções” dos anos 10 e 20. Entretanto, os dois amigos discutiam política e eu ouvia-os com muita curiosidade, mas sem entender nada. Um dia, perguntei e o meu pai explicou-me: ele, meu pai, era republicano, e o Leandro era monárquico. Mas disse-me: ele é o meu amigo. O Leandro morava num bairro popular de republicanos e receava ser molestado, quando havia agitação. Refugiava-se lá em casa, porque lá tinha a certeza de ser respeitado e defendido — explicou-me o meu pai. O amigo Leandro conversava comigo e explicava-me coisas simples da vida. Dizia-me, por exemplo: “Aqui, em Lisboa, não é necessário usar relógio, nem trazer fósforos no bolso. Toda a gente tem… perguntam-se as horas, pede-se lume…” – e ria-se muito. Eu também. Achava-o simples, ingénuo e infantil, como eu. Era um homem maduro; sabia falar com as crianças. Por isso, nas horas dramáticas que vivemos a proteger a menina do litígio entre os pais, quando me disseram que havia um juiz chamado Leandro[i] que era um homem bom, não duvidei. Disseram-me também que ele seria a pessoa indicada para resolver o problema, e que iria receber os pais da criança. Assim aconteceu. Eles foram finalmente recebidos, sem os requerimentos, as esperas que estavam previstas. O juiz Leandro recebeu-os sem formalidades, fora das suas horas, apenas porque foi, como pessoa, sensibilizado pela situação. Porque ouviu, entendeu e se dispôs a resolver como pessoa, um problema que não lhe competia resolver como funcionário. Tinha já começado a cair a noite, nesse dia, talvez o mais dramático da vida da menina. Eu reflectia em como tinha sido bom encontrar, entre tanta gente a quem tínhamos recorrido, um homem bom e sensível, o juiz Leandro, que não era burocrata nem explicava as leis. Encontrei-me diante dele assim como um Sancho em admiração por um D. Quixote, naquele fim de dia triste. Lembrei-me que D. Quixote dizia: “Cegos são os que só vêem a realidade”. E pude confirmar com que extraordinária sabedoria o juiz Leandro tinha visto, para além da realidade das leis e dos interesses legais dos pais, o interesse vital da criança indefesa, ameaçada na sua vida emocional. Reflectia sobre tudo isto, quando as companheiras de trabalho, Maria Vitália e Leonídia, me vieram dizer que a menina me queria falar. Fui ter com ela à sala de espera. Não parecia angustiada mas, até de certa maneira, eufórica, aliviada. Quando me viu, foi ao seu saco, tirou dele uma maçã reineta e estendeu-ma. Aceitei aquela dádiva com entusiasmo incontido… Depois de me despedir do juiz Leandro, saí daquele casarão de frio mármore e de granito, onde fica o Tribunal, mais rico com aquela maçã e mais honrado com aquela distinção. Honrado com o que imaginei ser a “Ordem da Maçã Reineta”. E fiquei a pensar se o simpático Juiz Leandro também seria contemplado. Gostava de estar com ele na mesma confraria…
João dos Santos O Jornal da Educação, Dezembro de 1978. Cf. também, Ensaios sobre Educação – II: O Falar das Letras. Lisboa: Ed. Livros Horizonte, 1991, pp 227-229. [i] Juiz Conselheiro Dr. Armando Acácio Gomes Leandro.
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Patrícia Helena Carvalho Holanda, Linha História e Educação Comparada da Universidade Federal do Ceará


















