João dos Santos – o pedagogo – médico

David Rodrigues 2
David Rodrigues
Professor universitário
Presidente da Pró – Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial 
Fevereiro de 2013

O costume consagrou o termo “médico – pedagógico” quando nos pretendemos referir a algo que tem implicações tanto ao nível da perturbação das funções do corpo (incluindo o comportamento) como ao seu enquadramento educacional. Dá-se primazia ao “médico” porque existe a convicção que é este o aspeto principal e que condiciona e mesmo determina as opções que irão ser tomadas a nível pedagógico.

Na minha opinião, João dos Santos não seguiu uma abordagem médico pedagógica mas sim pedagógico-médica. Claro que o campo em que a sua atividade teve maior dimensão e reconhecimento foi no campo da Pedopsiquiatria – ela própria uma especialidade médica. Mas… é preciso relembrar que a primeira formação profissional de João dos Santos foi como professor de Educação Física (e isto explica parcialmente a atribuição do doutoramento honoris causa pela Faculdade de Motricidade Humana). João dos Santos partiu da pedagogia para a medicina e talvez, esteja aqui uma das chaves para entender a originalidade do seu olhar e a abrangência da sua conceção sobre a criança.

O meu contacto com João dos Santos não foi muito frequente (ou, pelo menos, eu gostaria que tivesse sido mais…) mas cumpre-me evocar aqui três momentos deste contato que desempenharam um papel de luzes diretoras no meu percurso como professor de Educação Especial.

1. Quando estava no Instituto António Aurélio da Costa Ferreira (IAACF) a tirar meu curso de professor de Educação Especial, na altura com a duração de três anos letivos, tive que enfrentar o desafio de fazer um estágio “no terreno”. Na altura existiam no IAACF duas equipas de pedopsiquiatria e uma delas tinha convidado João dos Santos para atender semanalmente casos de famílias e crianças que recorriam ao serviço. Pedi – e foi-me concedido – que a assistência a estas consultas e estudos fosse considerada o meu estágio. E assim, durante um ano letivo, assisti semanalmente às consultas que João dos Santos dava a crianças e às suas famílias. Tenho inúmeras histórias que poderia contar, mas lembro-me de uma delas. Uma criança entrou desarvorada no gabinete e ignorando João dos Santos que a tinha ido receber à porta, sentou-se ostensivamente na sua cadeira. Todos ficámos a pensar o que se iria passar… João dos Santos aproximou-se da criança com uma atitude muito calma e disse-lhe firmemente: “Sai daí!”. “Porquê?” – perguntou a criança. “Muito simples – respondeu João dos Santos – essa é a minha cadeira e a tua é ali: e eu não falo contigo enquanto não te sentares lá!”. A criança levantou-se e a conversa estabeleceu-se. João dos Santos comentou mais tarde “Esta criança estava a suplicar que eu lhe dissesse qual era o seu lugar e foi isso que eu fiz”.

2. Numa das raras visitas que fiz à sua idílica casa de Sintra – na Horta do Arrabalde – apertei-lhe a mão ao chegar e perguntei: “Então? Como está?”. E ele respondeu “Estou bem mas sabe? Não conseguimos encorrilhar a testa e sorrir ao mesmo tempo. Já experimentou?” (Eu tento até hoje fazer esta habilidade sem resultado…). “Ultimamente – prosseguiu – tenho franzido a testa demais o que me tem tirado tempo para sorrir”.

3. No dia em que recebeu o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade Técnica de Lisboa, recebi-o à entrada e, dada a preocupação com a sua saúde na altura um pouco abalada, tive a preocupação em o instalar confortavelmente enquanto não começava a cerimónia. Perguntei-lhe como era regressar depois de tantos anos ao mundo da Educação Física. Com um ar desprendido e óbvio ele respondeu-me que tinha persistentemente tentado ensinar que a aprendizagem da matemática está no corpo e que, no geral, todas as aprendizagens passam pela emoção e pela corporeidade. “Leu os meus artigos n”O Jornal da Educação?”. (Eu venerava essas peças de sabedoria…). E logo me falou de múltiplos exemplos que lhe tinham sido inspirados pelo seu mestre Henri Wallon.

São estes três flashes do contato com um homem que entendeu – e depois nos ensinou – que a criança não é um diagnóstico que se ensina. É antes de tudo um ser humano de quem, no trânsito da sua vida, nos precisamos de aproximar com respeito e com empatia.

Falta só no meu testemunho, assegurar que João dos Santos era um homem atento e perspicaz. A humanidade e o compromisso social com que tratava os outros era fruto deste olhar profundamente solidário e cúmplice. Mesmo quando parecia distanciado e até óbvio o seu olhar era sempre comprometido e profundo.

João dos Santos muito ensinou às duas classes profissionais que exerceu: aos professores ensinou-lhes a complexidade da aprendizagem e de como os afetos são centrais para aprender; aos médicos ensinou a urgência de um olhar pedagógico e sobretudo de um modelo que ultrapassasse o “diagnóstico – prescrição” para abraçar uma visão processual, evolutiva, interactiva, enfim, educacional da criança.

Não fui, infelizmente, um discípulo assíduo de João dos Santos, mas sempre que dele me aproximei senti que o seu semblante, a sua atitude, as suas palavras e o seu exemplo constituíam a mais fina e profunda inspiração para eu (me) poder entender o mundo da criança.

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  • Proposta de Lei n.º 34 / XIII – Definição de ATO MÉDICO

    O XXI Governo Constitucional, no seu programa para a saúde, estabelece como prioridades aperfeiçoar a gestão dos recursos humanos e a motivação dos profissionais de saúde, apostando em novos modelos de cooperação entre profissionais de saúde, no que respeita à repartição de competências e responsabilidades e melhorar a qualidade dos cuidados de saúde, apostando em modelos de governação da saúde baseados na melhoria contínua da qualidade de garantia da segurança do doente… (Siga esta LIGAÇÃO para aceder ao documento de Proposta de Lei n.º 34/XIII.).

    Existe actualmente uma proposta de diálogo relativo à formulação do Artigo 5 desta proposta de lei, em que se define o ATO MÉDICO.

     
     
     

     
     
  • Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos em conversa

    Clique na seguinte ligação para para visualizar este vídeo do Instituto de Tecnologia Educativa – RTP (1975) A Escolinha de Arte de Cecília Menano – com Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos, que foi muito generosamente disponibilizado pelo Dr Daniel Sasportes (19 minutos). [Clique nesta ligação]

     


  • Programa IFCE no Ar, Radio Universitária

    Entrevista sobre o andamento do curso à distância “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”

    Entrevista gravada com a coordenadora do curso “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”, Professora Patrícia Holanda da Linha de História da Educação Comparada da UFC (Universidade Federal do Ceará), com o Doutor Luís Grijó dos Santos (filho de João dos Santos), e a coordenadora pedagógica do curso Professora Ana Cláudia Uchôa Araújo da Directoria da Educação à Distancia do IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará). A entrevista foi realizada pelo jornalista Hugo Bispo do Programa IFCE no Ar em 3 de Novembro de 2016.

    Para ouvir a gravação desta entrevista clique nesta ligação.

     


     

  • “Histórias de mulheres” é finalista da 58º edição do Prêmio Jabuti

     

    O livro "Histórias de mulheres: amor, violência e educação", organizado por Maria Juraci Maia Cavalcante, Patrícia Helena Carvalho Holanda e Zuleide Fernandes de Queiroz, é finalista na categoria "Educação e Pedagogia" da 58ª edição do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, considerado o mais importante prêmio do livro brasileiro.

    A obra, lançada em 2015 pelas Edições UFC, conta, entre outros, com artigos da Professora Patrícia Helena Carvalho Holanda e do Professor Pedro Parrot Morato “A Mulher e a Família à Luz do Referencial Santiano na Perspectiva Comparada Brasil-Portugal”, e da Dra Clara Castilho “A Mãe e a Escola como Promotores de Inclusão Social das Crianças com Necessidades Especiais na Abordagem de João dos Santos”.

    Maria Juraci Maia Cavalcante e Patrícia Helena Carvalho Holanda são professoras da Faculdade de Educação da UFC. A obra pode ser adquirida na Livraria da Universidade Federal do Ceará (área 1 do Centro de Humanidades – Av. da Universidade, 2683, Benfica).

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