Malhas do Saber de João dos Santos

Fotografia de Isabel Pereira - Dezembro de 2020Maria Isabel Pereira [1]

“Pergunto finalmente se a maturidade não consiste precisamente em aceitar aquilo que o indivíduo tem de infantil” [2]

“Brincar é a coisa mais importante da vida”

“A propósito da educação infantil penso que é mais importante aquilo que o mestre é do que aquilo que ele sabe” [3]

“Se não Sabe Porque é que Pergunta?” [4]

João dos Santos, o psicólogo, o pedagogo, terá já sido entendido e seguido pelos organizadores e responsáveis dos cursos de formação de professores educadores, elementos essenciais de uma sociedade que favoreça a melhor realização de cada cidadão?

Ou antes, professores servilmente obedientes a seus governantes e aos interesses que servem, criando e desenvolvendo cadeias de obediência pouco ou nada criativa de uma sociedade igualmente justa para todos?

Lembro o alerta de alguém de quem infelizmente esqueci o nome, mas guardei as suas palavras: “Os povos não escolhem e elegem os governantes para que eles os levem aos supermercados, são sim estes, os supermercados, que escolhem os governantes para que estes levem os povos aos supermercados.” 

Eu fui muito feliz nos meus muitos anos de trabalho profissional porque João dos Santos e Maria Amália Borges, sua colega e companheira dos mesmos ideais, entenderam e tudo proporcionaram para essa minha realização pessoal com alunos felizes.

Menos devo à inteligência ou ao saber, que sempre reconheci pouco ter, apenas nunca me fechei ao pulsar do ensino da própria vida no seu dia-a-dia. 

Maria Isabel Pereira
Janeiro de 2021

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[1] Professora Maria Isabel Vieira Pereira

[2] Ensaios sobre Educação – I: A Criança Quem É?

  • 3ª Edição, Formato eBook Kindle. UK: Ed. Product Solutions Catalysis Ltd, Setembro de 2016, ISBN 978-0-9932730-1-8
  • 2ª Edição, Formato impresso. Lisboa: Livros Horizonte, 1991, ISBN 972-24-0578-0.

[3] Encontro Nacional sobre Educação Infantil, Aveiro, Abril de 1987

[4] Se não sabe porque é que pergunta ? – Conversas com João Sousa Monteiro. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000. – 224 p. – (Peninsulares: especial; 14) Ed. Póstuma.


POR UMA PSICOLOGIA DO AFETO E DA COGNIÇÃO*
A Pedagogia Terapêutica de João dos Santos

Patrícia Helena Carvalho Holanda

O estudo aborda a contribuição inovadora de João dos Santos (1913-1987), psicanalista, pedopsiquiatra e pedagogo português, no campo da educação, ao intercalar psiquiatria, psicanálise, pedagogia e sociologia, com vistas a entender a sua proposta de romper o hiato entre subjetividade e cognição, no que diz respeito ao desenvolvimento humano a partir da infância, na esteira da chamada pedagogia nova. Tal estudo nos inspirou a reunir esforços para a realização desta investigação, voltada para responder à questão: qual a aplicação da abordagem de Santos para solucionar os nossos desafios educacionais? A partir dessa problemática, elaboramos a seguinte tese, base do projeto de pesquisa que deu materialidade a este estudo, o qual caracterizamos, resumidamente, para explicar os pontos de apoio que estruturaram as nossas buscas. As ideias psicopedagógicas de João dos Santos sustentam uma abordagem centrada na criança, pais e escolas, que oferece relevante contribuição para a educação infantil, ao desenvolver a psicologia do afeto, da cognição e da sociabilidade. Por conseguinte, definimos como objetivo da investigação compreender as ideias psicopedagógicas de Santos em relação à problemática da educação familiar e escolar, a partir de um confronto entre passado e presente, com enfoque interdisciplinar calcado na história, psicologia e sociologia educacional, como possibilidade de diálogo entre Portugal e Brasil, sociedades já relacionadas na história moderna e contemporânea. Foi utilizada uma metodologia de natureza qualitativa descritiva, devido sua harmonização com a pesquisa de escopo psicossocial, vinculada com a história educacional e social. A análise documental, relativa a registros históricos do acervo de Santos, como textos datilografados e palestras sobre a sua prática profissional e abordagem, possibilitou a recuperação da memória e história da estruturação da teoria de João dos Santos. A transcrição dos programas de rádio permitiu a ida ao passado e a produção de memórias, a partir dos vestígios auditivos e visuais que podem ser encontrados no presente. Diante do exposto, o propósito de pesquisa foi alcançado de forma muito satisfatória, na medida em que construímos, neste estudo, uma compreensão sobre as ideias psicopedagógicas de João dos Santos, baseadas numa psicologia de afeto e de cognição, que permitem trazer a elaboração teórico-prática e política de João dos Santos para o contexto atual, com valiosas contribuições para o campo da educação de crianças, sobretudo no Brasil, onde a desigualdade e a fragilidade social de crianças carenciadas é cada vez mais gritante e pede políticas de inclusão com suporte psicossocial e terapêutico à altura dos seus desafios. Essas considerações são pontos-chave importantes para o desenvolvimento de pesquisas interventivas, baseadas nas ideias psicopedagógicas de João dos Santos, que percebem a criança como ser ativo, capaz de aprender e de transformar a si e ao mundo que a cerca, influenciada pelas relações significativas com pais e professores.

Palavras-chave: João dos Santos. Pedagogia Terapêutica. Psicologia do Afeto. Psicologia da Cognição.

*Tese de Catedrática/Titular defendida em 25 de junho de 2020. Este trabalho foi apresentado ao Departamento de Fundamentos de Educação da Universidade Federal do Ceara, como requisito para obtenção de Progressão Funcional para Professora Titular/Professora Catedrática da Universidade Federal do Ceará – UFC


AS RELAÇÕES ENTRE COGNIÇÃO E AFETO, ESCOLA E FAMÍLIA NA SOCIABILIDADE E APRENDIZAGEM DE ADOLESCENTES DA ATUALIDADE*
Uma Análise à Luz da Pedagogia Terapêutica de João dos Santos

Maíra Maia de Moura

O presente estudo trata da aprendizagem e sociabilidade de adolescentes cearenses nos dias atuais na família e na escola. Para tanto, analisa conceitos de adolescência, aprendizagem, família, escola e pedagogia terapêutica, por meio de um levantamento bibliográfico selecionado, tendo por base analítica, sobretudo, a Pedagogia Terapêutica ou Psicopedagogia de João dos Santos, que chama atenção para a importância da infância e de uma educação integrada por diversos agentes, que considera responsáveis da educação social de crianças e jovens. Realiza estudo empírico de base qualitativa, junto a um grupo de adolescentes, familiares e educadores, por meio de entrevistas semiestruturadas e análise de conteúdo de falas, de onde são extraídas categorias temáticas que revelam a problemática de aprendizagem e sociabilidade característica da adolescência como fase da vida onde ocorre a definição da identidade social de sujeitos. Apresenta como resultados os dilemas e dificuldades próprios da adolescência nos dias atuais, caracterizada por certa ausência de horizontes de felicidade em face de uma sociedade em que a educação da juventude se dá em descompasso com o futuro desejado, em meio a medos, desejos e frustrações. Demonstra a atualidade e adequação da pedagogia terapêutica desenvolvida por João dos Santos, como pressuposto e suporte conceitual para o entendimento da problemática estudada por revelar procedimentos favoráveis à educação social de crianças e jovens, que têm na ação integrada e solidária da família, escola e sociedade o melhor caminho para uma abordagem pedagógica reparadora.

Palavras-chave: Adolescência. Cognição. Afeto. Escola. Família. Sociabilidade. Aprendizagem.

*Tese de Doutoramento defendida em 25 de junho de 2019.


Tana

Ana Vieira de Almeida

Foi com grande tristeza que soubemos da morte da amiga Ana Vieira de Almeida que faleceu hoje, dia 8 de Janeiro de 2021, em Lisboa. Recordamos o tempo que com ela pudemos conviver e aprender. Estamos certos que será sempre lembrada pela sua inteligência, dedicação e humanidade. Como pedagoga marcou com saber, inovação e originalidade a sua época e influenciou gerações de alunos e profissionais. Deixamos os nossos mais sinceros pêsames aos familiares e amigos. Paula Santos Lobo e Luís Grijó dos Santos

 

Tana querida O nosso 1º Encontro foi na década de 40 de século passado na Terra onde nascemos e, decorridos mais 50 anos, deu-se o 2º. Magicamente sentimos que eramos as mesmas porque esse tempo tinha encurtado. Agora partiste, o Sol desapareceu e a escuridão da noite cobriu as nossas cabeças. Fiquei sem chão e sem as rosas brancas que me enviavas todos os anos, num dia certo, as mesmas que, quando entraste na carruagem, na Caála, ofereceste à minha Mãe. Adeus, minha querida, então o próximo encontro será amanhã…
Maria José 8 de Janeiro de 2021

 

 

 

***   ***   ***   

 

Ana, querida amiga e colega

Tana, para Jorge e Margarida, teus antigos alunos, filhos meus e do Manuel Silva (já falecido e teu amigo também), que te recordam com ternura pelo trato calmo e doce que tinhas com todas as crianças.

“Era uma vez um peixinho vermelho…” contavas e encantavas os meninos!

Foste uma educadora nata, pessoa especial, pedagoga esclarecida, aberta às ideias novas, nunca fundamentalista; deixaste uma obra que deve ser conhecida e continuada.

Partilhei contigo os ideais políticos da nossa geração aprisionada, os princípios de uma educação activa e criativa, sonhávamos, promissoras de um homem novo. Caminhámos juntas em grupo de trabalho de formação pedagógica, na busca de sermos mais capazes na tarefa de ensinar e educar.

Citando João dos Santos, nosso estimado Mestre:

“Que os homens que guardam da sua infância a experiência inédita, que interiorizam o movimento, o sentir, o amor, que construiram um mundo seu, o abram aos outros, que o abram às crianças. Para que haja AMOR, para que haja diálogo.”

Tu foste uma dessas pessoas.

Partiste, deixaste em nós uma grande saudade. Para ti, como se fossem flores, este belíssimo poema de Sophia:

“Quando o meu corpo apodrecer e eu For morta Continuará o jardim, o céu e o mar, E como hoje igualmente hão-de bailar Quatro estações à minha porta (…)

Haverá longos poentes sobre o mar Outros amarão as coisas que eu amei

Será o mesmo brilho, a mesma festa Será o mesmo jardim à minha porta. E os cabelos doirados da floresta, Como se eu não estivesse morta.”

(Sophia de Mello Breyner Andersen)

Com saudade e um fraterno abraço de condolências a toda a tua família

Manuela Cruz seus filhos Jorge e Margarida Silva Lisboa, 9 de Janeiro de 2021

 


O nosso site continua a ser reorganizado e pedimos desculpa pela confusão e inconveniência. Se andar à procura de alguma informação que não consegue encontrar, por favor contacte-nos através do email info@joaodossantos.net.


João dos Santos na Wikipedia Rev2

Agora pode consultar a Wikipédia sobre João dos Santos. Para lá chegar basta pesquisar João dos Santos psicanalista no Google, ou então clique na seguinte ligação João dos Santos na WIKIPÉDIA


Stefanie FrancoOs imperativos da arte – encontros com a loucura em Portugal do século XX.

FRANCO, Stefanie Gil. Tese final do curso de Doutoramento em História da Arte, especialização em Teoria da Arte. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Agosto de 2019. 404p.     RESUMO Esta pesquisa tem como objetivo principal estudar a formação do debate acerca da arte dos loucos, ou das expressões artísticas dos alienados, em contexto português do século XX. Nestes termos, procura-se desenrolar uma série de enunciados que qualificam tais obras, de uma forma ou de outra, como arte ou como loucura. Sabe-se que, a partir da virada do século XIX para o XX, uma série de artistas e teóricos passaram a se interessar pelas formas expressas dos pacientes de instituições psiquiátricas por conta da capacidade que elas tinham de desvendar um mundo interno, hermético e de difícil compreensão. Assim, pela Europa foram criadas diversas coleções com obras de pacientes em Hospitais Psiquiátricos, como também coleções particulares iniciadas por artistas interessados nas características estéticas e simbólicas de tais obras. Portugal é o foco desta pesquisa, mas sem estar nele limitado: propõem-se ir para todos os lados da história e do tempo, a fim de construir uma espécie de traçado sobre a relação entre arte e loucura no país.


 

Contribuições da Pedagogia Terapêutica de João dos Santos e da Sequência FEDATHI à postura docente na Educação Matemática

ARAÚJO, Ana Cláudia Uchôa; HOLANDA, Patrícia Helena Carvalho; ROCHA, Sinara Socorro Duarte. In: NETO, Hermínio Borges (Org). SEQUÊNCIA FEDATHI: interfaces com o pensamento pedagógico. Coleção Sequência Fedathi. Volume 4. Curitiba: CRV, 2019. ISBN: 978-85-4443372-0.


 

A CABEÇA SERVE PARA SONHAR O SONHO DE NÃO FAZER CHICHI NA CAMA sonhos guardiões do sono

Aula radiofónica de psicologia de João dos Santos (22 minutos)


DISPONIBILIDADE PARA OS FILHOS…*

 
 
 

O impacto destruidor do Covid-19, não só social, mas também no que diz respeito às nossas indústrias e comércio, é assustador. O sofrimento e ansiedade que tem causado e que vai continuar a causar era inimaginável semanas atrás. No entanto… o investimento que as famílias estão a ter de fazer “relacionalmente” nos filhos está a ser muito positivo. Referimo-nos não só à relação entre pais e filhos, pelo estímulo à criatividade e pela descoberta de novos modos de comunicação, mas também pela confiança que se instala na família permitindo assim um maior controlo da ansiedade. Desejamos que mais Pais consigam, nestes tempos difíceis, aprender a conviver com os filhos com mais disponibilidade, compreensão e encantamento. Informamos que DECIDIMOS DISPONIBILIZAR PARA AQUISIÇÃO GRATUITA OS SEGUINTES LIVROS editados pela editora Product Solutions Catalysis Ltd em formato Kindle ebook e divulgados nas lojas da Amazon:

“A Casa da Praia: O Psicanalista na Escola”

“Ensaios sobre Educação – I: A Criança Quem É?”

“A Neurose de Angústia”, e

“Pedagogia Terapêutica – diálogos e estudos luso-brasileiros sobre João dos Santos”

Como as regras da Amazon só nos permitem a promoção de qualquer livro durante um período máximo de 5 dias em cada três meses, seleccionámos os dias 30 de Março (segunda-feira) até 3 de Abril (sexta-feira) quando poderá adquirir estes nossos livros gratuitamente na sua loja da Amazon (datas baseadas no horário padrão do Pacífico). Obrigado e boa leitura, Paula Santos Lobo e Luís Grijó dos Santos

* Os pais não têm disponibilidade para os filhos e eles compensam isso no “bando dos jovens” em que há, pelo menos, entendimento, compreensão, humanidade. Há nos bandos de jovens qualquer coisa que realmente os salva. Porquê acusar os adolescentes de não serem como nós, se todo o envolvimento se modificou radicalmente, e se todos sabemos que nas famílias de hoje há poucas pessoas capazes de estar dez minutos com os filhos para conversar sobre qualquer coisa que não seja dos resultados escolares?! Os pais querem sobretudo que os filhos sejam profissionalmente eficientes, capazes de ganhar a vida, o que é importante, mas não é tudo.

João dos Santos. Ensaios sobre Educação – I. (Kindle Locations 1272-1276). Herdeiros de João dos Santos.

Procure qualquer dos títulos desejados na sua loja da Amazon… ou pode começar com uma das ligações seguintes, dependente do país onde tem a sua conta com a Amazon…

Brasil: Amazon Brasil

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Se reside em Portugal tem de criar uma conta gratuita e adquirir os livros Kindle de João dos Santos na Amazon (https://www.amazon.com/) dos Estado Unidos. Todos os livros de João dos Santos que temos publicado até agora em formato digital são em Português, qualquer que seja o país e loja da Amazon. Depois de ter a sua conta aberta nos Estados Unidos pode procurar cada um dos livros por título. No entanto pode encontrar o livro “A Casa da Praia” seguindo esta ligação: A Casa da Praia. Por favor contacte- nos para quaisquer informações adicionais.


A EDUCAÇÃO DAS EMOÇÕES EM JOÃO DOS SANTOS

Clique na ligação em cima, para ler este capítulo do livro “Psicologia e Educação | Conexões Brasil-Portugal” (20 páginas)…

 
 

DA FALA À ESCRITA – um diálogo à distância

Aula radiofónica de João dos Santos (1983-1984)

 
 

COM O SONHO SE CHEGA À OBRA [1]

Maria Isabel Vieira Pereira

19 de Março de 2019

Com esta minha vetusta idade, bem podia estar toda entregue às malhinhas do tricot ou crochet e deixar o passado e as suas obras irem sendo contadas, escritas, consoante o seu conhecimento e até gostos pessoais e épocas. Ora, aconteceu eu ter sido voluntariamente cúmplice e envolvida na complexa teia de uma dessas obras antigas, social e educativa, e dela ter mesmo guardados os vários documentos da sua criação e diversificada evolução. Em Fevereiro de 1955, no âmbito da Liga Portuguesa da Profilaxia da Cegueira, era inaugurada oficialmente em Lisboa a primeira Clínica de Reeducação de Amblíopes. Foram seus fundadores o oftalmologista Henrique Moutinho, o psiquiatra João dos Santos e a psicóloga Maria Amália Borges, que aliás já trabalhava em colaboração com este último na área psico-social. Quem eram estes três licenciados, sonhadores e intervenientes na criação de uma sociedade mais justa? João dos Santos trabalhava no Hospital Júlio de Matos, dirigido na altura e durante muitos anos pelo Professor Barahona Fernandes. Foi proibido não só de ali trabalhar mas em todos os hospitais portugueses. Teve, por isso, de emigrar, já casado e pai, para França, onde ficou 5 anos. Henrique Moutinho, já com a sua clientela atendida no seu consultório, foi mobilizado para Angola, em guerra, como médico militar. Maria Amália e seu marido, com as suas licenciaturas terminadas, não lhes foi nunca permitido entrar no sistema oficial de ensino superior, tendo por isso conseguido trabalhar só no sistema particular. Maria Amália esteve mesmo detida dois meses em Caxias, por ter sido reconhecida como fazendo parte da associação que ajudava monetariamente as famílias dos nossos presos políticos. Naquela altura em Portugal, as crianças e jovens amblíopes, devido à sua fraca visão, eram encaminhados para os asilos de cegos onde ficavam internados, raparigas no António Feliciano de Castilho, em Campo de Ourique em Lisboa e rapazes no Branco Rodrigues, na linha de Cascais. Como na sua grande maioria eram oriundos de famílias carenciadas, o seu internamento nos asilos resolvia toda uma situação social e, os de famílias não carenciadas, faziam naquelas instituições apenas a sua escolaridade, continuando a viver em família. O facto de serem considerados desde cedo como cegos levava a que toda a sua vida fosse dentro dessa perspectiva, como verdadeiros cegos. Toda a sua escolaridade era feita com o sistema Braille, o ensino da música em piano, a visão não era estimulada, era anulada, perdendo cada vez mais capacidade visual, passando em muitos casos de amblíopes a cegos totais. Ora, acontecera que o Dr. Mário Moutinho, pai de Henrique Moutinho, tinha estado na Alemanha algum tempo e tomara conhecimento de uma total diferença de procedimentos científicos e sociais com os amblíopes. Naquele país, utilizavam sempre a visão que tinham, estimulando-a através de exercícios oftalmológicos, como toda a sua escolaridade era feita normalmente com livros de caracteres e imagens de maiores dimensões, cores vivas e uso de lentes nalguns casos. É fácil imaginarmos a vontade daquele pai oftalmologista em incentivar o seu filho e colega a iniciar e desenvolver aqui no nosso país uma obra que diminuía o número de indivíduos cegos, o que não é coisa de pouca importância! Juntar e entusiasmar os dois já citados colaboradores para uma obra tão importante não foi difícil, eles que carregavam o peso do sofrimento das injustiças por si vividas, pois que os seus objectivos de vida eram, em tudo, melhorar uma atrasada e injusta sociedade. A falta de espaço físico e de meios financeiros não os assustava nem impediu de avançarem para a realização daquela primeira obra no nosso país, pois para tudo contavam com as suas próprias capacidades de criar. Assim, Henrique Moutinho, sócio do Rotary Clube de Lisboa, conseguiu um donativo, com o que se adquiriu o indispensável mobiliário e equipamento, e que permitiu ainda um mês de estágio de Maria Amália nas classes de amblíopes de Paris. Maria Amália encarregou-se de toda a montagem para a inauguração oficial da primeira classe de amblíopes de Lisboa, do País, nas três salas que João dos Santos disponibilizou na cave do Colégio de que era sócio, hoje Colégio Claparède. A inauguração teve a presença de um representante oficial do Governo, que não deixou de chamar a atenção para o facto de um oftalmologista criar nas salas de uma cave uma unidade escolar para crianças que viam mal, algumas quase cegas. É-lhe respondido: “que assim acontecia por ser, na altura, a única possibilidade de se iniciar um trabalho de que se não vislumbrava semelhante iniciativa, mesmo oficial”. A faísca acendeu-se, o lume cresceu, não sem vários percalços no seu crescer, sempre pela falta de meios financeiros. Mas, os nossos poetas são boas traves para estes inovadores, quando escrevem: “O sonho comanda a vida” (António Gedeão) ou “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” (Fernando Pessoa). E nasceu, cresceu, diversificou-se, tornou-se: Obra Exemplar, rastilho para uma grande revolução no sistema educativo nacional quando ainda nem se falava da hoje tão badalada Escola Inclusiva. Hoje bem podemos afirmar que ela ali começou para continuar a afirmar-se. Mas, era evidente que aquelas instalações não eram convenientes e, sem meios financeiros para alugar um andar com condições, a inaugurada Clínica de Reeducação de Amblíopes teve que se ir adaptando aos espaços que lhe eram oferecidos gratuitamente. Passou então a funcionar numas salas independentes do Asilo António Feliciano de Castilho, onde antes tinha sido o consultório do Dr. Mário Moutinho. Já então se tratava de um rés-do-chão, com sala de aula, uma sala grande para receber as famílias, uma pequena cozinha onde os alunos almoçavam o que traziam de casa e a câmara escura própria de um consultório oftalmológico, o quarto onde dormia a professora de então (Maria Isabel), porque o que os fundadores e directores lhe pagavam não era suficiente para alugar um quarto. E ali passou a funcionar a classe do ensino primário para amblíopes, com o material indispensável ao emprego e estimulação da visão daqueles alunos, como por exemplo a Cartilha de João de Deus que usava já caracteres aumentados, ideia de Maria Amália em utilizá-la na nossa primeira clínica portuguesa de amblíopes. Entretanto, é criada em Lisboa a Fundação Raquel e Martin Sain, onde o Dr. Henrique Moutinho teve papel importante, pelo facto de ter tratado com êxito a esposa do grande rei do petróleo. Assim, deu então a conhecer ao Senhor Sain o que se estava a fazer pelas crianças amblíopes, entusiasmando-o para que a Fundação, alem de se dedicar a recuperar cegos adultos, passasse também a incluir crianças e jovens amblíopes e cegos, prontificando-se com os seus amigos e colaboradores a organizar estas unidades. Assim, é criada a Secção de Pré-Primária com a Prof. Cecília Menano a dirigir e Leonor Alvim como colaboradora, duas classes de Ensino Primário para amblíopes, à qual se juntam cegos, com Maria Amália a dirigir e as Prof Deline Martins e eu própria que desde a fundação trabalhava com os amblíopes e que tinha feito um estágio em Paris, nas classes oficiais de amblíopes, onde também já estivera Maria Amália. Esta nova estrutura da Fundação toma o nome de Centro Infantil Raquel e Martín Sain, que funcionou em duas casas, primeiro numa cave da Av. Óscar Monteiro Torres e depois na Av. D. Carlos, onde funcionavam todas as secções da Fundação. Este é o resultado da evolução, do desenvolvimento da pequena classe de amblíopes, inaugurada tão sem condições em Fevereiro de 1955. Já então os seus fundadores tinham bem presente que havia todo um caminho a percorrer para conseguir os grandes objectivos de integração de deficientes no ensino regular oficial. A Direcção da Fundação Sain teve a boa iniciativa de pedir ao Ministério da Educação a oficialização das classes do ensino primário, o que efectivamente acontece. Para exercerem as devidas funções as duas Professoras fizeram os necessários exames oficiais de Regente Escolar. Os alunos cegos iam aumentando, tudo corria bem, chegou-se mesmo a fazer uma exposição numa casa da Baixa, para divulgação do trabalho que ali se estava a fazer na educação e recuperação dos deficientes visuais. Mas dois anos depois a direcção da Fundação Sain não quis manter o Centro Infantil Raquel e Martin Sain e ficamos uma vez mais na rua. Desta vez foram os pais que se juntaram em protesto no Ministério da Educação exigindo escola para os filhos em idade escolar, cumprindo-se a lei oficial do país. Perante a justa exigência dos pais o Ministério da Educação dispensou duas salas numa escola oficial para os dois Postos Escolares oficiais e com esta mudança a classe infantil acabou. Mas estávamos ainda nos tempos em que deficientes não estudavam com os considerados não deficientes e houve na verdade rejeições a vários níveis e em todo o corpo docente da escola. Mas como disse logo ao princípio desta narrativa os seus criadores, orientadores, sabiam, cada vez melhor, que estavam a construir um futuro social e cientificamente certo e nenhuma dificuldade enfraquecia as suas vontades. João dos Santos e Henrique Moutinho convidam então Helen Keller para vir a Portugal, convite que ela aceita. Uma vez em Lisboa, mostram-lhe o que há já oito anos tinham criado e que ao longo desses anos foram desenvolvendo: escolaridade conjunta de crianças deficientes, cegas, e não deficientes. Helen Keller elogia fortemente este trabalho socialmente inovador que acabava com a segregação dos deficientes. Numa reunião com Azeredo Perdigão, na altura Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, Helen Keller entusiasma-o a apoiar monetariamente, de forma significativa, tão importante obra social. É então deste modo, com uma boa quantia, que as classes escolares podem sair das instalações da escola oficial onde eram indesejadas. A Liga da Profilaxia da Cegueira, entidade que sempre tem patrocinado este trabalho ao longo destes anos difíceis, mas sempre visando o seu sucesso, aluga um prédio de três andares no Jardim Constantino que em justa homenagem passa a ter uma placa na frente do edifício onde se lê Centro Infantil Helen Keller, denominação que jamais deixou de ter, embora hoje seja diferente a sua finalidade. É com a nova denominação, no ano de 1962, naquele prédio do Jardim Constantino que se dá um grande salto na já nossa conhecida Instituição: volta a ter a secção do ensino pré-primário, que terminara quando saímos da Fundação Sain. Ficou responsável agora por este sector a Dra Rosalina Tainha com o apoio de Maria da Graça Barahona. O número de alunos sem deficiência aumentou muito e entre eles estavam os filhos de vários colegas de João dos Santos e de amigos destes, um seu neto e outros alunos do ensino primário, num grupo que funcionava em casa da Maria Amália, mas, tal como no Centro Infantil Helen Keller, seguindo as Técnicas Freinet. Este emprego das Técnicas Freinet deve-se ao estágio feito pela Professora Maria Isabel na escola Freinet em Vence (A.M.) com o próprio pedagogo francês Célestin Freinet. Este aumento de alunos levou o Ministério da Educação a passar os dois Postos Escolares a Escola, com a Professora Manuela Cruz e as já ali a exercerem Regentes Escolares. Nesta data entrou também para o Centro o Prof. Sérgio Niza que tinha sido expulso do ensino oficial e que se encontrava com dificuldade em trabalhar mesmo no ensino particular. No 2º andar funcionavam o gabinete médico com dois oftalmologistas (Drª Sílvia Azevedo e Dr Ribeiro da Silva), psicólogos (Drª Dora Bettencourt e Dr Coimbra de Matos) e pediatra (Drª Josefina Ramos). A direcção deste sector eram o Dr Henrique Moutinho e o Dr João dos Santos. Em Agosto de 1963 o Drª Maria Amália parte para o Canadá terminando a sua Direcção que durava desde a inauguração desta obra sócio-educativa. Deixa um relatório dos 8 anos da instituição da qual fora co-fundadora e, todo esse tempo, sua directora pedagógica. Este relatório foi publicado na revista Strabismus, em 1973, da Liga da Profilaxia da Cegueira. Nele indica para assumir a direcção a Drª Ana Maria Toscano Rico Bénard da Costa que já trabalhava no Centro Infantil Helen Keller com um grupo de alunos amblíopes, mas com fortes atrasos mentais. Ana Maria quis assim adquirir conhecimentos práticos dos diversos tipos de alunos da instituição. Maria Amália escreve no referido relatório considerar Ana Maria a pessoa com competência para continuar toda a orientação seguida até ali. Ana Maria fica na direcção dois anos lectivos em virtude de ter sido convidada então a organizar os primeiros cursos para professores de alunos com deficiência visual já que, até então, apenas existiam cursos para professores de alunos com deficiência intelectual, ministrados no Instituto António Aurélio da Costa Ferreira. O então Centro Infantil Helen Keller deixa de funcionar no Jardim Constantino indo para um prédio apalaçado na Rua Monte Olivete. Na medida em que o sistema oficial vai tendo professores com preparação especializada, vai evoluindo e pouco a pouco os alunos cegos vão frequentando o ensino regular oficial. Por esta razão aquela instituição tão aberta às necessidades dos tempos sente que é altura de atender cada vez mais multideficientes. Assim, um grupo se organizou atendido pela Educadora, Eugénia dos Reis, com preparação para um trabalho especial com este tipo de alunos. Também para jovens com menos capacidades, que escolarmente pouco além iam do ler e escrever, foi criado um atendimento pré-profissional onde trabalhavam em várias ocupações e com diferentes materiais. Chegaram mesmo a trabalhar em ligação com empresas, para quem faziam embalagens de diversos objectos e que lhes pagavam o trabalho executado. Finalmente o Centro Infantil Helen Keller passa definitivamente para os terrenos facilitados pela Câmara de Lisboa, na zona do Restelo, onde são construídas as primeiras edificações pré-fabricadas. Neste despretensioso relato, procurei dar a conhecer o sonho e a valiosa obra tão mal-entendida nas dificuldades passadas pelos seus criadores, Henrique Moutinho, João dos Santos e Maria Amália Borges, a fim de a levarem ao final feliz, que em muito contribuiu para a evolução do sistema português de educação oficial. Aos Drs Paula Santos Lobo e Luís Grijó dos Santos, com o sempre presente sentimento de gratidão por tudo o que recebi do vosso pai, deixo-vos este relato absolutamente inédito. Maria Isabel Vieira Pereira 19 de Março de 2019


O XAVIER NÃO TINHA FAMÍLIA POR ACASO [1]

pai-mais-novo-compressed_smallJoão dos Santos (1913 – 1987) Quando o apresentaram, o outro perguntou: Você por acaso é filho do Xavier… Sou sim, mas não é por acaso! respondeu ele. Tinha razão em protestar, o Xavier. Não é fácil ser filho de alguém por acaso… mesmo que o sentido não seja pejorativo, quanto o Xavier quis interpretar. O mais frequente dos acasos é o do encontro fugaz ou o percalço na aplicação dum método anticoncepcional. Destas gestações por acidente, resulta às vezes o abandono pelo pai, da mãe e do filho. Julgo que nas sociedades matriarcais, não haveria este problema, porquanto quando a mulher casava era o homem que ia para o clã da mulher e o principal educador masculino era o tio materno. Depois desses tempos antigos, creio que sempre houve mães abandonadas e sempre a sociedade as rejeitou conjuntamente com os filhos. Quando uma vez há muitos anos, assisti a uma reunião num liceu, onde o Senhor Reitor tinha combinado com o Senhor Ministro, com uns senhores doutores e engenheiros e alguns aristocratas sortidos – pais de alunos – fazer uma Associação para dar livrinhos aos meninos bem comportados, um homem sensível propôs que a Associação protegesse e auxiliasse as viúvas e outras mães sem marido. A proposta foi metida a ridículo pelo Senhor Reitor e por toda a seita e deu lugar a muita galhofa. As urbes modernas constantemente em expansão incontrolada, são favoráveis à criação de grupos marginais, isto é, aos que são constituídos por pessoas que se não integram nos grandes grupos ideológicos. Esses grupos tomam hoje a dimensão dum Terceiro Mundo complementar dos que detêm o poder e dos que são cilindrados pela maquinaria publicitária e pelas ferramentas da sociedade de consumo. Há os que se comprimem, arregimentam e automatizam nas florestas de cimento e nas cinturas industriais e os chamados inadaptados que são afinal os que se adaptam ao caos das urbanizações mais ou menos clandestinas, toleradas por serem favoráveis à constituição de reservas de mão-de-obra barata. Há ainda nas grandes cidades do mundo de hoje, os bandos nómadas que mais parecem, por vezes, uma amálgama de fugitivos de si próprios sem uma verdadeira organização grupal e há ainda as comunidades de jovens que parecem apontar para o reencontro em rituais iniciativas das velhas culturas. Nestes microgrupos ou neste Terceiro Mundo, há factores culturais enriquecedores e há factores anti culturais empobrecedores. O problema de que agora nos ocupamos é o da causa de certas dificuldades de iniciação escolar que parecem ligadas a agrupamentos sem cultura não integrada e sem tradição cultural homogénea; deles provêm muitas das crianças que fracassam na escola primária. As crianças não entendem uma escola que não tem nada a ver com a sua realidade social; a escola não entende e rejeita essas crianças que falam outra língua. Famílias frustes provenientes desses meios, não preparam – na relação familiar – as crianças para receber na escola os instrumentos de cultura que ela fornece e impõe. Acontece que os pais normal mas inconscientemente, revivem os impulsos ternos ou hostis que vivenciam na criança que foram e que neles persiste; agem às vezes a favor, outras contra, a educação que receberam, ou aquela que é dada aos filhos na escola. Acontece ainda que, a forma como os elementos de um grupo familiar se relacionam, mesmo quando enquadrados na cultura comunitária se constitui em microculturas que todos nós conhecemos: cada família tem os seus hábitos, interesses particulares, atitudes e linguagem própria, que podem levar o outro grupo a ser sentido como estranho, incómodo, inquietante ou mesmo ameaçador. As pessoas duma família podem não admitir darem-se com as pessoas duma outra família, mas admitem dar-se com elas, num terreno neutro, na Rua, no Café ou no ambiente inspirador e envolvente do Templo ou da Academia Recreativa. Há muitas casas onde as pessoas podem ir bater à porta; há menos casas onde elas podem entrar; há apenas algumas onde podem ir comer; raríssimas aquelas onde podem ir dormir e tomar banho na tina. A escola primária é – ou deve ser- o ambiente familiar, onde todas as crianças de todas as famílias se possam sentir bem acolhidas, qualquer que seja o seu cheiro, forma, encadernação ou linguagem. O clima da escola é oficialmente suposto ser acolhedor, mas pode acontecer que ele seja sentido pelas crianças como hostil ou rejeitante. Não depende só da escola que a criança se sinta envolvida, depende também dos pais que podem saber suavemente introduzir a criança no ambiente escolar, ou que agressivamente a empurrem para dentro daquela casa de estranhos; às vezes os pais fazem-no com ternura apoiante, outras com fatalismo ou passividade cívica; frequentemente entregam-na como penhor duma promoção familiar e acontece até, que as suas intenções sejam manifesta ou latentemente punitivas! Usa dizer-se, como eu tenho estado a dizer, que os pais: são, fazem, dão… mas o drama da criança é que os pais às vezes não são, não fazem, não dão – aquilo que à criança daria jeito para fazer com outros – adultos e crianças – intercâmbio cultural. Um sistema de trocas não é coisa fácil de organizar numa pessoa em devir, como o não é ao nível dos adultos, das instituições e dos países. As crianças vão à escola para serem educadas, diz a administração. Ou será para serem arregimentadas? As crianças vão à escola para se fazerem homens, dizem os pais. Ou será para se promoverem socialmente? As crianças vão à escola para aprender, dizem os professores. Ou será para serem ensinadas? Na verdade, as crianças deveriam ir à escola para encontrarem a alegria e para aprenderem a fazer algo de satisfatório da tristeza da separação e da angústia provocada por certas situações; a adquirirem sabedoria através dos modelos humanos que se lhes oferecem; a aprender a lutar com adversários (maneirinhos) e a utilizarem os instrumentos de cultura postos à sua disposição. A alegria e a tristeza aprendem-se na relação com a mãe, mas quando os ritmos ou o equilíbrio entre as duas formas de estar, não são favoráveis a uma resolução mental, a criança aprende a esconder a tristeza com a falsa alegria da instabilidade, com comportamentos provocatórios ou com doenças várias. Se a aprendizagem da relação afectiva com a mãe e a da resolução mental da depressão, se não faz adequadamente antes da escola, a criança não pode aceitar o que lá se ensina porque apenas vê nela, uma tralha informe de instrumentos que a torturam e que não servem as suas necessidades afectivas. Ela quer ser amada e encontrar a quietação num ambiente tranquilizador e fornecem-lhe casas e matérias desafectadas como as letras e os algarismos, as canetas e os papéis. A função maternal que é de protecção e de envolvimento, durante o primeiro ou os dois primeiros anos é interferida a dada altura (não muito precisa) pela função paternal, função separadora da simbiose primária. É nessa altura que a mãe passa a ser vista pela criança não apenas como a pessoa que a envolve e lhe dá tudo, mas também como o objecto de amor do pai. Da competição que daí resulta nasce a inteligência abstracta e o saber registável sob a forma de Trabalhos, Obras ou Escritos. A maior parte das crianças com dificuldade de iniciação à aprendizagem escolar, são crianças em que a função maternal (a de dádiva envolvente) se não exerceu de forma favorável à interferência do pai, no exercício da função paternal, isto é, da função de terceiro elemento da estrutura familiar (e psíquica). Quando falha o exercício da função paternal a aprendizagem do que é exterior à relação afectiva entre a criança e a mãe, não é por ela aceitável e às vezes não é possível porque não faz sentido. A criança, para aprender na escola, necessita ser portadora de imagens interiorizadas e de amigos, de mãe e de pai, que possam ser reunidos ou sintetizados depois de imaginariamente terem sido separados ou analisados. Só falta acrescentar, para que tudo se torne mais claro que, em meu entender, a mãe pode exercer sobre o filho uma função paternal como o pai uma função maternal complementar das respectivas funções essenciais. Razão tinha o outro que era inteligente (quer dizer, tinha humor) para dizer: eu sou filho do Xavier, mas não é por acaso. [1] SANTOS, João. Ensaios sobre Educação – I: A Criança Quem É? 2. ed. Lisboa: Livros Horizonte, pp.40-43, 1991.


SE DEUS EXISTE É UM GRANDE GEÓMETRA

A necessidade de limitar o espaço geométrico é essencial para o desenvolvimento afetivo e intelectual da criança

Clique na seguinte ligação para ouvir a gravação desta conversa da RÁDIO com João dos Santos e João Sousa Monteiro (30 minutos). SE DEUS EXISTE É UM GRANDE GEÓMETRA


pde50-banner-site - A nova formacao de professores Antonio Novoa

NUNCA, NUNCA A HUMANIDADE PRECISOU TANTO DE PROFESSORES COMO PRECISA HOJE…

António Nóvoa em 18 de Setembro de 2018 18 de Setembro de 2018 | PdE#50 – A nova formação de professores com António Nóvoa, encontra-se no site Papo de Educador.


Ouvi o Dr. João dos Santos dar uma gargalhada e… deu a reunião por acabada… *

 
Isabel Pereira MEDIUMCarta da Professora Maria Isabel Vieira Pereira dirigida a Luis Grijó dos Santos em 21 em Maio de 2018
 

Dr Luís Grijó dos Santos, O Dr. João dos Santos que fora meu professor de psicologia no Curso da Escola João de Deus, sabia bem que eu não tinha qualquer formação especializada em qualquer deficiência. No entanto, não deixei de lho lembrar. Com aquela maneira simples de grande mestre, respondeu-me: «qualquer aluno deficiente é, antes de mais, uma criança e nós cá estamos para a ensinar, o que também estamos a aprender; quer aprender?” Eu só lhe pude garantir o meu desejo de aprender, aprender sempre, porque preparada para o trabalho que me oferecia, sabia bem como eu não estava. Ele garantiu-me, não só os seus permanentes ensinamentos, como o contacto com pessoas com quem eu muito iria aprender. Era-me impossível não entrar no projecto daqueles mestres sonhadores e assim iniciei a minha docência na classe de ensino primário para amblíopes. Na verdade, nunca duvidaram da minha imperiosa vontade de superar dificuldades, e melhorar atitudes. Foi assim que entendi a mensagem que João dos Santos me enviou aquando de uma situação de conflito que muito me surpreendeu e doeu, por ser entre mim e colegas de trabalho em quem confiava e de quem esperava mais compreensão. Escreveu-me nessa altura João dos Santos:

“Recebi hoje a sua carta de 2. Espero encontrar no meu regresso o seu relatório. De qualquer forma, do balanço das suas faltas ou defeitos e das suas qualidade e aptidões, eu acredito desde já que o balanço lhe é favorável. Cumprimentos do ex-professor e amigo.” 26/X/66,

Este entender de mim que o Dr. João dos Santos tinha desde que fora meu professor na Escola de Educação senti-o não só então, mas em várias circunstâncias ao longo dos anos. Sempre com poucas ou nenhumas palavras de parte a parte. Significativo foi, por exemplo, o que se passou numa das habituais reuniões de estudo com a equipa da escola e a presença daquele mestre. Cada professora e educadora falava do que queria: do trabalho, dos seus alunos, das dificuldades, dos sucessos. O Dr. João dos Santos ouvia, pedia a opinião dos presentes sobre o que tivesse sido apresentado e, quando entendia, falava então à sua maneira. Eu trabalhava naquele ano com uma 1ª classe, tendo como era já prática corrente na escola, crianças cegas, amblíopes e sem deficiência visual. Acontecia também que, nesse mesmo ano de 1974/1975, eu frequentava um curso de aperfeiçoamento da Especialização em Deficiência Visual. Na dita reunião, algumas colegas já tinham falado das dificuldades de aprendizagem dos seus alunos e eu senti necessidade de pôr ali em comum uma constatação que, para mim, vinha sendo muito evidente. Por motivo do citado curso, eu faltava várias horas Junto dos meus pequenos alunos. Tinha sempre o cuidado de lhes dizer quando ia faltar e porquê: que estava também eu a aprender mais coisas com professores que sabiam mais do que eu, deixava o trabalho da classe mais ou menos organizado e os dias decorreriam normalmente. Lembro-me que quase tremia de emoção ao contar que efectivamente os meus alunos não apresentavam quebras no seu ritmo de aprendizagem, o que se tornava mais evidente pela sua aprendizagem na leitura, própria para uma 1ª classe, claro. O que me levava a verificar que os meus alunos iam aprendendo porque realmente queriam aprender, iam aprendendo mais uns com os outros, mergulhados no mesmo ambiente estimulante criado no grupo do que, estando presente, eu lhes pudesse ensinar. Ouvi o Dr. João dos Santos dar uma gargalhada e eu, aflita, atrevi-me ainda a afirmar: “é verdade, se eu falto e eles aprendem, é porque não sou ‘ou quem os ensina.” O olhar do mestre tranquilizou-me, deu a reunião por acabada, sem que a maioria dos presentes tivesse entendido bem porquê. Sabes Deus o que ainda hoje me custa relatar estas coisas, tal a força da verdade pedagógica e não só, nelas contidas. Com um abraço de Isabel Pereira 21 de Maio de 2018


Menino de 7 anos leva irmão à escola para não perder aula

 
 
 
 

“Eu não quero sair, senhorita. Vou trazer meu irmão neste ano porque minha avó tem de trabalhar na fazenda e ninguém pode cuidar dele”, explicou Justin à professora sobre ter levado o irmão à escola…

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“A criança não faz outra coisa desde que abre os olhos, ao nascer, se não tentar aprender.”

João dos Santos Insucesso Escolar: Conversa de rádio entre João dos Santos e João Sousa Monteiro (30 minutos), 1984.


COMO ENCONTRAR O FUTURO EM JOÃO DOS SANTOS [1]

Dra Maria Jose Vidigal - Como Encontrar o Futuro em Joao dos Santos - 12 Janeiro 2018Dra. Maria José Vidigal [2] Associação PsiRelacional Lisboa, 12 de Janeiro de 2018 * Pode baixar aqui o texto completo desta palestra em formato PDF João dos Santos nasceu a 15 de Setembro de 1913, oriundo de uma família da média burguesia, num bairro antigo da cidade de Lisboa. E, assim escreveu mais tarde: Nasci num lugarzinho simpático com um ajardinado e uma pequena igreja no meio – a igreja dos Anjos. Foi educado de acordo com os valores da liberdade por um pai que se bateu pela República, sob as ordens de Machado dos Santos [3] (1875-1921) que lutou pelos ideais republicanos. João dos Santos tinha 3 tias, irmãs da mãe, mais ou menos adoráveis, como escreveu um dia: – […] aprendi […] com a tia Virgínia a apreciar a inteligência dos homens cultos e a cultura que vem nos livros. O marido desta tia foi deportado para Angola, acompanhado pela mulher, depois do 28 de Maio de 1926. – Com a tia Ermelinda aprendi a apreciar os petiscos; Fazia filhós na véspera de Natal […] – Com a tia Aurora aprendi a ler […] Um dos tios esteve preso na Cadeia do Aljube. Este edifício foi uma instalação prisional desde a ocupação muçulmana de Lisboa (séculos VIII-XII). Usado posteriormente como prisão eclesiástica, sofreu sucessivas adaptações e, após várias vicissitudes, depois de 1928, passou a ser a cadeia dos presos políticos e sociais do Estado Novo, de Salazar. Finalmente foi encerrado em 1965. Hoje pode ser visitado e alberga o Museu da Liberdade e da Resistência, sendo também ocupado pelos serviços do Ministério da Justiça. Por ter nascido e vivido num bairro popular, João dos Santos foi impregnado pelo bulício das ruas e dos pregões das vendedeiras A mulher da fava rica, o aguadeiro que cantava há hú […]. A senhora do “ierre, ierre, erre, mexilhão” […]. Ainda se viam os rebanhos das cabrinhas e as manadas de vacas que eram ali mesmo mungidas à vista do freguês. Tudo isto eu vi e ouvi e com isto compus algumas histórias que conto a mim próprio […] como se fossem verdadeiras. Na rua juntava-se com outros miúdos do bairro e jogava ali no Largo da Rua Maria à bilharda no Outono, ao pião no Inverno e “atirar barro à parede” na Primavera e ao berlinde no Verão. Jogar à bola de trapos era quando não chovia […] João dos Santos frequentou a escola da Dona Marquinhas, que recebia em sua casa os garotos do Bairro e o Sr. Castro, seu marido, o das grandes manápulas que nos cascava às vezes, eram liberais e livres pensadores […]. Vou transcrever o que escreveu sobre a Escola: Andar na escola é uma expressão muito adequada para explicar que andávamos por lá à procura de uns recantos, nos corredores, na escada e na ‘casinha’, onde a nossa imaginação florescesse, ou andávamos a fugir para outros locais fora da escola, onde a nossa imaginação frutificasse. Andávamos a fazer jogo dramático sem sabermos. O brincar escapa aos adultos que frequentemente o vêem como algo separado do aprender, o que é não só absurdo, como abusivo e cruel. […]. Dançar, dramatizar, está, como se sabe, na origem de tudo o que é pensar. A base de toda a educação é a livre experiência. Depois quando foi para o Liceu, descobriu a Feira da Ladra, que era um mundo, como dizia! A sua educação audiovisual recebeu-a através das janelas do Mosteiro de S. Vicente que dá sobre o porto de Lisboa e nas incursões que fazia à Mouraria, Alfama, Campo das Cebolas e às docas das imediações e noutros bairros, praças e jardins, até no Campo de Santana, onde assistiu às cerimónias ao Dr. Souza Martins, que tem uma estátua em frente à Escola Médica. Este médico foi professor na Faculdade de Medicina de Lisboa e ficou célebre pelos conhecimentos científicos e idolatrado pelos pobres, considerado milagreiro. Também havia os encontros clandestinos com amigos, conhecidos e desconhecidos. A dois passos ficava a Faculdade de Direito e havia então reuniões dos alunos das duas Faculdades. Certo dia, estavam os alunos reunidos e anuncia-se a entrada da PIDE [4] na Faculdade. Rapidamente, o professor de anatomia, o Professor Vilhena, que estava numa reunião política com os alunos, simulou uma aula! Da imensa lista de cientistas, médicos e professores, irei citar alguns que ele conheceu ou mesmo conviveu: – Cesina Bermudes – proibida de exercer em qualquer hospital do país. Dado ser obstetra recebia as suas parturientes no Centro Materno-Infantil Dona Sofia Abecassis (onde João dos Santos também trabalhou) e fazia os partos na Clínica Cabral Sacadura e, nas que nada podiam pagar, talvez os fizesse em casa, arranjando ela os medicamentos junto dos Laboratórios. Cesina e Monjardino introduziram em Portugal o chamado parto sem dor. – O físico Mário Silva, pioneiro em várias áreas da Física, foi demitido e com ele mais 13 professores! Acabou por emigrar! – Bento de Jesus Caraça, matemático e um dos maiores vultos da intelectualidade portuguesa. Foi com ele que o universo cultural da Matemática ganhou uma nova dimensão. Foi professor universitário e militante do partido comunista. Fundou e colaborou com colegas, nomeadamente Mira Fernandes, as revistas Seara Nova e Vértice. Foi preso pela PIDE e demitido; morreu com 48 anos de doença cardíaca. – Abel Salazar, médico e cientista de renome internacional. Formou-se com 20 valores, na Faculdade de Medicina do Porto. Era um Homem completo: cientista, escritor, pintor, filósofo, professor universitário, deu cursos de Artes. Foi demitido de todos os cargos e proibido de exercer qualquer actividade. – Outros exemplos de figuras de renome no nosso país, que foram demitidas: Aurélio Quintanilha, Manuel Rodrigues Lapa, Sílvio Lima. – Manuel Valadares que se licenciou em Física na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e faleceu em 1982. Também foi Assistente do Instituto Português de Oncologia (IPO). Esteve 2 anos a trabalhar no Instituto do Rádio de Genebra e aperfeiçoou as suas capacidades de investigador no Laboratório Curie, onde obteve o doutoramento em 1933, sob a supervisão de Marie Curie. Depois de regressar a Portugal, dedicou-se a investigar Física Nuclear e a Electrometria dos Raios X. Esteve um ano na Itália num Laboratório de Investigação e regressou a Portugal e em 1947 foi demitido por Salazar, juntamente com um grupo grande de destacados cientistas e professores universitários. Nesse mesmo ano regressou a Paris, a convite de Irène Joliot-Curie, onde ocupou diversos cargos académicos. Chegou a ser director do Centro de Investigação em Paris e, uns anos depois, director do Centro de Espectrometria Nuclear e de Espectrometria de Massa, em Orsay, até 1968. Foi premiado pela Academia das Ciências, em França, e em Portugal, depois do 25 de Abril: Membro Honorário da Sociedade Portuguesa de Física, em 1979. O Governo conferiu-lhe o Grau de Oficial da ordem de Sant’Iago da Espada, por serviços prestados ao país e em 1981- Grau de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Lisboa. O próprio poeta Fernando Pessoa, inicialmente simpatizante do regime de Salazar, em 1935, no último ano da sua vida, envia uma carta a Carmona, Presidente da República, acusando Salazar de se ter afastado da Inteligência portuguesa. Faço referência a todos estes intelectuais porque, seguramente, tiveram muita influência no percurso de vida de João dos Santos, sempre fiel aos seus ideais democráticos. João dos Santos começou por tirar o Curso da Escola Superior de Educação Física e foi professor no ensino privado e nos Cursos de Divulgação de Educação Física, nos bairros populares de Lisboa. Em seguida licenciou-se em Medicina e fez o estágio em Neurologia. Desde jovem compreendeu que a Educação e a Saúde tinham que ver com a democracia e que eram incompatíveis com a ausência de Liberdade. De facto, era um Homem moderno e intemporal e… movia-se sempre no sentido da descoberta. A sua formação humanista e democrática, possivelmente ter-se-ia cimentado no contacto, sobretudo em Paris, com grandes intelectuais, desde Valadares, que acabei de referir, e mais: – Soeiro Pereira Gomes, escritor e militante comunista. Tirou o Curso de Regente Agrícola em Coimbra, esteve um ano em Catumbela (Angola), onde exerceu a sua profissão. Morreu aos 40 anos de cancro do pulmão. – Joaquim Seabra Dinis (1914-1996) licenciou-se em Medicina, na Universidade de Coimbra e tirou o Curso das Ciências Pedagógicas na Faculdade de Letras. Foi um brilhante intelectual e com uma grande capacidade de trabalho, colaborando em diversas revistas e jornais. Dedicou a sua vida profissional à Psiquiatria, participou na organização dum plano nacional da assistência psiquiátrica. Apesar de ter uma formação organicista em relação à Psiquiatria, no que respeita à Psicanálise, fez uma profunda análise às suas capacidades e limitações, não se limitando a uma crítica destrutiva. Chegou mesmo a realçar a investigação séria e profunda que Freud fez da mente humana. – Gustavo de Castro, Armando Pena e tantos outros. Em 1941, João dos Santos estagiou numa instituição onde se fazia o diagnóstico, tratamento e reeducação das crianças e adolescentes, de todo o país, que manifestavam anomalias psíquicas – era o Instituto António Aurélio da Costa Ferreira. Ainda eu própria fui à Biblioteca, que era uma das melhores do país, se não mesmo da Europa, pela intervenção do Professor Vítor Fontes. Tinha um ficheiro muito bem organizado, que me serviu de inspiração. Todavia, a faceta centralizadora do Instituto António Aurélio da Costa Ferreira, desencantou-o de tal modo que o levou a pedir a demissão para ir trabalhar para o Hospital Júlio de Matos (1941), iniciando a prática com o seu Mestre Professor Barahona Fernandes. Entretanto, por ter assinado um documento a pedir eleições livres, a 5 de Janeiro de 1945, saiu um Despacho emitido pelo Subsecretário de Estado de Assistência Social, Trigo de Negreiros, que referia: Declaro sem efeito o meu Despacho de Setembro de 1945 na parte em que autorizo o Hospital Júlio de Matos a contratar o médico João Augusto dos Santos. Nessa altura foi chamado ao Subsecretário para lhe comunicarem que era não só demitido das suas funções oficiais, mas também ficava proibido de entrar naquele ou em qualquer outro hospital. Numa atitude corajosa e arriscada, o Prof. Barahona Fernandes disse: Enquanto eu for Director deste Hospital, o Dr. João dos Santos entrará no meu Serviço quando quiser! (22 de Janeiro de 1940). João dos Santos não entrava pelo portão principal, mas por um outro ao lado, que era o do acesso à casa do Professor. Porque ficou sem remuneração e para evitar problemas a Barahona Fernandes, a quem ficou sempre grato, partiu para Paris com a mulher (os seus filhos Zé e Paula permaneceram em Lisboa) em 1946 onde trabalhou, durante quatro anos, no Centro de Pesquisas Científicas de França e no Laboratório de Biopsicologia da Criança, contactando com grandes nomes da Psicologia, Psiquiatria e da Psicanálise, tais como, Henri Wallon, Georges Heuyer, Julian de Ajuriaguerra, Henri Ey, depois com René Diatkine e Serge Lebovici. Estes dois últimos seguiram as novas correntes psicodinâmicas e tornaram-se psicanalistas. Lebovici foi o pioneiro da psicanálise infantil em França. O seu contacto estendeu-se também a outros intelectuais e artistas nomeadamente Picasso, Paul Éluard, Louis Aragon, e a portugueses (Alves Redol, Fernando Lopes-Graça…) que também estavam no Congresso Mundial dos Intelectuais para a Paz, em Wroclaw (ainda em ruínas na sequência da II Guerra Mundial), na Polónia, em Agosto de 1948, em homenagem a este povo mártir. Em 1947, João dos Santos foi admitido pela Comissão de Ensino na Sociedade Psicanalítica de Paris e, em 1950, regressou a Portugal. Em 1965 foi nomeado Director do Centro de Saúde Mental Infantil de Lisboa, em detrimento do Professor Schneeberg de Athayde. Com poucos técnicos, começou por visitar todas as instituições dedicadas à infância, de Lisboa e Grande Lisboa. A primeira visita (à noite), foi ao Instituto António Aurélio da Costa Ferreira, onde ele, no passado, tinha sido Assistente. Eu própria tive a oportunidade de assistir a essa reunião, se bem que fosse estagiária no Hospital Júlio de Matos, tendo como Assistente António Esteves, recentemente falecido. Aliás, foi ele que me o apresentou, dizendo: Aqui está o Dr. João dos Santos, a pessoa com quem você poderá aprender a psiquiatria da criança. Então João dos Santos convidou-me a assistir às reuniões que ele fazia na Clínica Infantil e a outras, tal como no Costa Ferreira. Na que foi realizada nesta instituição, uma jovem professora, bonita, apresentou o caso de uma criança que tinha sido seguida, sem sucesso (como teve o cuidado de sublinhar), no Centro de Saúde Mental Infantil de Lisboa, acabado de se formar. A senhora utilizou uma técnica de Vítor Fontes que compreendia, entre outras coisas, a apresentação de uma série de pranchas e exprimia-se com muito entusiasmo. Depois Vítor Fontes perguntou-lhe qual a opinião sobre o método que tinha sido utilizado para levar a tal sucesso. A resposta de João dos Santos, não agradou minimamente a Vítor Fontes: O que salvou esta criança, evitando o fracasso escolar, foi a extraordinária relação que a professora estabeleceu com ela… No Instituto António Aurélio da Costa Ferreira, no início, ninguém podia falar em João dos Santos, mas depois os ânimos acalmaram-se, devendo-se essencialmente à capacidade conciliadora de João dos Santos. Eu, decepcionada com a Psiquiatria Geral, pensei logo em seguir aquela especialidade, se bem que ainda não estivesse organizado a carreira do Internato Médico da Especialidade em Pedopsiquiatria. Uma primeira grande lição, à época verdadeiramente revolucionária e, sem cair em exageros: as famílias e as crianças que atendemos nos Serviços Públicos, merecem-nos tanto respeito como as que atendemos no privado. Isto significava que a maneira de receber as pessoas, a pragmática social adequada à situação, não diferia quer se estivesse num local ou noutro. E, de igual modo, o não fazer esperar as famílias, como era corrente nos serviços públicos. E assim, a prostituta que actuava no Cais do Sodré, era recebida com a mesma deferência que a doutora que vinha à consulta! O efeito e o impacto que esta atitude tinha sobre as mães, só é possível apreciar e valorizar quando se viveu uma tal situação. Era um gosto vê-lo observar uma criança, nunca interpondo uma mesa ou secretária e, como dizia, em primeiro lugar é necessário deixarmo-nos observar […]. João dos Santos actuava da mesma maneira, quer estivesse no serviço público quer no consultório, como tive ocasião de observar. Além de psicanalista de adultos, ele reservava uma tarde por semana para crianças e respectivas famílias, com a colaboração dos colegas mais novos: seguiram-se vários, tal como Manuela Reis, Margarida Mendo, eu própria, depois Teresa Ferreira e outros. Foi uma experiência fundamental para a minha formação. Ele fazia a entrevista com os pais e eu observava a criança. Depois vinha ter comigo ao gabinete e colocava a questão: Porque é que acha que os pais pediram a consulta? Foi a forma mais importante de aprendizagem da clínica de psiquiatria da infância. João dos Santos dinamizou e participou na fundação de instituições e serviços, abrangendo diversas áreas da Saúde e da Educação, dando uma nova perspectiva à Prevenção e ao tratamento das perturbações psíquicas da criança. Em 1954, fundou com Rosa Bemfeito, o Colégio Eduardo Claparède e com Maria Amália Borges (1919-1971) criaram os dois primeiros centros psicopedagógicos – na Voz do Operário e no Colégio Moderno (que pertencia a Mário Soares, que foi Presidente da República, em Portugal, após o 25 de Abril). Anos depois fundou o Centro Infantil Helen Keller, a Liga Portuguesa dos Deficientes Motores, a Associação Portuguesa de Surdos… E não parava: assim, criou ou ajudou a criar uma série de instituições e fundou com as médicas Maria de Lurdes Levy (1921- 2015), a segunda mulher a doutorar-se em Medicina, em Portugal, e Dora Bettencourt, a Liga Portuguesa contra a Epilepsia e colaborou na criação do Centro de Saúde Mental Infantil de Lisboa, do qual foi o 1º Director, na década de 60 do século XX. No Dispensário Central e no Hospital Pediátrico Dona Estefânia existiam equipas de serviço ambulatório, tal como nas Clínicas Infantis do Hospital Júlio de Matos. Também foram criados outros serviços: Laboratórios de Bioquímica e de Electroencefalografia; a Escola dos Cedros (Serviço para Adolescentes); a Unidade da Primeira Infância (UPI); a Casa da Praia – Externato de Pedagogia Experimental. Foi o inspirador do IAC – Instituto de Apoio à Criança. E promoveu colóquios e seminários para alertar os técnicos e políticos para os problemas das crianças. E, como disse João Sousa Monteiro ele criava coisas não para as reter, mas para as lançar… No Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria, de manhã, fazia reuniões abertas com os psiquiatras, às quais eu também assisti, em que apresentavam doentes difíceis para que ele os entrevistasse e os ajudasse na orientação… Foi desta forma informal que ele sensibilizou uma série de técnicos de todas as especialidades nas áreas da Psiquiatria, da Psicologia, da Educação, da Saúde e da Justiça. Recordo que, um dia, uma das professoras da Clínica, no Hospital Júlio de Matos, apanhou um estalo de uma menina doente. Ela, desesperada com a situação, apanhou um táxi e foi ao centro da cidade onde se localizava a sede do Centro de Saúde Mental Infantil de Lisboa, apresentar a sua demissão por se ter sentido incapaz. Ora bem, João dos Santos, não só não lha deu, como organizou um Colóquio que tinha por tema as reacções e atitudes dos técnicos face aos doentes … Outra prova que ele fazia (que eu designava por prova de fogo) era entregar uma criança ou um adolescente a um estagiário de qualquer área que viesse pedir um estágio. Nunca dava qualquer informação clínica. Em conclusão: ou o candidato aguentava a situação ou então desistia, como aconteceu algumas vezes! Eu não fui sujeita a esta prova, nem a uma entrevista prévia, como acontecia a todos que pretendessem fazer um estágio no Centro, muito provavelmente devido à intervenção de Margarida Mendo (1923-2006) por quem ele tinha especial consideração e com quem eu tinha trabalhado e também colaborado num estudo sobre Prematuros nascidos na Maternidade Alfredo da Costa, no ano de 1960. João dos Santos considerava que a construção da saúde mental se iniciava na infância precoce, mesmo antes do nascimento, e assim, a investigação nesta área, em Portugal, teve início há mais de 50 anos, em que lançou a psiquiatria da infância e da adolescência, a nível europeu. Além disso considerava que a saúde mental não é um campo estritamente médico, necessitando da contribuição dos educadores, professores, de sociólogos, filósofos, urbanistas e que era um assunto demasiado sério para ser entregue só aos psiquiatras. Ao falar com o psiquiatra, grande amigo, companheiro e seu primeiro assistente, Pistacchini Galvão (1925-2017) afirmou, na década de 70 do século XX: Maria José, tivemos muita sorte em termos conhecido e termos sido formados por João dos Santos que foi, sem dúvida, um daqueles Homens que raramente aparecem no panorama científico do nosso país! João dos Santos tinha uma particularidade que irritava sobretudo os médicos vindos do estrangeiro – não dava bibliografia. Mas, como dizia Margarida Mendo: Ele não dizia leia isto ou aquilo… mas ao pé dele ficava-se mais inteligente e o que ele nos ensinava não vinha nos livros. João dos Santos foi o criador da moderna saúde mental infantil em Portugal e o grande impulsionador na viragem da especialidade de Psiquiatria Infanto-Juvenil, que passou depois a uma especialidade autónoma em relação à Psiquiatria Geral. Mas mais: devolveu-nos um novo olhar sobre o desenvolvimento da criança e sobre a educação na família, na escola e na comunidade, criando concepções originais para a formação de pais e professores. Com o seu jeito muito particular, de voz pausada e tranquila, lutou pela criação de serviços de saúde mental que continham as sementes da prática e dos princípios científicos que preparavam o futuro. Criou uma obra que ainda hoje ajuda a compreender as causas mais profundas do sofrimento psíquico da criança, do adolescente e do jovem. Mas o seu interesse também se estendia em ter uma relação muito viva com a Arte e os artistas e chamar a atenção para a responsabilidade de cada um na vida pública. João dos Santos, na década de 60, do século passado, criticava a escola em Portugal porque não desenvolvia as capacidades criativas da criança. Cerca de 40 anos mais tarde, em 1998, Sir Ken Robinson, líder cultural visionário que liderou o Comité Consultivo sobre a criatividade e a educação cultural no Governo Britânico, chegou à mesma conclusão: as escolas estavam de facto a criar bons trabalhadores, mas não pensadores criativos! Por exemplo, os alunos inquietos de espírito e mesmo os hiperactivos, habitualmente são estigmatizados, com terríveis consequências. E, quase sempre, a energia e a curiosidade destas crianças nunca são valorizadas e, portanto, aproveitadas. Ora bem, João dos Santos teve sensivelmente a mesma opinião! Nós tratávamos crianças hiperactivas, após um diagnóstico rigoroso da patologia subjacente, utilizando apenas métodos psicoterapêuticos. Assim, ele dizia também que não se dava qualquer valor à importância da Arte para a formação da criança, dos pais e dos professores, considerando que, o que mais se aprendia na vida não vem nos livros: amar, brincar, dançar, que estão na origem do pensar. Daí o ter estabelecido contacto com a Escolinha de Arte de Cecília Menano. João dos Santos defendia o sonhar e o pensar para se opor à administração indiscriminada de drogas, que apenas faziam bem aos calos e à queda do cabelo, como ironizava. Há cerca de 60 anos dizia que o mais importante no nosso trabalho, consistia em estabelecer, em primeiro lugar, uma relação com a criança cliente, depois com os pais consultantes, ambos potencialmente clientes, tendo necessidade de cuidados. Assim, para além do seu interesse pela criança, também não esqueceu os pais, estabelecendo com eles uma aliança terapêutica, o que constituía um elemento-chave no tratamento. A nossa ambição é a de tornar a sua existência e a dos filhos mais suportável, como defendia João dos Santos. Para ele, não fazia sentido, estudar a psicologia ou a psicopatologia da criança como um ser isolado – estabelecer e fortalecer uma relação humana entre eles, é o nosso objectivo. Daí o facto de ser perigoso fazer-se uma aliança com a criança contra os pais. No entanto, tornar relevante o seu papel, não é de modo nenhum culpabilizá-los. Mesmo, por vezes, quando a atitude dos pais é de profunda hostilidade, apenas serve para esconder a sua angústia. […] quem vive emocionalmente mal, tem mais probabilidade de adoecer […] A família actual, face às rápidas e profundas modificações socioeconómicas, tende a fragmentar-se e a alienar-se, correndo o risco de aparecerem perturbações mentais, particularmente evidentes nas grandes metrópoles. Pelo facto de ter sido disléxico, desde muito cedo (anos 40 do século passado), João dos Santos esteve ligado aos problemas da educação, quer estudando e discutindo com outros companheiros, quer no plano prático, dialogando com as meninas órfãs e asiladas ou outros meninos das escolas dos Bairros Populares de Lisboa. Estabeleceu contacto com Maria Amália Borges (1919-1971), a primeira mulher em Portugal a formar-se em Pedagogia, a quem se deveu a redescoberta da grande aventura Pedagógica de Célestin Freinet (1896-1966) e dos métodos da Escola Moderna, nesse Portugal cinzento e amordaçado. No Centro Infantil Helen Keller, dedicado às crianças cegas ou com visão deficiente, integraram-se, pela primeira vez em Portugal, crianças sem quaisquer problemas nessa área. E foi nesta escola ímpar que se introduziu a pedagogia de Freinet, instituição à qual João dos Santos também esteve ligado. Aliás, podemos dizer que esteve ligado a todas as correntes modernas e inovadoras no nosso país, quer da área da pedagogia quer da área da saúde mental infantil. Freinet é outro nome que não podemos esquecer. Foi o facto de ter experiências desagradáveis na escola que o levou depois à necessidade de a modificar. Ao casar com uma artista plástica, o casal formou a sua própria escola. O facto dos seus métodos de ensino serem divergentes da política oficial, causavam desconfiança e daí ter sido exonerado. Com o escritor Romain Rolland (1866-1944) lançou um projecto Frente da Infância. Freinet esteve preso num campo de concentração, onde adquiriu uma grave doença pulmonar, o que dificultava a sua actividade como professor, dado não poder falar muitas horas, o que o levou a introduzir na escola o uso da imprensa. Nada o demoveu de prosseguir os seus ideais em relação à modificação da escola, lançando mesmo uma campanha nacional para que cada classe tivesse apenas 25 alunos. Em vários países existe, nestes últimos anos, uma preocupação crescente em instalar programas de acções preventivas e terapêuticas no domínio da primeira infância, e na investigação das diferentes parentalidades e na necessidade de definir as noções de risco e de resiliência. De igual modo se tem estudado as competências sensoriais e interactivas precoces da criança. Na década de 60 do século XX, ouvimos João dos Santos criticar e lamentar a indiferença das entidades superiores, quando defendia a necessidade e a obrigatoriedade de se estabelecerem medidas preventivas. E esses programas seriam mais facilmente exequíveis nos Serviços Materno-Infantis dos Centros de Saúde. Daí ter iniciado essa intervenção no Centro Materno-Infantil Dona Sofia Abecassis e, anos depois, no Centro Polivalente Domingos Barreiro, na cidade de Lisboa. João dos Santos defendia que essa integração nunca devia ser imposta por decreto, de modo que, foi a pedido do pediatra Rosa Paixão, ao qual se seguiu uma série de palestras sobre a saúde mental infantil, a partir da qual foi destacada uma pedopsiquiatra (inicialmente eu própria e depois seguiram-se outras colegas). Curiosamente, foram enfermeiras (Rosélia Ramos e Cunha Teles), formadas pela Escola Técnica de Enfermagem do Instituto Português de Oncologia, que tinham uma melhor formação na área da Prevenção na Saúde Pública e que mais facilmente se sensibilizaram para as medidas preventivas de Saúde Mental. O grande mérito de João dos Santos foi precisamente fazer a integração da Saúde Mental Infanto-Juvenil na Saúde Pública, com a colaboração das enfermeiras, num trabalho muito original e inovador que tivemos o privilégio de acompanhar. Com as enfermeiras, João dos Santos elaborou um Standing Orders, tipo manual, cujo objectivo principal era permitir aos técnicos (Enfermeiros e Pediatras) dos Dispensários Materno-Infantis e Centros de Saúde, detectarem precocemente os sinais ou sintomas, aparentemente banais na criança, para melhoria da saúde mental, e poderem actuar imediatamente, evitando-se a psiquiatrização de certas dificuldades, facilmente resolúveis nesta etapa da vida da criança. Hoje pode ser uma intervenção corrente e banal, mas não é seguramente nos mesmos moldes. Todavia, naquela época, era profundamente original, mesmo a nível europeu. Experiência idêntica foi realizada no Estado de São Paulo (Brasil) pelo Professor Yan, mas sem terem conhecimento um do outro Outra característica de João dos Santos, a sublinhar: nunca impunha os seus pontos de vista ou por não se julgar o detentor da verdade ou por respeito ao outro? De facto, ele tinha a atitude do cientista que caminha cautelosamente nas suas explorações da mente e das relações, sem certezas absolutas!… Ora bem, surge então uma questão fundamental: será possível favorecer o desenvolvimento e a conservação de um elo afectivo estável e seguro entre a criança e os seus pais ou isto é o resultado da natureza de um processo espontâneo em que não há qualquer intervenção, nem é necessária? Será que esta ligação pode ser tratada, reparada? João dos Santos sempre defendeu que existia uma função terapêutica da Pedagogia e uma função pedagógica dos Tratamentos e dos Cuidados Psiquiátricos. Assim, em 1975, nasceu a Pedagogia Terapêutica, que pôs em prática na Casa da Praia, hoje Centro Doutor João dos Santos. Para João dos Santos, a Arte de Educar e a Arte de Curar seriam idênticas nas suas bases. A Arte de Educar, de Curar e Amar são uma e a mesma coisa, na esteira de Freinet para quem educar é um acto de amor. Se a criança entender o verdadeiro valor da amizade e a importância da partilha, a vida será mais simples e maior alegria tirará com o passar dos anos. Assim, o segredo da vida não é ter tudo o que se quer, mas amar tudo o que se tem … ou […] é mais importante aquilo que o mestre é, do que aquilo que sabe. Quando visitava as instituições, estava atento a tudo e nunca esqueci a visita a uma instituição de crianças cegas, com as salas completamente vazias, sem qualquer adorno, sem uma jarra de flores. Perante a justificação desse facto: porque eram crianças cegas, a sua resposta parecia paradoxal: precisamente por isso, era importante haver flores e tudo o mais… e depois dava a explicação dessa necessidade de criar ambientes agradáveis e bonitos… porque as crianças sentem o que se passa à volta delas, mesmo sendo cegas e até para o próprio pessoal! Outra intervenção que achava essencial na formação dos técnicos, qualquer que fosse a sua especialidade, era a articulação com a Justiça. É preciso dizer-se que o Juiz Armando Leandro (Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça) foi a peça fundamental nesta ligação. Transcrevo aqui um artigo seu publicado n’O Jornal da Educação, Dezembro de 1978 [5].

CAVALEIRO DA ORDEM DA MAÇÃ REINETA

Numa instituição de observação e tratamento de crianças-problema, onde trabalho, uma mãe trouxe um dia a filha, em idade escolar, para ser examinada. O avô paterno e o pai plantaram-se à porta, com o intuito confesso de tirar a criança à mãe, quando ambas saíssem. Tinham para isso razões jurídicas, muito válidas, talvez mesmo legalmente incontestáveis. Na instituição, porém, as pessoas consideravam que lhes não competia decidir a entrega da menina ao pai, contra a vontade da mãe. Pensavam, acho que com razão, que o assunto devia ser resolvido diante do meritíssimo juiz, e não à porta da rua. Entendíamos, portanto, que a criança devia sair sob protecção das autoridades, para ir com os pais ao Tribunal e, ali, os interessados decidirem como fazer, de forma a que a menina não fosse objecto de uma disputa dilacerante. Enquanto pelo telefone e directamente, toda a equipa falava ou tentava falar com as autoridades, a criança viveu 30 horas de angústia, instalada numa casa sem condições para servir de habitação. As autoridades não sentiram, não ouviram, não perceberam mas… explicaram, explicaram, explicaram, pelo telefone e em directo. Cerca de 30 horas a explicarem o que não entendiam. O assunto não competia a ninguém, ou melhor, era empurrado de uma entidade para outra, de um para outro Ministério, de um burocrata para outro burocrata.

                Uma criança praticamente sequestrada, em risco de ser posta perante a luta violenta dos pais que fisicamente se propunham disputá-la, não mereceu de nenhum funcionário, alto ou baixo, o mínimo de atenção! Nenhum? Não sei. Será o juiz Leandro um funcionário?

                Já ouvira falar do juiz Leandro, mas não o conhecia. O nome era-me simpático. Leandro era amigo de meu pai, que, sendo eu menino, aparecia lá em casa e se instalava durante todo o tempo que duravam as “revoluções” dos anos 10 e 20. Entretanto, os dois amigos discutiam política e eu ouvia-os com muita curiosidade, mas sem entender nada.

                Um dia, perguntei e o meu pai explicou-me: ele, meu pai, era republicano, e o Leandro era monárquico. Mas disse-me: ele é o meu amigo. O Leandro morava num bairro popular de republicanos e receava ser molestado, quando havia agitação. Refugiava-se lá em casa, porque lá tinha a certeza de ser respeitado e defendido — explicou-me o meu pai.

                O amigo Leandro conversava comigo e explicava-me coisas simples da vida. Dizia-me, por exemplo: “Aqui, em Lisboa, não é necessário usar relógio, nem trazer fósforos no bolso. Toda a gente tem… perguntam-se as horas, pede-se lume…” – e ria-se muito. Eu também. Achava-o simples, ingénuo e infantil, como eu. Era um homem maduro; sabia falar com as crianças. Por isso, nas horas dramáticas que vivemos a proteger a menina do litígio entre os pais, quando me disseram que havia um juiz chamado Leandro[6] que era um homem bom, não duvidei. Disseram-me também que ele seria a pessoa indicada para resolver o problema, e que iria receber os pais da criança. Assim aconteceu. Eles foram finalmente recebidos, sem os requerimentos, as esperas que estavam previstas. O juiz Leandro recebeu-os sem formalidades, fora das suas horas, apenas porque foi, como pessoa, sensibilizado pela situação. Porque ouviu, entendeu e se dispôs a resolver como pessoa, um problema que não lhe competia resolver como funcionário. Tinha já começado a cair a noite, nesse dia, talvez o mais dramático da vida da menina. Eu reflectia em como tinha sido bom encontrar, entre tanta gente a quem tínhamos recorrido, um homem bom e sensível, o juiz Leandro, que não era burocrata nem explicava as leis. Encontrei-me diante dele assim como um Sancho em admiração por um D. Quixote, naquele fim de dia triste. Lembrei-me que D. Quixote dizia: “Cegos são os que só vêem a realidade”. E pude confirmar com que extraordinária sabedoria o juiz Leandro tinha visto, para além da realidade das leis e dos interesses legais dos pais, o interesse vital da criança indefesa, ameaçada na sua vida emocional. Reflectia sobre tudo isto, quando as companheiras de trabalho, Maria Vitália e Leonídia, me vieram dizer que a menina me queria falar. Fui ter com ela à sala de espera. Não parecia angustiada mas, até de certa maneira, eufórica, aliviada. Quando me viu, foi ao seu saco, tirou dele uma maçã reineta e estendeu-ma. Aceitei aquela dádiva com entusiasmo incontido…

                Depois de me despedir do juiz Leandro, saí daquele casarão de frio mármore e de granito, onde fica o Tribunal, mais rico com aquela maçã e mais honrado com aquela distinção. Honrado com o que imaginei ser a “Ordem da Maçã Reineta”. E fiquei a pensar se o simpático Juiz Leandro também seria contemplado. Gostava de estar com ele na mesma confraria…

João dos Santos O Jornal da Educação, Dezembro de 1978.

Com efeito, personagens ímpares no panorama político, científico e humano do nosso país! No verão quente de 1974, após a Revolução dos Cravos, numa reunião na Aula Magna do Hospital de Santa Maria, completamente cheia, uma enfermeira de Pediatria, exaltada, dizia que tinha na sua enfermaria uma menina de quem não gostava, embirrava com ela! Ouviram-se gritos de indignação de todos os lados. Tranquilamente, João dos Santos, dá-lhe os parabéns porque ela tinha ousado falar de uma coisa que muita gente pensava, mas não dizia! E perguntava: porque é que esta menina não se deixava amar? Então deu uma lição sobre as pessoas incapazes de amar, porque nunca foram amadas… Ficámos com a convicção que salvou aquela relação. João dos Santos lamentava que as autoridades de saúde mental manifestassem um total desinteresse pela prevenção, e creio ter sido este um dos factores que o levou a interessar-se pela Educação, acreditando que seria no período escolar, o último da vida da criança, em que poderiam ainda ser eficazes as medidas preventivas. E assim em 1970, durante cinco dias, realizou-se no Hotel do Porto Novo, no Vimeiro, um seminário de Higiene Mental na Escola, onde estiveram presentes, além das equipas de Saúde Escolar de Lisboa e arredores, o francês André Berge, Rui Grácio, Bairrão Ruivo e tantos, tantos outros, muitos já falecidos. Pode concluir-se que a saúde mental não é um campo estritamente médico e é um assunto demasiado sério para ser entregue só aos psiquiatras, daí o facto de ser necessária a contribuição de sociólogos, urbanistas, filósofos, educadores e políticos. Consideramos um falso debate opor a via psicoterapêutica à via educativa. Numa psicoterapia de uma criança autista, por exemplo, há sempre uma dimensão educativa, como defendeu também o psiquiatra francês Hochmann: ensinar a diferenciar os afectos, nomeá-los, ligá-los entre si, não é uma aprendizagem, uma pedagogia do simbólico? Classificar as cores ou as formas não é também pôr ordem num mundo interior caótico? Ao afirmar que A arte de viver consiste em saborear o mel da vida mesmo quando a adversidade nos atinge… levou João dos Santos a preocupar-se com a prevenção, como poucos pedopsiquiatras, que eram também psicanalistas, o fizeram. Para João dos Santos, a prevenção e a investigação são as actividades nobres da Saúde Mental Infantil. Defendia que uma ética do futuro devia fundar-se na audácia, até na execução de actos clandestinos para melhor poder ajudar as crianças e os jovens. Sem dúvida que poderá ser uma utopia mas, como diz Victor Hugo (1802-1885) A utopia é a verdade de amanhã. A partir destes factos, deu-se o progressivo abandono de uma psiquiatria clássica estática para uma psiquiatria com uma visão mais dinâmica, que vê a criança como um ser em transformação, na qual nenhuma doença mental pode aparecer definitivamente estruturada. Assim, foi necessário abordar os problemas da saúde mental infantil em termos preventivos e globais da saúde da criança, numa atitude mais abrangente do que a da psiquiatria. E até tenho sorte de ainda ter tempo de poder dizer estas palavras, para dar a conhecer o psiquiatra, o médico, que introduziu, em Portugal, a modernidade na maneira de observar e estar com a criança, e que ainda mantém uma actualidade impressionante. Esperamos que nada disto se perca. Não será que o que relatei tem a ver com o futuro? Era tão avançado para a época, que parecia que nós todos, seus colaboradores, antecipávamos também o futuro! Se é verdade que a sua voz nem sempre foi ouvida e que dos seus projectos muitos ficaram na gaveta, também é verdade que o nome de João dos Santos está, ainda hoje, ligado à vontade colectiva de criar, na fantasia ou na prática, de muitos profissionais da área da saúde mental infantil. Também não esqueceu os administrativos, defendendo uma maior aproximação destes com os técnicos, para se obter uma maior colaboração e compreensão do trabalho que se desenvolvia. Por essa razão, era à noite, uma vez por mês, que se realizavam reuniões, onde estavam técnicos e os administrativos mais graduados, para discussão de alguns temas teóricos. Se nós não passarmos para as administrações, para os gestores a importância da saúde mental infantil, as soluções tornam-se muito mais difíceis. E deve-se a João dos Santos o entendimento deste facto aparentemente banal. De igual modo não podemos esquecer a sua atitude para com os técnicos, o respeito pela autenticidade das suas atitudes, que ele bem sabia distinguir. Nos anos que trabalhei com ele, nunca o ouvi criticar alguém que desse uma opinião não concordante com a sua sobre uma criança ou família ou sobre qualquer assunto! Lembro que, depois de 1974, uma psicanalista brasileira, Sónia Salmeron, que se formou e viveu longos anos em Paris, depois de uma reunião clínica a que assistiu no Centro, dizer-lhe: João, você faz aqui em Lisboa, o que foi a grande reivindicação dos técnicos no Centro Alfred Binet, em Maio de 68, porque só aos médicos é que davam a palavra! João dos Santos dirigia um Serviço com grande predomínio de mulheres – médicas, psicólogas, assistentes sociais, professoras e, talvez por essa razão ele mantinha uma distância adequada com as suas colaboradoras. Todas as manhãs, João dos Santos tomava um copo de sumo de laranja, que a Amélia Duarte Silva preparava ternamente. Até o seu contracto foi particular: ao assumir as funções da Direcção, João dos Santos recebeu no seu gabinete uma jovem baixinha, muito viva, apenas com a instrução primária que, ao ter conhecimento que ali ia funcionar uma consulta para crianças, foi pedir-lhe emprego! É muito possível que ele tenha sido tocado pela sua história familiar relativamente dramática… Já depois da morte de João dos Santos e, na sequência da reorganização dos Serviços, fui chefiar uma das equipas, localizada no Bairro da Encarnação, na periferia do concelho de Lisboa, muito afastado do centro da cidade. Pois bem, Amélia acompanhou-me, com a restante equipa, exigindo um esforço maior, dado a distância que ficava da sua residência! Passei também a beneficiar do mesmo sumo de laranja, que muito bem me sabia a meio da manhã! Eu própria aprendi tanto com ele que, anos depois, ao chefiar o serviço, algumas das minhas atitudes eram, por vezes, inspiradas no que ele me tinha ensinado, sem ensinar, era apenas pelo exemplo. Seguem duas situações: 1º- um menino pendurado no portão da Clínica da Encarnação que eu chefiava, girava-o e a empregada veio chamar-me porque o pilar que o suportava já oscilava e a professora, a assistente social não o convenciam a sair. Fui ter com ele e segredei-lhe ao ouvido: Se não sais daí apanhas uma bofetada que nunca mais esqueces na tua vida. Ele saiu imediatamente a correr! O objectivo de João dos Santos era mostrar-nos que, quando necessário, o adulto tem que utilizar a autoridade, que é também a forma de ajudar a criança a crescer. 2º- a funcionária vem ter comigo e diz que há uma senhora na sala que está a fazer um escândalo porque a médica que ia ver o menino ainda não tinha chegado! Telefonei à enfermeira, contei-lhe o sucedido e ela já sabia qual o procedimento: levou-a para o seu próprio gabinete, falaram e tudo se resolveu. Ninguém ousa atacar um serviço ou um técnico quando está sentado diante dele! A família actual, face às rápidas e profundas modificações sócioeconómicas, tende a fragmentar-se e a alienar-se, correndo o risco de uma perturbação mental, particularmente evidente nas grandes metrópoles. Tem que se pensar na esperança que os pais põem na escola. Quando essa esperança é defraudada – há uma falha da sua auto-estima, surgindo sentimentos de rejeição. A miséria representa um peso de consequências incalculáveis na organização da saúde mental das crianças. Torna-se cada vez mais difícil para a família constituir-se como um espaço para a organização mental da criança, sendo mais um espaço desorganizador dos afectos e do pensamento. Quando os pais procuram os especialistas, eles não podem ser abandonados às suas inquietações, à sua desorientação. Consideramos um grave erro metodológico, enviá-los a uma consulta de psiquiatria – a nossa intervenção é interferir na dinâmica relacional. No entanto, se esta for necessária, tem que ser estabelecida uma aliança terapêutica com o outro membro do casal, para podermos ajudar a criança. Havendo uma perspectiva de vida mais longa, é indispensável também promover o elo entre avós e netos para a saúde das 3 gerações! Paradoxalmente, o que se assiste é a tendência para o isolamento da família nuclear… Aqueles tempos que criaram Escola, com raízes nas experiências mais avançadas da Europa, deixaram referências obrigatórias na formação dos especialistas actuais. Apesar da crise e do desalento dos técnicos de então, acreditava-se que os horizontes não podiam ser negros e que o saber só avança quando se é capaz de olhar a vida! Foi com este Mestre que eu tive o privilégio de aprender e trabalhar, que marcou profundamente a maneira de estar na minha actividade clínica. Como é bom, ainda ter tempo de dizer estas palavras. Além de tudo o mais que aprendi que não vem nos livros: o modo de estar, o modo de receber e o respeito profundo pela criança e respectiva família, independentemente do seu estatuto social. E também o respeito pelos técnicos de todas as áreas que procuravam o Mestre para o ouvir. E de tudo quanto disse, entende-se que continuamos a vislumbrar o futuro em João dos Santos, visto que permanece vivo e que as suas noções de saúde mental da criança e de prevenção, continuam perfeitamente actuais! Se toda a educação tem que ser poética, como dizia Jacinto Prado Coelho (1920-1984), professor de Filologia Românica, de igual modo todo o estar, todo o ser, todo o fazer… e, João dos Santos, como Poeta da Criança, era também, como afirmava a escritora Matilde Rosa Araújo (1921-2010), o evangelho junto dela… Em 1984 foi agraciado pelo Presidente da República General Ramalho Eanes com o grau de Comendador da Ordem de Benemerência. E em 1985, a Faculdade da Motricidade Humana atribuiu-lhe o título de Doutor Honoris Causa. Foi também homenageado pela Ordem dos Médicos com a Medalha de Mérito. Alertamos para o risco que existe de se instalar na Psiquiatria Infanto-Juvenil, uma perspectiva anti-humanista, em que a dimensão clínica e relacional se vê afastada em proveito de uma pseudo-modernidade objectiva, daí a urgência de divulgar a obra de João dos Santos, porque é um serviço que se presta à cultura e à causa das crianças e famílias. Estou certa que teria ficado muito profundamente chocado, ao assistir à administração corrente e, por vezes, abusiva de psicofármacos, em detrimento de outras intervenções terapêuticas. Isto aconteceu a partir de 1992, aquando da reorganização dos Centros de Saúde Mental, que foram progressivamente despojados de determinados técnicos que participavam nas terapias. O que passou a ser importante para as entidades superiores, era o número de consultas, que servia para avaliar, erradamente, a qualidade dum serviço! Onde está o sonho de João dos Santos, que devia persistir por toda a vida do Homem, como forma mágica de pensar? E, finalmente, fazendo minhas as palavras de Einstein (1879-1955) por muito velho que se seja, pode ser-se mais jovem do que nunca. Isto, ao fim e ao cabo, quer dizer que não se deve romper o cordão que une ao sonho – as crianças, os jovens e também os técnicos! Com efeito, a pessoa só é velha quando os desgostos tomam o lugar do sonho e, como disse o escritor irlandês Bernard Shaw (1856-1950) envelhecer é ser capaz de se ser mais jovem durante mais tempo do que os outros. Pergunto: – Vale a pena continuar a utopia? É obrigatório gostar daquilo que fazemos, para além de se gostar da Poesia, da Madrugada, do Sol, da Lua, da Sinfonia das flores, da alegria malandra do Vento!… Deve ter-se um grande amor por alguém, ou mesmo sentir a falta de o não ter – para se poder viver e aguentar o peso dos anos e da dor! Estas são as palavras cruzadas do meu sonho, palavras encerradas na prisão da minha vida e roubadas ao Poeta António Ramos Rosa… E assim escreveu outro poeta: o psicanalista, o psiquiatra João dos Santos que nos deixou com 73 anos: Por pouco não matei toda a gente, para ficar só com os bons, os sábios e os inteligentes. Cansado de procurar a verdade, acabei por matar em mim o desejo de matar!… Provavelmente como acontece com todos nós?… Na década de 70, João dos Santos falou-nos do Alienista de Machado de Assis, o que me levou a comprar o livro. Depois de conhecer o Autor, em seguida comprei do mesmo Memórias Póstumas de Brás Cubas. Desta obra transcrevo o seguinte: Toda a gente viajou: Xavier de Maistre à roda do quarto, Garrett na terra dele, Stern na terra dos outros. De Brás Cubas se pode talvez dizer que viajou à roda da vida. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Assis, Machado de – O Alienista. Edição Brasileira
  2. Duarte, Paula Taborda e Cruz, Manuela. João dos Santos – o Prazer de Existir. Lisboa, edição conjunta da Liga Portuguesa dos Deficientes Motores e Colégio Eduardo Claparède, 1994.
  3. Mendonça, Maria Manuela de – Mais vale prevenir. Memórias de uma Época e de um Contributo para a Saúde Mental Infantil. Coimbra, Edições Minerva, 2002.
  4. Vidigal, Maria José. – O que aprendi com João dos Santos que não vem nos livros. Comunicação nas Comemorações do Centenário de João dos Santos. Publicado no site “João dos Santos no século XXI”, 2013 em https://joaodossantos.net/contributos/o-que-aprendi-com-joao-dos-santos-que-nao-vem-nos-livros-2/.
  5. Vidigal, Maria José; Queiroz, Maria Isabel S. Braga; Cruz, Maria Manuela; Santos, Maria Paula Grijó dos; Guapo, Maria Teresa. – Memórias de Utopias: elementos para a história da saúde mental infantil em Portugal. Lisboa: ISPA, 1999.
  6. Vidigal, Maria José. – Contributos para a História da Psiquiatria e Saúde Mental em Portugal. Lisboa, Trilhos Editora, 2016.

[1] Este texto não obedece ao novo acordo ortográfico [2] Pedopsiquiatra e psicanalista [3] Machado dos Santos (1875-1921) lutou pelos ideais republicanos, foi preso, deportado para os Açores e depois assassinado em Lisboa. [4] A PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) foi a polícia política portuguesa entre 1945 e 1969. [5] Cf. também, Ensaios sobre Educação – II: O Falar das Letras. Lisboa: Ed. Livros Horizonte, 1991, pp 227-229. [6] Juiz Conselheiro Dr. Armando Acácio Gomes Leandro.


CAVALEIRO DA ORDEM DA MAÇÃ REINETA

maca-reineta-aberta_771243861519e427f65cc0João dos Santos O Jornal da Educação, Dezembro de 1978 Numa instituição de observação e tratamento de crianças-problema, onde trabalho, uma mãe trouxe um dia a filha, em idade escolar, para ser examinada. O avô paterno e o pai plantaram-se à porta, com o intuito confesso de tirar a criança à mãe, quando ambas saíssem. Tinham para isso razões jurídicas, muito válidas, talvez mesmo legalmente incontestáveis. Na instituição, porém, as pessoas consideravam que lhes não competia decidir a entrega da menina ao pai, contra a vontade da mãe. Pensavam, acho que com razão, que o assunto devia ser resolvido diante do meritíssimo juiz, e não à porta da rua. Entendíamos, portanto, que a criança devia sair sob protecção das autoridades, para ir com os pais ao Tribunal e, ali, os interessados decidirem como fazer, de forma a que a menina não fosse objecto de uma disputa dilacerante. Enquanto pelo telefone e directamente, toda a equipa falava ou tentava falar com as autoridades, a criança viveu 30 horas de angústia, instalada numa casa sem condições para servir de habitação. As autoridades não sentiram, não ouviram, não perceberam mas… explicaram, explicaram, explicaram, pelo telefone e em directo. Cerca de 30 horas a explicarem o que não entendiam. O assunto não competia a ninguém, ou melhor, era empurrado de uma entidade para outra, de um para outro Ministério, de um burocrata para outro burocrata. Uma criança praticamente sequestrada, em risco de ser posta perante a luta violenta dos pais que fisicamente se propunham disputá-la, não mereceu de nenhum funcionário, alto ou baixo, o mínimo de atenção! Nenhum? Não sei. Será o juiz Leandro um funcionário? Já ouvira falar do juiz Leandro, mas não o conhecia. O nome era-me simpático. Leandro era amigo de meu pai, que, sendo eu menino, aparecia lá em casa e se instalava durante todo o tempo que duravam as “revoluções” dos anos 10 e 20. Entretanto, os dois amigos discutiam política e eu ouvia-os com muita curiosidade, mas sem entender nada. Um dia, perguntei e o meu pai explicou-me: ele, meu pai, era republicano, e o Leandro era monárquico. Mas disse-me: ele é o meu amigo. O Leandro morava num bairro popular de republicanos e receava ser molestado, quando havia agitação. Refugiava-se lá em casa, porque lá tinha a certeza de ser respeitado e defendido — explicou-me o meu pai. O amigo Leandro conversava comigo e explicava-me coisas simples da vida. Dizia-me, por exemplo: “Aqui, em Lisboa, não é necessário usar relógio, nem trazer fósforos no bolso. Toda a gente tem… perguntam-se as horas, pede-se lume…” – e ria-se muito. Eu também. Achava-o simples, ingénuo e infantil, como eu. Era um homem maduro; sabia falar com as crianças. Por isso, nas horas dramáticas que vivemos a proteger a menina do litígio entre os pais, quando me disseram que havia um juiz chamado Leandro[i] que era um homem bom, não duvidei. Disseram-me também que ele seria a pessoa indicada para resolver o problema, e que iria receber os pais da criança. Assim aconteceu. Eles foram finalmente recebidos, sem os requerimentos, as esperas que estavam previstas. O juiz Leandro recebeu-os sem formalidades, fora das suas horas, apenas porque foi, como pessoa, sensibilizado pela situação. Porque ouviu, entendeu e se dispôs a resolver como pessoa, um problema que não lhe competia resolver como funcionário. Tinha já começado a cair a noite, nesse dia, talvez o mais dramático da vida da menina. Eu reflectia em como tinha sido bom encontrar, entre tanta gente a quem tínhamos recorrido, um homem bom e sensível, o juiz Leandro, que não era burocrata nem explicava as leis. Encontrei-me diante dele assim como um Sancho em admiração por um D. Quixote, naquele fim de dia triste. Lembrei-me que D. Quixote dizia: “Cegos são os que só vêem a realidade”. E pude confirmar com que extraordinária sabedoria o juiz Leandro tinha visto, para além da realidade das leis e dos interesses legais dos pais, o interesse vital da criança indefesa, ameaçada na sua vida emocional. Reflectia sobre tudo isto, quando as companheiras de trabalho, Maria Vitália e Leonídia, me vieram dizer que a menina me queria falar. Fui ter com ela à sala de espera. Não parecia angustiada mas, até de certa maneira, eufórica, aliviada. Quando me viu, foi ao seu saco, tirou dele uma maçã reineta e estendeu-ma. Aceitei aquela dádiva com entusiasmo incontido… Depois de me despedir do juiz Leandro, saí daquele casarão de frio mármore e de granito, onde fica o Tribunal, mais rico com aquela maçã e mais honrado com aquela distinção. Honrado com o que imaginei ser a “Ordem da Maçã Reineta”. E fiquei a pensar se o simpático Juiz Leandro também seria contemplado. Gostava de estar com ele na mesma confraria… João dos Santos O Jornal da Educação, Dezembro de 1978. Cf. também, Ensaios sobre Educação – II: O Falar das Letras. Lisboa: Ed. Livros Horizonte, 1991, pp 227-229. [i] Juiz Conselheiro Dr. Armando Acácio Gomes Leandro.


Corpo, Infância e Sexualidade no Pensamento de João dos Santos

Professora Doutora Patrícia Holanda (Universidade Federal do Ceará – Fortaleza, Brasil)

 

Palestra proferida pela Professora Patrícia Holanda no XVI Congresso de História da Educação do Ceará, Icó, 22 de Setembro de 2017. Pode baixar o texto da palestra aqui Corpo, Infância e Sexualidade no Pensamento de João dos Santos – Patrícia Helena Carvalho Holanda. Em alternativa, para ouvir a gravação em vídeo desta palestra clique nesta ligação (duração: aproximadamente 47 minutos).  


Psicomotricidade Relacional e Educação

Professor João Costa (Universidade de Évora – Portugal) Conferência de Abertura, proferida pelo Professor João Costa no XVI Congresso de História da Educação do Ceará, Icó, 22 de Setembro de 2017 (Duração: aproximadamente 98 minutos). Para ouvir a gravação desta Conferência de Abertura clique nesta ligação.  


1-1 A Escolinha de Arte de Cecília Menano - com Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos_30
 
 
 

Cecília Menano*, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos em conversa

Clique nesta LIGAÇÃO para visualizar este vídeo do Instituto de Tecnologia Educativa – RTP (1975) A Escolinha de Arte de Cecília Menano – com Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos, que foi muito generosamente disponibilizado pelo Dr Daniel Sasportes (19 minutos). * Cecília Rey Colaço Menano de Carvalho Monteiro, Pioneira da educação pela arte (Nasceu a 12 de Abril de 1926. Faleceu a 18 de Abril de 2014). Para mais informações consulte a tese de doutoramento da Professora Doutora Maria João Craveiro Lopes, Pioneiras da Educação pela Arte, Universidade de Évora, Março de 2015, através desta ligação.


A Lisboa de João dos Santos

Clique nesta LIGAÇÃO para ver o filme “A Lisboa de João dos Santos”, realizado pela equipa do Arquivo Municipal de Lisboa – Videoteca, baseado nos textos de João dos Santos.


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  • LIVRARIA

     
     


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    Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos em conversa

    Clique na seguinte ligação para para visualizar este vídeo do Instituto de Tecnologia Educativa – RTP (1975) A Escolinha de Arte de Cecília Menano – com Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos, que foi muito generosamente disponibilizado pelo Dr Daniel Sasportes (19 minutos). [Clique nesta ligação]

     


  • Photomaton

    Photomaton

    O filme “PHOTOMATON-Retratos de João dos Santos”, realizado por Tiago Pereira e Sofia Ponte é uma produção da Fundação Calouste Gulbenkian e da RTP2 e é colocado neste site com a muito generosa autorização da Fundação Calouste Gulbenkian.

     

  • Crianças Autistas by Ernesto de Sousa

    Clique na seguinte imagem para aceder ao filme
    "Crianças Autistas" by Ernesto de Sousa"
    e depois carregue no botão "Play".
    (este filme não tem som!)  

    imagem de Criancas Autistas by Ernesto de Sousa

    Crianças Autistas
    Realização de Ernesto de Sousa a partir de uma ideia de João dos Santos, 1967
    Operador de câmara: Costa e Silva
    Filme disponibilizado pelo Centro de Estudos Multidisciplinares (CEMES)
    www.ernestodesousa.com

     

  • Programa IFCE no Ar, Radio Universitária

    Entrevista sobre o andamento do curso à distância “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”

    Entrevista gravada com a coordenadora do curso “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”, Professora Patrícia Holanda da Linha de História da Educação Comparada da UFC (Universidade Federal do Ceará), com o Doutor Luís Grijó dos Santos (filho de João dos Santos), e a coordenadora pedagógica do curso Professora Ana Cláudia Uchôa Araújo da Directoria da Educação à Distancia do IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará). A entrevista foi realizada pelo jornalista Hugo Bispo do Programa IFCE no Ar em 3 de Novembro de 2016.

    Para ouvir a gravação desta entrevista clique nesta ligação.

     


     

  • UM PENSADOR EMOCIONADO

    Professor Doutor José Adriano Barata-Moura

     

    Clique nesta LIGAÇÃO para ver o vídeo "João dos Santos - Um Pensador Emocionado" da conferência do Professor Doutor José Barata-Moura, 7 de Setembro de 2013 no congresso “João dos Santos no século XXI”.

     

     

  • Os Dias da Rádio Em Conversa com João Sousa Monteiro

     
     

    Clique nesta LIGAÇÃO para ver o vídeo "Dias da Rádio - Em Conversa com João Sousa Monteiro".
    Vídeo produzido e realizado no âmbito das XXI Jornadas da Prática Profissional: " O Segredo do Homem é a Própria Infância: Pensar em Educação com João dos Santos" que se realizaram na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Santarém nos dias 8 e 9 de novembro de 2013.

     

     

  • Testemunhos

    “Estimada Paula Santos:"

    Não quero deixar de testemunhar que o seu pai, Dr. João dos Santos, foi uma grande referência para mim, no perfil de psicoterapeuta.

    Fui discípulo seu durante um ano no Hospital Santa Maria e, foi para mim uma experiência admirável pela grande capacidade de lidar com uma criança e através dela captar o seu micromundo. Depois, já na sua ausência, sem quaisquer outros dados, no Seminário dos Internos, descrevia, com espanto para nós, as personalidades dos pais, os seus conflitos, a qualidade de relacionamento. Não segui a psicanálise, mas foi com o seu pai, meu grande querido mestre, que me enriqueci no caminho da psiquiatria clássica.

    O Dr. João dos Santos vai ser tardiamente homenageado pela Ordem dos Médicos, depois de tantas honrarias que recebeu e mereceu. Com esta nova Direcção, a Ordem está a tentar repor publicamente, o mérito de médicos ilustres esquecidos, muitos incómodos, para conhecimento das novas gerações de médicos, a bem dos princípios de justiça, dos valores e da história da medicina portuguesa.
    Com os melhores cumprimentos

    Júlio Pêgo (Psiquiatra)”
    Novembro de 2014
    [Ler mais testemunhos]


  • Notícias

    “A Neurose de Angústia”
    A edição eBook para Kindle do livro “A Neurose de Angústia” está à venda em todos os sites da Amazon.

    [Para mais informações clique aqui]



    "João dos Santos, um caminho diferente na saúde mental"
    Trabalho de métodos qualitativos de Leonor Moreira Rato, supervisado pelo Professor Doutor Miguel Nunes de Freitas do ISPA – Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida. Inclui a transcrição de uma entrevista feita à Professora Doutora Maria Eugénia Carvalho e Branco por Leonor Moreira Rato. [Para mais informações]


    O Senado da Universidade de Lisboa atribui o título de Doutor Honoris Causa ao Pedagogo Sérgio Niza
    A Cerimónia de Investidura do título Doutor Honoris Causa terá lugar no próximo dia 23 de Abril 2015, com início às 18.00 horas, na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa. [Continuar a Ler]


    Apresentação do livro de Maria Eugénia Carvalho e Branco pelo Professor Doutor António Coimbra de Matos e pelo Dr Pedro Strecht
    Agradeço à Professora Doutora Maria Eugénia Carvalho e Branco o honroso convite para participar na apresentação do seu livro "João dos Santos. A Saúde Mental Infantil em Portugal. Uma Revolução de Futuro".
    É uma honra e um prazer. Duplos:
    1. Pela elegância da forma e riqueza do conteúdo. Como leitor, primeiro foi o espanto, logo de seguida, o conhecimento – no lúcido dizer do filósofo estagirita; mas sobretudo, o que eu senti foi encantamento face à empolgante transmissão do que foi o Homem e do que é a Obra que nos legou. [Continuar a Ler]

    Revista Visão
    A revista Visão publicou na sua edição de 12 a 18 de Dezembro de 2013 (nº 1084) um artigo sobre João dos Santos, “A criança e o mestre”, subscrita pela jornalista e psicóloga Clara Soares. [Ler o artigo completo]

    Escola Superior de Educação de Santarém
    As Jornadas da Prática Profissional da ESES – “Pensar em Educação com João dos Santos” decorreram muitíssimo bem, com muito entusiasmo, envolvendo alunos e professores, enlaçando pensamento e afecto em todos os presentes e em todos os seus momentos, das conferências aos painéis, dos ateliers para adultos aos ateliers com crianças, dos filmes à escuta dos Dias da Rádio – em que pudemos recordar ( e alguns, ouvir pela primeira vez) essas conversas tão especiais. [Continuar a ler]

    “Exposição e Tertúlia João dos Santos
    No ano em que se celebra o Centenário do Nascimento de João dos Santos, a Câmara Municipal de Odivelas associou-se a estas comemorações através da uma Exposição sobre a vida e obra do homenageado inaugurada a dia 23 de Outubro e ainda uma Tertúlia realizada no mesmo dia às 17,30 no Centro de Exposições de Odivelas com o patrocínio da Associação Portuguesa de Psiquiatria da Infância e Adolescência. [Continuar a ler]

    “A Saúde Mental Infantil em Portugal - Uma Revolução de Futuro”
    O lançamento da nova obra de Maria Eugénia Carvalho e Branco ““A Saúde Mental Infantil em Portugal – Uma Revolução de Futuro”” será realizado no dia 8 de Novembro de 2013 pelas 19h30 inserido nas XXI Jornadas da Prática Profissional 2013/2014, da Escola Superior de Educação de Santarém. [Ler mais notícias]

    A Liga Portuguesa de Higiene Mental
    – Associação que mantem como sua principal actividade o funcionamento da linha telefónica de apoio emocional e de Prevenção do Suicídio O SOS VOZ AMIGA – pretende, com o envio desta notícia, associar-se às Comemorações do Centenário de João dos Santos, através da transcrição parcial do Editorial do seu Boletim de Maio 2013, em que são realçadas as valências de uma das Instituições Associativas criadas por João dos Santos: o IAC e posteriormente o SOS Criança. [Ler mais]

    “Vida, Pensamento e Obra de João dos Santos”
    A 2ª Edição (Revista) do livro “Vida, Pensamento e Obra de João dos Santos” de Maria Eugénia Carvalho e Branco acaba de ser publicada pela editora Coisas de Ler. [Ler mais notícias]

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