1-1 A Escolinha de Arte de Cecília Menano - com Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos_30
 
 
 

Cecília Menano*, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos em conversa

Clique nesta LIGAÇÃO para visualizar este vídeo do Instituto de Tecnologia Educativa – RTP (1975) A Escolinha de Arte de Cecília Menano – com Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos, que foi muito generosamente disponibilizado pelo Dr Daniel Sasportes (19 minutos).

* Cecília Rey Colaço Menano de Carvalho Monteiro, Pioneira da educação pela arte (Nasceu a 12 de Abril de 1926. Faleceu a 18 de Abril de 2014). Para mais informações consulte a tese de doutoramento da Professora Doutora Maria João Craveiro Lopes, Pioneiras da Educação pela Arte, Universidade de Évora, Março de 2015, através desta ligação.

 
 
 

Mãe, pensa lá para eu ver como é! *

Agostinho da Silva 2Agostinho da Silva
Filósofo e Professor jubilado da Universidade de Santa Catarina – Rio Grande do Sul. Para uma síntese biográfica de Agostinho da Silva, visite o “Portal Agostinho da Silva” através desta ligação.

Parece que não é de muito bom conselho a pessoa gabar-se da sorte que tem tido na vida, mas eu ouso fazê-lo, sobretudo para vos dizer que quase sempre essa sorte me tem sido trazida por uma série de obstáculos ou por aquilo que do mundo vem contra mim. E é verdade que eu fui parar ao Brasil, porque na altura, segundo parece, o governo não simpatizava muito comigo, embora eu me divertisse bastante com ele, porque os seus lados cómicos eram verdadeiramente desfrutáveis. Depois de ter estado no Brasil também houve uma mudança na maneira de ser do Brasil, sobretudo da Universidade de Brasília, que me levou a achar que aquilo que eu podia fazer no Brasil estava feito e que era interessante ir para outros lugares onde porventura se iam passar coisas de maior significado e de maior interesse do que aquelas que se passavam no Brasil. Foi depois da instalação da ditadura militar, a seguir a ter havido aquele período interessantíssimo de Jânio Quadros como presidente. Tive o gosto de trabalhar com ele na política externa do Brasil e, embora eu esteja de acordo que o presidente Jânio era louco como hoje dizem, acrescento que era louco da boa maneira de ser louco; tinha ao mesmo tempo bom senso. É preciso não confundir o louco com o maluco. O maluco é o louco sem bom senso nenhum e ele, de facto, naqueles quatro ou cinco meses em que esteve no poder, teve a possibilidade e o arrojo de arranjar para o Brasil, de planejar para o Brasil uma política externa que limpa perfeitamente o Brasil de toda a censura e de todo o espanto que podemos ter quando contemplamos, quando sabemos de sua política interna. Há pouco esteve aí o ministro da Cultura do Brasil, que eu conheci muito jovem ainda, secretário particular de Jânio Quadros proferida, que disse que muitos amigos se admiravam de o Brasil, com aquela política interna que tinha, estar fazendo uma política externa admirável, mas eu lhe respondia sempre que decerto eles também tinham lido muito grande poema de poeta que passava a vida bêbado e que o mesmo podia acontecer com aquele país e que seria exactamente a política externa o poema, como para o poeta aquilo que lhe ia dar nome e aquilo que ia sustentá-lo na vida do futuro.

Então a minha sorte, quando deixei Brasília para vir para Portugal, foi exactamente – e ponho entre o melhor que me tem sucedido na vida – o ter conhecido João dos Santos. Nenhum livro, excepto aqueles livros que são apenas o registo de alguma coisa que foi dita, que foi dialogada, nenhum livro pode nunca dar ideia da pessoa viva. E o gosto que eu tenho sempre é de mostrar e de demonstrar e de insistir em que uma faceta extraordinária dos descobrimentos foi que os marinheiros portugueses não sabiam ler e, portanto, nunca tinham incorrido nos erros em que caiu o resto da Europa de jurar por Aristóteles e de verem muito bem, contra o que dizia o grande sábio, que havia homens nédios e bem dispostos na zona tórrida, que o mar não fervia assim tanto como ele julgava e que talvez também até, quando se chegasse a isso, os corvos não ficassem brancos quando estavam em paisagens de neves. E foi isso, foi essa educação que os portugueses tinham na vida, foi essa educação que eles tinham de se conhecerem uns aos outros, de dialogarem, de perderem pouco tempo em biblioteca e andarem muito na sua experiência de vida, que fez que eles, com aquela audácia e aquela prudência, se lançassem ao mar. É bom, portanto, embora lendo livros e às vezes tendo-os nas estantes para gosto dos fotógrafos que nos fotografam nas entrevistas, não ter assim grande gosto em penetrar tanto nos livros que se fique especialista e se comece citando tudo a propósito de tudo, como aquele que dizia “Bom dia, como dizia Madame de Sevigné”. Então, […] ** o grande gosto em Portugal era estar com João dos Santos em qualquer dos ambientes em que ele era pleno: na sua casa de Sesimbra ou na sua casa de Sintra ou na Casa de Praia ou sobretudo, do que me lembra mais, naquele extraordinário episódio de Almourol, em que a engenharia militar transportou um exército de mouros, um exército de cristãos, através daquelas turbulentas águas do Tejo naquela altura, para abordarem a ilha e se prepararem para a tomada de Almourol. E com um ambiente logo de princípio tão aberto, tão fora de uma prisão ou de qualquer espécie de época que me lembro que, num dos autocarros em que ia, um menino se abeirou de mim e me disse: “O senhor conheceu Camões?” e eu, achando que não devia perturbar aquele pairar do menino acima do tempo, disse: “Exactamente”, porque morávamos em pontos um pouco distantes na cidade, não havia os transportes que há hoje, de maneira que raras vezes nos encontrávamos. E na volta, no regresso, aconteceu também que num outro autocarro um menino veio ter comigo e agradecer-me eu ter dado licença que aquilo tudo se passasse no castelo de Almourol, como se julgasse que, por eu já ser bastante antigo no planeta, era efectivamente dono do castelo de Almourol. Episódio curiosíssimo aquele, em que os meninos demonstraram que o brincar para eles era a sério. Quando o exército cristão conseguiu abrir (porque abriram) as portas do castelo para entrarem e se encontraram, a pancada começou mesmo a sério e me lembro muito bem que uma professora, também vestida à maneira medieval, veio ler à pressa um acto de el-rei, um decreto, uma lei, uma coisa qualquer, em que o rei declarava que a guerra tinha empatado. E vieram os protestos dos meninos: porquê a guerra empatada? E se se levantasse o problema pedagógico, eles tinham toda a razão. Provavelmente dentro dos meninos uma guerra empatada era tão estúpida como se no meio de uma corrida o pé direito empatasse com o pé esquerdo. Quando se começa a correr, tem que se ir até ao fim para ver o que dá.

E era esse ambiente, esse ambiente extraordinário que João dos Santos dava a tudo, de seriedade, de entrega absoluta àquilo que lhe parecia o ideal de ser no mundo e ao mesmo tempo a ironia, a graça, o gosto com que lembrava às pessoas que o bom na vida é ter a certeza de alguma coisa e ao mesmo tempo a plena dúvida dessa certeza: Quem sabe se….? E suponho que ele era disso um excelente representante de Portugal, dos portugueses e, sobretudo, daquele português à solta, como dizia tantas vezes o poeta Manuel Bandeira, que é todo o brasileiro. E esta frase do Bandeira, de que todo o brasileiro é um português à solta, eu acho que devia ser inscrita nas paredes da Assembleia da República para que os políticos perguntassem a si próprios e uns aos outros que prisões haverá em Portugal, que grades – grades de cadeia ou artigos de código – que prenderão os portugueses em Portugal de maneira que eles não estejam à solta, que é preciso atravessar léguas de mar e ainda por cima roubar o Brasil aos espanhóis.

E é muito curioso ver como tanto português tem medo da Espanha, quando era a Espanha que devia ter medo dos portugueses, se por acaso algum espanhol ainda se lembra que o meridiano de Tordesilhas era bem para o lado de cá e que, logo na primeira noite que se passou no Brasil, um português pegou delicadamente no meridiano e o levou um pouco mais adiante e foi cartografando o Brasil de tal maneira que quase acabou nos Andes. E o mesmo Jânio Quadros, uma vez, já depois de ser presidente, em que o jornalista lhe perguntou se ele achava que podia fazer alguma censura à política de colonização dos portugueses, disse: “Claro que faço! Porque é que eles não subiram aos Andes e não desceram ao Pacífico? Ficava a coisa logo liquidada!” O Pedro Teixeira, em 1640, ainda tentou essa expedição; chegou a Quito, mas os espanhóis nessa altura já estavam muito desconfiados dos portugueses e sabiam também de duas coisas talvez importantes: é que, para os holandeses se apoderarem do açúcar, estava faltando dinheiro às famílias nobres portuguesas e isso lhes acicatava um patriotismo de tal ordem que eles resolveram mesmo fazer o pronunciamento do 1° de Dezembro. Por outro lado, havia as manobras da Companhia de Jesus, que talvez desejasse fazer do Brasil uma grande república jesuítica de missões que bateria completamente a do Paraguai. De qualquer maneira, Pedro Teixeira não conseguiu nada; já havia a desconfiança perante os portugueses e não deixaram que ele fosse além de Quito. Mas o Brasil é teimoso e lento, mesmo na pior desgraça samba e sambando canta cantigas em que prenuncia a destruição do adversário, seja ele qual for. E hoje, lentamente, mesmo com a destruição de muita zona da Amazónia, está pensando numa estrada que percorra, por terra, mais ou menos o caminho que Pedro Teixeira navegou pelo rio, dê umas voltas e acabe por chegar ao Pacífico, onde talvez aquela mesma empresa brasileira que consola a Namíbia de ficar sem o Holy’s Bay, tão vital para a União Sul-africana […], esteja prometendo que no lugar que eles escolherem e no lugar mais conveniente a empresa brasileira fará um porto de águas profundas . Não quer saber o Brasil se tem dinheiro para fazer o porto de águas profundas, o que é preciso é que ele apareça. Eu vi crescer Brasília; sei muito bem que Juscelino, sempre que era preciso um edifício, mandava imprimir o dinheiro necessário. Com o dinheiro impresso se pagava tudo quanto era necessário para o edifício e aí a empresa ainda ganhava qualquer coisa que comprava imediatamente para não haver logo inflação. E hoje os edifícios estão lá, estão vinte ou trinta quilómetros de avenidas por todos os lados e o dinheiro já ninguém sabe qual era, o nome que tinha nem as figuras que havia, nem importa absolutamente nada. Não queremos saber do dinheiro que houve para trás, o tempo passa depressa no Brasil, temos que avançar e temos que estudar seguramente o futuro, porque batemos o pé ao futuro e ele virá, de qualquer maneira ele virá.

Então parece que o João dos Santos tinha também essa ideia. E se eu tive a sorte de conviver com ele, eu creio que vós tivestes também uma grande sorte em que esta reunião se realizasse e todos pudessem ter ouvido pessoas que trabalharam com ele, que conhecem tudo quanto ele escreveu e quanto ele foi, tudo que ele fez, todas as pequenas e grandes conversas, e que são técnicos bastantes para poderem apreciar objectivamente aquilo que foi feito, ainda também com o vídeo que se passou e em que João dos Santos triunfa da técnica. Reparem: ele consegue ser o que é vivamente, apesar da tão difícil operação de fotografar tudo aquilo e passar à aparelhagem que vimos aqui funcionar.

Então isso, ter conseguido isso, numa altura destas e ter servido também a reunião de plataforma para se começar a falar, não apenas de João dos Santos, daquilo que ele foi, daquilo que ele fez, daquilo que ele aconselhou, daquilo que ele fabricou de gente […]. Porque a Casa da Praia, quanto a mim, foi sobretudo uma escola de professores feita pelos meninos. Ali os verdadeiros professores eram as crianças que entravam e eram eles que obrigavam os professores a irem ao mais fundo de si próprios e, sem querer afinal, ter viva alguma coisa que eu acho muito bela e que é de uma teologia africana de Juan de Burundi.

O deus de muitas teologias africanas é uma espécie curiosa de deus, porque é um deus ausente. Pensa-se que aquelas religiões são politeístas. Houve um deus que fabricou o mundo, um deus tão poderoso e tão sabedor de tudo que evidentemente não ficou olhando se o motor funcionava ou não funcionava. Pôs lá tudo quanto era necessário para que aquilo girasse para todo o sempre e se ausentou, não se sabe para onde. Aí é um mistério daquela teologia, como há hoje tantos mistérios também em física, mesmo na física moderna. E havia o deus, aquele de Juan Burundi, que já se ia embora quando ficou muito inquieto, porque deixava o homem e a mulher sujeitos a todos os perigos daquele mundo. Voltou atrás, com remorsos de ter partido tão apressadamente, a ver o que podia fazer. Não falou com a terra, que é terra bruta (ele não sabia ainda que os átomos na terra dançam tão livremente e tão belamente como em qualquer outro lugar – o deus sabia tudo menos isso da física atómica). Ele não falou com a terra, ele não falou com o ar, sempre movendo-se de um lado para o outro e quase se não dando por ele, só quando fazia algum vento. Então dirigiu-se ao fogo e dirigiu-se à água e perguntou-lhes se eles podiam fazer alguma coisa para livrar o homem e a mulher de todas aquelas desgraças. E eles disseram que não; a natureza da água era subir quando podia e podia afogá-los ou destruir-lhes os mantimentos de que eles precisavam e, quanto ao fogo, a mesma coisa aconteceria com um incêndio. O deus já ia desanimando até que se lembrou do seguinte: de fazer uma pequena imagem dele e de fazer outra pequena imagem, de pôr uma no coração do homem e outra no coração da mulher e lhes disse: “Dentro é que está o deus. De dentro é que vai sair toda a vossa luz e, por favor, tornai-vos bastante transparentes para que essa luz possa irradiar sobre os outros.” Então eu diria que na Casa da Praia os meninos que entravam repetiam aos professores o conselho do deus e eles tornavam-se transparentes e a luz saía deles.

Há pouco tempo pediram-me que fosse ver como é que se poderia experimentar alguma coisa bem interessante naquela Fundação Espírito Santo Silva e o que eu disse aos meninos, como ponto essencial, é que eles estão no Largo das Portas do Sol e que a grande experiência para eles era saber se abririam as portas para o sol entrar finalmente numa escola ou se abririam as portas para sair da escola luz que iluminasse também o mundo juntamente com o sol.

Então a Casa da Praia, se tivesse podido alargar-se, se tivesse poder, vamos dizer “político-mágico”, podia ter alastrado a todo o País. Não se julgue que quando aparece neste país alguém extraordinário está muito longe do ordinário e do comum. Essa ideia de que só algumas pessoas nascem poetas ou nascem escultores ou nascem filósofos ou qualquer coisa dessa espécie é inteiramente absurda. O que acontece é que as pessoas encontram o mundo que praticamente lhes proíbe de serem aquilo que nasceram. A maior parte da gente morre sem ter vivido realmente o que era. Há um amigo meu búlgaro (conhece muito bem a língua portuguesa e talha muito bem seus aforismos) que diz: “Não se nasce imbecil; é preciso crescer.” E eu digo: sobretudo se se tiver que frequentar escola, qualquer que seja a idade em que se vá.

Não gosto, não gosto de ouvir dizer que João dos Santos era um educador. Era um poeta que atendia crianças, era um poeta que esculpia crianças a partir dele próprio, a partir do tal seu deus interior. O pedagogo marca logo a primeira grande contradição que houve na Grécia e que afinal se veio propagar a todo o mundo: escola (a palavra que vem mesmo do grego) em grego significa “tempo livre”. Reparai – tempo livre. E há até um verbo derivado desse substantivo que significa andar vadiando por onde lhe apetece, o que é talvez alguma definição que não cabe na escola de hoje. Mas os próprios gregos arranjavam depois um escravo, o pedagogo, encarregado de arrancar a criança ao sono e, quer ele quisesse ou não quisesse, o levar obrigatoriamente ao tempo livre. Essa contradição da Grécia é, de resto, também uma contradição que todos nós temos. Reparai: todos nós recebemos a vida gratuitamente; há muita gente que diz “recebi a graça de ficar vivo” e, depois de ter recebido a graça de ficar vivo, o desgraçado tem de ganhar a vida até ao fim dela, coisa inteiramente absurda.

Então essa contradição é uma das que temos que apagar do mundo. E é essa a minha esperança e, mais do que a minha esperança, é a minha certeza, bebida em grande parte no convívio com João dos Santos, naquela confiança com que ele afrontava a vida. Ele foi tudo isso que vos disseram, ele foi um educador. Também não gosto dessa história do educador. Educador tem a mesma raiz que o verbo “conduzir” e que o verbo “reduzir”. É preciso cuidado com isso. Ter alunos é excelente, porque a raiz se liga à do verbo “alimentar”. Aluno é aquele que nós alimentamos com a cozinha que lhe podemos arranjar. Mas depois educar é levá-lo a ser aquilo que, consciente ou inconscientemente, é o nosso ideal e o que é preciso é que isso seja o ideal do menino. Quando um avô pergunta ao neto o que é que ele quer ser, já está a educar, a achar que ele vai dizer logo como é que vai ganhar a vida, o que é que ele pretende fazer. Só conheço até hoje um menino que deu a resposta certa ao avô. Quando o avô lhe perguntou: “E o menino o que quer ser quando for grande?”, ele disse “reformado”, para grande espanto de toda a família. […] Não é que vão estar desempregados, é que não há empregos. Quando nós dizemos que há muito desemprego no mundo, estamos dizendo uma palavra absurda. Ou a pessoa está desempregada quando há o emprego e ele não está pendurado nela; trabalha ou não trabalha. Não, o que não há é emprego nenhum! Ninguém está desempregado, por exemplo, de ser condutor de eléctricos em Lisboa. O emprego desapareceu. Os empregos vão desaparecer no mundo progressivamente. Haverá cada vez mais meninos reformados logo ao nascerem. Reparai a consequência que traz, primeiro para a economia. Como é? Os governos, depois do exemplo de Caracas ou de greves no Brasil ou de outras coisas semelhantes, vão arriscar não dar subsídios para as pessoas se sustentarem suficientemente? Então estamos a ponto de propulsão daquelas primeiras gerações que nascem para os tempos livres; vão ser sustentadas sem fazer nada. Nenhum tem a possibilidade de apresentar a nota de 500$00 ou de 1.000$00 que atesta que ele trabalhou tantas horas e que tem direito a tantos croquetes ou a tantos quilos de açúcar. Vão ter que ser alimentados de graça e é uma delícia de ver como a história é hábil, manhosa e irónica também, porque no fim de contas quem é que criou esse paraíso? Foi a esquerda? De jeito nenhum! Foi a direita, e a mais conservadora possível da direita, porque assim que havia uma maquininha que lhe poupava a mão-de-obra, despedia a mão-de-obra e ficava contentíssima, amortizava a maquininha rapidamente e se lançava para diante. O resultado final é que ela hoje tem que alimentar de graça toda a mão-de-obra a que não queria pagar. Mas não é só isso, isso de passar de uma economia de produção para uma economia de distribuição já é um grande sinal dos tempos. Espera-se que isso avance, continue exactamente nesse caminho.

Mas há outra consequência. As nossas escolas, no fim de contas, são todas profissionais. Eu costumo dizer que são todas academias militares. Pode ser que não nos preparem para a artilharia ou para a cavalaria, mas reparai, é muito mais fácil o serviço militar, que dura um ano e meio ou dois anos no máximo, do que o nosso serviço civil que dura 30, 35 anos e não sei que mais e de que alguns se livram só quando fazem os setenta, porque por acaso ingressaram tarde nessa carreira tão pouco auspiciosa. Se não vai haver mais guerra, para que é a academia militar? Se não vão ser formados mais soldados da produção, porquê as escolas profissionais? Porquê um menino, que nunca vai ter emprego, andar a prender a casa dos nove (aquela terrível dificuldade que tive na aritmética da instrução primária) e a casa dos nove que, com outros nomes e outros afectos, vai até à universidade? Hoje nas universidades, em nenhuma delas se estuda alguma coisa que não seja para ser empregado. Quando enfim se formaram as Faculdades de Filosofia, toda a gente julgava que era para as pessoas irem para lá filosofar. Eu não digo aprender a filosofar, porque não percebo o que é aprender a filosofar, a não ser que seja aprender o que diz o Aristóteles, aprender o que disse Platão ou aprender o que disse Espinosa, sem aprender o essencial. O essencial de Espinosa não foi ter feito uma filosofia determinista, a mais coerente que se pode fazer, ainda acima daquela matemática do Descartes que ia dar todo o pensamento científico, desde o Kepler ao Newton até o Laplace, por exemplo. Não, o interessante do Espinosa é que ele, tendo feito uma filosofia determinista, mostrando que cada pessoa nasce com o destino marcado e, como dizem os portugueses, “é sempre a sua hora”, “tinha que ser”, “não havia jeito de escapar”, quando lhe mataram uns amigos que andavam na política e que se meteram em qualquer zaragata holandesa que lhes deu aquele resultado, ele veio para a rua, aos berros, protestando contra os assassinos, quando os coitados dos assassinos não tinham outro destino de que serem assassinos e os assassinados nenhum outro destino tinham também senão o de serem assassinados. Ele era incoerente, era de uma coisa e outra, e eu digo: é a prova plena de que ele era português, embora nascido na Holanda. E português se conservou, exactamente como nós que nunca dizemos que uma gata, que tem gatinhos num forno, criou biscoitos; criou gatinhos na mesma. Apesar de todo aquele ambiente holandês, Espinosa, só por isso, era plenamente português. É uma grande virtude do português, não um grande defeito, ser uma e outra coisa, não ser uma coisa só. Eu costumo dizer que divido os povos, não antropologicamente, mas segundo me apetece, em duas grandes categorias: os povos do “e” e os povos do “ou”. Os povos do “ou” são aqueles que dizem “uma coisa é verdadeira ou falsa” ou “é preto ou é branco”. O português é um povo do “e”, porque diz: “Bem, não é tanto assim, vamos lá ver como é, vamos olhar bem a questão, não é?” e acaba por ser o povo do “e”, com grande benefício dele. E vos digo que não há povo mais do “e” do que o brasileiro. Durante um certo tempo convivi de algum modo com frades franciscanos em Salvador, que vinham da Alemanha para serem missionários no Brasil e que ao fim de pouco tempo se queixavam: “O senhor não imagina o que isto é! Vamos dizer missa para S. Lázaro, por exemplo, e sabemos que na assistência o que se está ouvindo é uma cerimónia qualquer para Omulu. Dão muito dinheiro para sustentar a paróquia, mas na realidade nunca vão à confissão e nunca pedem a comunhão. Quando há um enterro, chamam-nos. Vamos com o enterro até metade do cemitério e depois nos mandam embora. […] Como é que se pode viver nisto?” Eu digo: “Porque vocês são da tal terra do ‘ou’. Vocês vêm da Alemanha com uma mania de que quando há mar é só para nadar. Também serve para boiar o mais possível.” Como eles eram pessoas crentes no que se dizia e homens de boa vontade, ao fim de pouco tempo já boiavam que era uma delícia. Não tinham nenhum problema de comportamento, não tinham nenhuma espécie de problema teológico, isto é, tinham-se alargado a tudo o que há de melhor no mundo.

Mas de qualquer maneira eu tive essa sorte de ouvir as pessoas que sabem fazer isso. Eu seria incapaz de comentar psiquiatria, psicologia, todas essas especialidades. Tive grande sorte na vida de nunca ser especialista de coisa nenhuma. Se devo isso à minha preguiça ou ao meu amor da vida, os outros que decidam; não vou decidir coisa nenhuma por mim próprio. Mas felizmente tive estes especialistas e pessoas que tiveram relação com João dos Santos e que tiveram a possibilidade de comentar todos esses aspectos do seu trabalho e da sua obra.

Mas sabeis uma coisa? Eu o que peço a todos os destinos do mundo e aquilo que tenho a certeza que sucederá é que dentro de pouco tempo nós nos veremos livres dessas especialidades. E eu quero ver como vai ser quando os homens puderem produzir quase automaticamente ou, ouso dizer, automaticamente tudo quanto é necessário.. Outro dia, em Moçambique, uma assistente me perguntava: “O senhor acha que a técnica europeia já está bem para nós?” Disse: “De jeito nenhum, porque não é inteiramente automática. Eu só quero que vocês adoptem a técnica europeia quando, ao acordar, basta ter um pensamento, nem é preciso apertar nenhum botão, basta ter um pensamento que se transmita a qualquer máquina para ela vos pôr a funcionar aquilo de que vocês precisam para comer ou para vestir.” E o resto, passar a vida sendo poeta à solta, sendo aquilo que nascemos, seja para o que for, poeta de pintura ou poeta de poesia ou poeta de física ou poeta de mística ou poeta de vadiar pelo mundo, que pode ter as suas utilidades. Quando dizem que o Newton chegou à lei da gravitação porque lhe caiu uma maçã na cabeça, eu acho que o nosso amigo andava vadiando. Não lhe caía a maçã aparatosa na sala de aula. De maneira que é bom deixar gente vadiar a ver se por acaso se descobre alguma coisa muito mais importante para nós, para a nossa vida, do que a lei da gravitação, hoje até em dificuldades com outras coisas que andaram por diante, pela mão do nosso amigo Einstein.

De modo que o que espero é que um dia o mundo se veja possivelmente livre dessas especialidades, a começar pela pedagogia, a começar pelas escolas. Então esses meninos, que nunca vão ter emprego, vão entrar numa escola profissional? Para exercer que profissão? Para se porem inteiramente fora disso, acabando logo com os professores, que em lugar de serem professores porque professam, são professores porque é uma profissão e deviam chamar-se até os “profissores”, para se ouvir dizer que não professam e são professores. Eles vão entrar na escola; nem é preciso discutir se eles entram na escola aos 2 anos, 3, 5 ou aos 50. Entram na escola quando quiserem, quando lhes apetecer, quando acharem que há um lugar onde eles podem chegar e perguntar como se pinta, como se passeia, como se estudam as rãs, como se olha para as estrelas ou qualquer coisa dessa espécie, para qualquer idade.

Fala-se agora em lutar contra os analfabetos – estou ameaçado de pertencer à Comissão para acabar com o analfabetismo até ao ano 2000 (eu digo logo: aí há um erro de zero; deve ser até ao ano 20 000). Mas se for até ao ano 2000, acabar com o analfabetismo de quem? É só o analfabetismo dos que não sabem ler? E o analfabetismo dos que não entendem o que lêem? E o analfabetismo daqueles que, depois de lhes traduzirem o que lêem, podem chegar ao 60 ou 70 anos e dizer: “Curioso! Não percebo que negócio é esse de oxigénio… Bicho não é, planta não é, que é isso?” São analfabetos em química e podem-se dar ao gosto de ir aprender química naquela altura, mesmo que seja nas vésperas de morrerem, de desaparecerem do mundo. Então o que é preciso é haver um grande sistema – oxalá Portugal o inicie! – um grande sistema de gente voluntária para ir para vários pontos, pelo menos com a enciclopédia, às ordens de quem entrar e perguntar alguma coisa. Saberão pelo menos ir à enciclopédia. Talvez se lhe possa dar um telefone e uma lista para comunicarem com qualquer pessoa que saiba mais e, quem sabe?, quais os Newton e Kepler novos e a gente de ciências inteiramente desconhecida que é capaz de aparecer com aquele que não foi mortificado pela escola, que não foi diminuído pela escola, que não perdeu o gosto de perguntar coisas difíceis apenas pela obrigação de aprender as perguntas que não sejam difíceis para o resto da sociedade, que é isso que, em geral, as escolas fazem com toda a gente que nelas penetra. A criança perde o gosto de perguntar; é além de tudo uma defesa que se entende da parte de muito professor: “Pôr o sujeito a perguntar o que lhe apetece, de repente descobrir a minha ignorância em tal ou tal assunto e não ter eu a coragem de lhe dizer que sou ignorante mesmo e que vou estudar aquilo que ele pergunta! …”

Há um episódio passado com um físico actual, de bom nome, o Feynman, de que há até um livro traduzido para português, pelo gosto que ele tem com as brincadeiras. Quando foi ensinar no Brasil, deu logo uma grande lição a muito brasileiro. Havia muito brasileiro supondo que o inglês é agora a língua da ciência. Outro dia me disseram a mesma coisa, que o inglês é agora a língua da ciência. Nunca foi; a língua da ciência é a matemática, não é o inglês. Então ele, quando viu que alguns brasileiros tinham aprendido um inglês meio trôpego para exporem as suas famosíssimas teses, ele, que tinha aprendido português para ninguém ter que usar inglês no Brasil, então na aula ficou assim com um orgulho de ser o sábio que era e com o tal gosto da brincadeira disse: “Gostaria que vocês me fizessem perguntas, sobretudo difíceis.” Então alguns se arriscaram a fazer perguntas a que ele respondia facilmente até que um o atrapalhou, parece que até hoje: “Gostava de saber, professor, por que é que a espuma é branca.” Ou lhe podia ter perguntado por que é que o urso polar, que todos dizem que é branco, quando se vêem os pêlos, os pêlos não têm nenhuma espécie de cor e são inteiramente transparentes.

Bom, os nossos amigos têm medo de deixar que o aluno pergunte, porque pode vir uma dificuldade dessas. E então realmente se tapou, se fechou alguma coisa que é extraordinária na criança: esse jeito de perguntar perguntas, de fazer perguntas, de formular questões que põem dificuldades aos outros, como aquela menina que de vez em quando cito que perguntou à mãe: “Mãe, que é pensar?” E a mãe, atrapalhada com a resposta, foi inventando uma história em que se via alguém pensando. Mas ela não tinha perguntado isso; tinha perguntado “pensar em si próprio que coisa é?” e como não chegava a nenhuma espécie de conclusão disse à mãe: “Mãe, pensa lá para eu ver como é!”, que foi a única forma de resolver a situação.

Então o que eu espero é que realmente um dia as coisas avancem de tal maneira que tenhamos escolas inteiramente de alunos voluntários, que nenhuma escola seja obrigatória e nenhum governante se tenha atrapalhado com a questão do insucesso escolar, sobretudo por se não ter lembrado de que talvez o insucesso escolar seja uma pequena parte do insucesso humano. Porque não? Se começarmos a pôr as razões pelas quais há insucesso escolar, quem sabe se não encontramos as mesmas razões para tudo quanto nos aparece no mundo como insucesso humano?

Mas o trabalho a fazer, o que havia a inventar, o que havia a ousar – mas vos digo, como o português é: ousar com toda a prudência – era pôr as crianças livres de tal maneira que elas pudessem voltar a ser como eram para o povo da Idade Média: imperadores do mundo. Os portugueses da Idade Média achavam que, quando viesse a terceira idade do mundo, aquela que eles chamavam de Espírito Santo, o grande governante seria a criança.

Quem sabe se não era esse o profundo ideal de João dos Santos e sobretudo o ideal que essa criança pudesse nascer mesmo daqueles que já sejam adultos. O ideal será que um dia nós todos sejamos adultos, sabendo tudo o que é possível e perfeitamente objectivos perante a vida e, ao mesmo tempo, totalmente crianças na nossa espontaneidade, no nosso gosto de perguntar, no nosso gosto de inventar o dia que nasce.

Sabeis uma das grandes tristezas hoje no europeu, no ceeista? Porque a CEE não é a Europa, a CEE é o departamento de secos e molhados da Europa ou, se por acaso acham que eu estou restringindo muito dizendo que é o departamento de secos e molhados, direi: é o Chiado da Europa, mas com tanta pouca sorte que não arde, ou pelo menos vai levar muito tempo a arder, até que arda de facto. Falta uma Europa que realmente acabe por ser europeia. Ela não é totalmente europeia, lhe faltou sempre seguir Portugal. O único país europeu que houve no mundo até hoje foi Portugal, logo seguido pela Espanha, por causa do Colombo, o coitado do Colombo, que era de facto um grande marinheiro, nunca me esqueço de insistir neste ponto. Do que sabemos de vida de marinheiros, é talvez o marinheiro mais notável que tem havido no mundo, capaz de estar num lugar qualquer e pela cor do mato, pelo aspecto do céu, mesmo nublado, saber mais ou menos onde estava. E um homem duma fé extraordinária. E costumo dizer que essa fé, essa convicção de que ia por ali chegar ao Japão, coisa que era impossível, fez até Deus ficar melancólico e dizer para um anjo: “Coitado deste homem com tanta fé e não vai encontrar aquilo que queria!” E o anjo disse: “O Senhor o que podia fazer para o consolar era inventar uma terra qualquer para ele encontrar.” E o Colombo conseguiu encontrar a América; ele não descobriu a América; o que aconteceu é que ele esbarrou com a América. Agora realmente as outras qualidades dele incitam a que o homenageemos como um homem que teve fé. E quando se censura D. João II por o não ter tomado a seu serviço, uma de duas hipóteses é possível: uma é D. João II saber muito bem que as medidas que o Colombo tinha da terra eram totalmente erradas e que a rota mais rápida era efectivamente a dos portugueses e não a rota oeste; ou outra coisa: D. João II, que foi maquiavélico antes de Maquiavel (ele na história aparece denominado de “príncipe perfeito”. Eu acho que não é, eu acho que ele é o perfeito príncipe, a incarnação certa do livro e das intrigas do Maquiavel), pode ter pensado: “Nós estamos todos empenhados, toda a nossa marinhagem e o nosso dinheiro está todo empenhado nessa rota pelo Cabo, mas talvez também fosse interessante navegar pelo Oeste. A gente que se aproximou do Labrador ou a gente que entrou no Golfão, aproximando-se do Brasil, talvez encontrasse umas terras interessantes para aquele lado. Mas não temos dinheiro para isso. Então mandamos este homem embora; ele que vá ter aos espanhóis e os espanhóis vão pagar uma expedição que será portuguesa.” Coisa que depois o Fernão de Magalhães repetiu e que infelizmente o Camões não compreendeu. O Camões chamou traidor ao Fernão de Magalhães, quando ele foi um homem esperto, capaz de fazer uma navegação inteiramente portuguesa, à custa também dos espanhóis. Quer dizer, a história precisa de ser bem estudada e bem olhada por outros aspectos que não são aqueles habituais. E para isso é uma delícia quando na história não há documentos, porque podemos inventá-la a gosto, talvez a história mais interessante que pode haver no mundo.

Mas além da escola, vão acabar outras coisas. Supomos que um dia as genéticas e outro tipo de vida no mundo, outra atmosfera da terra, vai não necessitar de psiquiatras e de psicólogos e de toda essa gente que hoje ainda é necessária.

Foi muito bom que João dos Santos tivesse cumprido esse seu dever no seu tempo, tendo ao mesmo tempo a ideia do passado, respeitando-o tanto, tendo a ideia do presente que tinha pela frente e como ele, ao mesmo tempo que foi educador, que foi psicólogo, que foi psiquiatra, que foi médico, que foi variadíssimas coisas, foi também uma coisa cuja profissão era difícil em quase toda a época da vida dele: ser cidadão, e cidadão pleno, que nunca cedeu de sua dignidade, que nunca se curvou a nenhuma espécie de ordem que ele considerasse repugnante e indigna de qualquer pessoa a aceitar.

Mas de todas essas actividades se falou e se falou muito bem e é muito bom que houvesse dele o conhecimento. Eu creio, porém, que a grande obra de João dos Santos está para além disso tudo, de todas essas coisas que vão desaparecer no tempo, quando desaparecer a economia, quando desaparecerem os homens que hoje estudam a inflação e se enganam sempre. Quando isso passar totalmente de moda, os economistas terão que fechar os seus compêndios e os seus escritórios. Espero que a saúde triunfe de tal modo que os médicos, embora com tristeza da Ordem, tenham que fechar os seus consultórios, e espero também que aqueles que não gostavam de ser professores, no sentido de gostarem de ser ensinados pelas crianças, fiquem também muito contentes quando a escolaridade não for obrigatória, quando as escolas, no nosso sentido da palavra, acabarem completamente.

Foi muito bom, portanto, que se tivesse insistido nisso e foi muito bom que João dos Santos tivesse cumprido o seu dever de ser do seu tempo. Mas o melhor dele não estava aí. O melhor dele era ser o homem que era, ser a pessoa extraordinária que foi em todos os aspectos de sua vida. E se eu me quiser referir rapidamente a eles, porque a hora já vai adiantada como costumam dizer os oradores que querem acabar depressa o seu discurso, eu diria que João dos Santos teve três qualidades essenciais, extremamente semelhantes ao voto dos religiosos: foi um homem que nunca foi possuído por aquilo que possuía, nunca foi tido por aquilo que tinha, coisa perigosíssima. Quanto mais coisas se têm pior, mais se está preso. E ele conseguia ao mesmo tempo ter a posse das coisas e não ser possuído por elas. Segunda coisa: não era dono daquilo que amava, nem era dono daqueles a quem amava, mas também não estava de maneira nenhuma disposto a ser possuído por aquilo que amava ou por aqueles que amava. E terceiro ponto: tendo bastante consciência da sua personalidade e disposto a exercê-la em qualquer ocasião e em qualquer circunstância, ele também era um homem que sentia o vento da vida e, se gostava de navegar a favor dos alícios, também se lembrava que o grande triunfo dos portugueses, de que às vezes tanta gente se esquece, tinha sido navegar contra ventos contrários. Então essas três qualidades, esses três votos – o de não ter, o de não possuir gente e o de ser obediente à vida, mais do que a si próprio, tendo, no entanto, o cuidado de ser sempre ele mesmo – faz lembrar realmente os votos de um religioso e me faz lembrar uma coisa que um religioso escreveu a alguém que lhe mandara umas linhas, em que dizia que muitas vezes a pessoa, que reza a Deus, tal ideia está fazendo de Deus que aquele Deus a que ele reza oculta o Deus que verdadeiramente é. E esse religioso, escrevendo de novo a essa pessoa, dizia-lhe: “Assim é, de facto. O verdadeiro culto se deve formar, se deve fazer, na humildade e no silêncio.” A mesma coisa penso eu para um homem como João do Santos. É preciso venerá-lo, entendê-lo e venerá-lo com humildade e no silêncio, mas, por causa da nossa maneira de ser a que estamos habituados, sempre com muito cuidado para não ficarmos com orgulho da nossa humildade e não acabar falando muito do silêncio que deveríamos ter. Muito obrigado.

* Comunicação de Agostinho da Silva em 21 Março de 1989 no Encontro “Com João dos Santos Aprender Aprendendo” organizado pela CEFEPE (Centro de Formação Educacional Permanente) que tomou lugar na Fundacão Calouste Gulbenkian. Texto reproduzido a partir da gravação efectuada no Encontro. A frase “Mãe, pensa lá para eu ver como é!” é de Agostinho da Silva. A citação em epígrafe é da responsabilidade do editor.
Para obter uma cópia da transcrição original em formato PDF, por favor clique nesta ligação.

** A ausência de texto assinalada assim […] corresponde à mudança de cassete na gravação transcrita. Acrescente-se que toda a intervenção foi reproduzida a partir da gravação efectuada no “Encontro”.

 
 

 
 
 
 

A Lisboa de João dos Santos

Clique nesta LIGAÇÃO para ver o filme “A Lisboa de João dos Santos”, realizado pela equipa do Arquivo Municipal de Lisboa – Videoteca, baseado nos textos de João dos Santos.

 
 

 
 

 

“Príncipes da Medicina”

A vida e obra de alguns dos mais fascinantes e inspiradores médicos da História

de Mário Cordeiro

Príncipes da Medicina A vida e obra de alguns dos mais fascinantes e inspiradores médicos da História. Na medicina sempre existiram pessoas que se dedicaram ao próximo de forma abnegada, sem outro desejo que não o de melhorar a sua arte, dando apoio nas horas mais terríveis de qualquer ser humano, como a falta de saúde e o sofrimento físico, psicológico e social. Entre este incontável número de pessoas extraordinárias, sobressaíram algumas que adicionaram à arte médica outras faces do prisma complexo que é o ser humano. E que foram, para além disso, mestres na pintura, escultura, poesia, música, literatura, política, filosofia, história ou na defesa intransigente e corajosa dos direitos humanos. São verdadeiros príncipes, que representam exemplos a analisar, admirar e seguir. Neste livro, Mário Cordeiro conta o percurso de vida de alguns destes Príncipes da Medicina desde a Antiguidade até aos nossos dias. Um dos capítulos deste livro é dedicado a João dos Santos.

Este livro está à venda nesta página da Wook.
 
 


 

Novas Pesquisas em Andamento

A pesquisa intitulada, Laços Familiares, Constituição de Sujeitos, Políticas de Educação e Saúde em Espaços Escolares e Sociais, segundo a abordagem de João dos Santos, desenvolvido pela Profa. Patrícia Holanda, está integrada num conjunto integrado de pesquisas que procura associar as investigações da LHEC (Linha de História da Educação Comparada), constituída por pesquisadores-orientadores e orientandos do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira da UFC (Universidade Federal do Ceará) e pesquisadores colaboradores de uma rede interinstitucional em formação.

O referido conjunto é composto por vários subprojectos, que têm como propósito dar continuidade ao trabalho iniciado em 2013 e também ampliar as suas possibilidades de investigação, ao adoptar como temática de estudo, Família, Educação e Sexualidade articulada com a obra de João dos Santos (1913-1987), que tem conduzido ao desenvolvimento das seguintes pesquisas em andamento no âmbito do referido Programa de Pós-Graduação:

 

Contribuição da Psicopedagogia de João dos Santos para os Problemas da Adolescência em Portugal e no Brasil

mairaDoutoranda: Maíra Maia Moura – LHEC / UFC
Entender estratégias de aprendizagem e sociabilidade na adolescência, em conexão com marcos de interação entre família, escola e sociedade, a partir da abordagem de João dos Santos, que trata a infância e a adolescência, como períodos de grande importância para o desenvolvimento psíquico, aberto à actividade artística, devido à ligação entre a dimensão afectiva e cognitiva dos indivíduos, no campo da saúde mental e da educação; de outros autores contemporâneos e da perspectiva sociológica e comparada de investigação, com vistas a aproximar o debate e acção prática do campo da Psicopedagogia no Brasil e em Portugal, em relação aos problemas de aprendizagem e socialização de crianças e adolescentes, na era da educação mediática, do consumismo, da violência e dos conflitos de geração.

 

A Dimensão Estética da Pedagogia Terapêutica de João dos Santos na interação com a Arte de Cecília Menano

regiane-araujo-mediumDoutoranda: Regiane Rodrigues Araújo – LHEC / UFC
A pesquisa trata da dimensão estética na Pedagogia de João dos Santos, em consonância com a arte da educadora Cecília Menano, tendo como objectivo geral “Compreender as aproximações estéticas existentes entre a arte de Cecília Menano e a Pedagogia Terapêutica de João dos Santos no desenvolvimento da criança”.

 

A Educação da Criança e a Formação de Seus Professores nos Cursos de Pedagogia: Um Estudo Comparado Brasil-Portugal

carlos-bonfim-smallerDoutorando: António Carlos Ferreira Bonfim – LHEC / UFC
A pesquisa analisa o lugar e o sentido atribuído à educação da criança na formação dos pedagogos nos cursos presenciais de licenciatura Pedagogia da Universidade Estadual do Ceará à luz do referencial santiano, após a publicação das directrizes curriculares nacionais de 2006, numa perspectiva comparada Brasil-Portugal.

 
 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
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  • 22 – 24 de Setembro de 2017

     

    Histórias de Corpo – Religião – Educação

    O XVI CONGRESSO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO DO CEARÁ vai decorrer de 22 a 24 de Setembro de 2017, em Icó, Ceará, Brasil.
    Para aceder ao site do evento e à página da programação, por favor siga as seguintes ligações:

    Site do evento

    Programação

     

     
     
  • Proposta de Lei n.º 34 / XIII – Definição de ATO MÉDICO

    O XXI Governo Constitucional, no seu programa para a saúde, estabelece como prioridades aperfeiçoar a gestão dos recursos humanos e a motivação dos profissionais de saúde, apostando em novos modelos de cooperação entre profissionais de saúde, no que respeita à repartição de competências e responsabilidades e melhorar a qualidade dos cuidados de saúde, apostando em modelos de governação da saúde baseados na melhoria contínua da qualidade de garantia da segurança do doente… (Siga esta LIGAÇÃO para aceder ao documento de Proposta de Lei n.º 34/XIII.).

    Existe actualmente uma proposta de diálogo relativo à formulação do Artigo 5 desta proposta de lei, em que se define o ATO MÉDICO.

     
     
     

     
     
  • Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos em conversa

    Clique na seguinte ligação para para visualizar este vídeo do Instituto de Tecnologia Educativa – RTP (1975) A Escolinha de Arte de Cecília Menano – com Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos, que foi muito generosamente disponibilizado pelo Dr Daniel Sasportes (19 minutos). [Clique nesta ligação]

     


  • A Lisboa de João dos Santos

     

    A Lisboa de João dos Santos

    Clique nesta LIGAÇÃO para ver o filme "A Lisboa de João dos Santos", realizado pela equipa do Arquivo Municipal de Lisboa - Videoteca, baseado nos textos de João dos Santos.

     

  • Photomaton

    Photomaton

    O filme “PHOTOMATON-Retratos de João dos Santos”, realizado por Tiago Pereira e Sofia Ponte é uma produção da Fundação Calouste Gulbenkian e da RTP2 e é colocado neste site com a muito generosa autorização da Fundação Calouste Gulbenkian.

     

  • Crianças Autistas by Ernesto de Sousa

    Clique na seguinte imagem para aceder ao filme
    "Crianças Autistas" by Ernesto de Sousa"
    e depois carregue no botão "Play".
    (este filme não tem som!)  

    imagem de Criancas Autistas by Ernesto de Sousa

    Crianças Autistas
    Realização de Ernesto de Sousa a partir de uma ideia de João dos Santos, 1967
    Operador de câmara: Costa e Silva
    Filme disponibilizado pelo Centro de Estudos Multidisciplinares (CEMES)
    www.ernestodesousa.com

     

  • Programa IFCE no Ar, Radio Universitária

    Entrevista sobre o andamento do curso à distância “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”

    Entrevista gravada com a coordenadora do curso “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”, Professora Patrícia Holanda da Linha de História da Educação Comparada da UFC (Universidade Federal do Ceará), com o Doutor Luís Grijó dos Santos (filho de João dos Santos), e a coordenadora pedagógica do curso Professora Ana Cláudia Uchôa Araújo da Directoria da Educação à Distancia do IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará). A entrevista foi realizada pelo jornalista Hugo Bispo do Programa IFCE no Ar em 3 de Novembro de 2016.

    Para ouvir a gravação desta entrevista clique nesta ligação.

     


     

  • “Histórias de mulheres” é finalista da 58º edição do Prêmio Jabuti

     

    O livro "Histórias de mulheres: amor, violência e educação", organizado por Maria Juraci Maia Cavalcante, Patrícia Helena Carvalho Holanda e Zuleide Fernandes de Queiroz, é finalista na categoria "Educação e Pedagogia" da 58ª edição do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, considerado o mais importante prêmio do livro brasileiro.

    A obra, lançada em 2015 pelas Edições UFC, conta, entre outros, com artigos da Professora Patrícia Helena Carvalho Holanda e do Professor Pedro Parrot Morato “A Mulher e a Família à Luz do Referencial Santiano na Perspectiva Comparada Brasil-Portugal”, e da Dra Clara Castilho “A Mãe e a Escola como Promotores de Inclusão Social das Crianças com Necessidades Especiais na Abordagem de João dos Santos”.

    Maria Juraci Maia Cavalcante e Patrícia Helena Carvalho Holanda são professoras da Faculdade de Educação da UFC. A obra pode ser adquirida na Livraria da Universidade Federal do Ceará (área 1 do Centro de Humanidades – Av. da Universidade, 2683, Benfica).

    Para mais informações clique nesta ligação.

     


     

  • UM PENSADOR EMOCIONADO

    Professor Doutor José Adriano Barata-Moura

     

    Clique nesta LIGAÇÃO para ver o vídeo "João dos Santos - Um Pensador Emocionado" da conferência do Professor Doutor José Barata-Moura, 7 de Setembro de 2013 no congresso “João dos Santos no século XXI”.

     

     

  • Os Dias da Rádio Em Conversa com João Sousa Monteiro

     
     

    Clique nesta LIGAÇÃO para ver o vídeo "Dias da Rádio - Em Conversa com João Sousa Monteiro".
    Vídeo produzido e realizado no âmbito das XXI Jornadas da Prática Profissional: " O Segredo do Homem é a Própria Infância: Pensar em Educação com João dos Santos" que se realizaram na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Santarém nos dias 8 e 9 de novembro de 2013.

     

     

  • Testemunhos

    “Estimada Paula Santos:"

    Não quero deixar de testemunhar que o seu pai, Dr. João dos Santos, foi uma grande referência para mim, no perfil de psicoterapeuta.

    Fui discípulo seu durante um ano no Hospital Santa Maria e, foi para mim uma experiência admirável pela grande capacidade de lidar com uma criança e através dela captar o seu micromundo. Depois, já na sua ausência, sem quaisquer outros dados, no Seminário dos Internos, descrevia, com espanto para nós, as personalidades dos pais, os seus conflitos, a qualidade de relacionamento. Não segui a psicanálise, mas foi com o seu pai, meu grande querido mestre, que me enriqueci no caminho da psiquiatria clássica.

    O Dr. João dos Santos vai ser tardiamente homenageado pela Ordem dos Médicos, depois de tantas honrarias que recebeu e mereceu. Com esta nova Direcção, a Ordem está a tentar repor publicamente, o mérito de médicos ilustres esquecidos, muitos incómodos, para conhecimento das novas gerações de médicos, a bem dos princípios de justiça, dos valores e da história da medicina portuguesa.
    Com os melhores cumprimentos

    Júlio Pêgo (Psiquiatra)”
    Novembro de 2014
    [Ler mais testemunhos]


  • Notícias

    “A Neurose de Angústia”
    A edição eBook para Kindle do livro “A Neurose de Angústia” está à venda em todos os sites da Amazon.

    [Para mais informações clique aqui]



    "João dos Santos, um caminho diferente na saúde mental"
    Trabalho de métodos qualitativos de Leonor Moreira Rato, supervisado pelo Professor Doutor Miguel Nunes de Freitas do ISPA – Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida. Inclui a transcrição de uma entrevista feita à Professora Doutora Maria Eugénia Carvalho e Branco por Leonor Moreira Rato. [Para mais informações]


    O Senado da Universidade de Lisboa atribui o título de Doutor Honoris Causa ao Pedagogo Sérgio Niza
    A Cerimónia de Investidura do título Doutor Honoris Causa terá lugar no próximo dia 23 de Abril 2015, com início às 18.00 horas, na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa. [Continuar a Ler]


    Apresentação do livro de Maria Eugénia Carvalho e Branco pelo Professor Doutor António Coimbra de Matos e pelo Dr Pedro Strecht
    Agradeço à Professora Doutora Maria Eugénia Carvalho e Branco o honroso convite para participar na apresentação do seu livro "João dos Santos. A Saúde Mental Infantil em Portugal. Uma Revolução de Futuro".
    É uma honra e um prazer. Duplos:
    1. Pela elegância da forma e riqueza do conteúdo. Como leitor, primeiro foi o espanto, logo de seguida, o conhecimento – no lúcido dizer do filósofo estagirita; mas sobretudo, o que eu senti foi encantamento face à empolgante transmissão do que foi o Homem e do que é a Obra que nos legou. [Continuar a Ler]

    Revista Visão
    A revista Visão publicou na sua edição de 12 a 18 de Dezembro de 2013 (nº 1084) um artigo sobre João dos Santos, “A criança e o mestre”, subscrita pela jornalista e psicóloga Clara Soares. [Ler o artigo completo]

    Escola Superior de Educação de Santarém
    As Jornadas da Prática Profissional da ESES – “Pensar em Educação com João dos Santos” decorreram muitíssimo bem, com muito entusiasmo, envolvendo alunos e professores, enlaçando pensamento e afecto em todos os presentes e em todos os seus momentos, das conferências aos painéis, dos ateliers para adultos aos ateliers com crianças, dos filmes à escuta dos Dias da Rádio – em que pudemos recordar ( e alguns, ouvir pela primeira vez) essas conversas tão especiais. [Continuar a ler]

    “Exposição e Tertúlia João dos Santos
    No ano em que se celebra o Centenário do Nascimento de João dos Santos, a Câmara Municipal de Odivelas associou-se a estas comemorações através da uma Exposição sobre a vida e obra do homenageado inaugurada a dia 23 de Outubro e ainda uma Tertúlia realizada no mesmo dia às 17,30 no Centro de Exposições de Odivelas com o patrocínio da Associação Portuguesa de Psiquiatria da Infância e Adolescência. [Continuar a ler]

    “A Saúde Mental Infantil em Portugal - Uma Revolução de Futuro”
    O lançamento da nova obra de Maria Eugénia Carvalho e Branco ““A Saúde Mental Infantil em Portugal – Uma Revolução de Futuro”” será realizado no dia 8 de Novembro de 2013 pelas 19h30 inserido nas XXI Jornadas da Prática Profissional 2013/2014, da Escola Superior de Educação de Santarém. [Ler mais notícias]

    A Liga Portuguesa de Higiene Mental
    – Associação que mantem como sua principal actividade o funcionamento da linha telefónica de apoio emocional e de Prevenção do Suicídio O SOS VOZ AMIGA – pretende, com o envio desta notícia, associar-se às Comemorações do Centenário de João dos Santos, através da transcrição parcial do Editorial do seu Boletim de Maio 2013, em que são realçadas as valências de uma das Instituições Associativas criadas por João dos Santos: o IAC e posteriormente o SOS Criança. [Ler mais]

    “Vida, Pensamento e Obra de João dos Santos”
    A 2ª Edição (Revista) do livro “Vida, Pensamento e Obra de João dos Santos” de Maria Eugénia Carvalho e Branco acaba de ser publicada pela editora Coisas de Ler. [Ler mais notícias]

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