Centenário de João dos Santos

Professora Doutora Celeste Malpique MEDIUMCeleste Malpique*
20 de Maio de 2013

Tenho aqui à minha frente a sua fotografia, em camisa branca, de braços cruzados, com um sorriso aberto, talvez a sua mais bela imagem!

É uma imagem sorridente, irónica, sedutora que guardo na minha memória. Uma personalidade que marcou a minha carreira profissional e que eu procurei activamente com curiosidade e admiração.

Quando terminei o Curso de Medicina em 1957-58, no Porto e me decidi a seguir Psiquiatria, só encontrei um destino … LISBOA, a minha terra natal, em demanda de João dos Santos, no Hospital Júlio de Matos, onde já era conhecido pelas suas ideias inovadoras sobre a saúde mental infantil. Meus pais, alentejanos, amantes do sul, estiveram de acordo. Foi a primeira vez que saí de casa… Uma vida nova!

E foi estimulante essa aprendizagem, pouco directiva, muito pouco carregada de bibliografias, que me fez despertar para um saber nada livresco mas antes atento às pessoas, à relação, à observação empática das crianças. Eu vinha treinada a estudar por livros, gostava de ler, tinha dúvidas e fazia perguntas “inteligentes”. Ele ria-se, às vezes respondia que “não sabia”, que “talvez”, “ logo se verá “ e continuava a sua observação relacional maravilhosa, guiado por uma intuição empática que nunca falhava.

Um dia, já de regresso ao Porto, convidei-o para comentar um caso clínico de gémeos de sexo diferente, em que era notória a complementariedade dos papéis, em que a menina superava de longe o rapaz na linguagem e o miúdo ficava mudo. Aliás eles comunicavam entre si por uma criptofasia, que os isolava do mundo.

João dos Santos ouviu com atenção, elogiou o trabalho, mas disse-me que eu fizera como a menina que falava bem e que lhe tinha deixado pouca coisa para dizer. Estava tudo dito!

Fiquei atónita!… e foi assim, por experiência vivida que aprendi… e muito, com João dos Santos.

Aquele ar sério e digno, respeitador com que lidava com as crianças, aquela forma serena, delicada, e, ao mesmo tempo lúdica com que manipulava o corpo da criança, aquela capacidade de comunicar em espelho, de assistir atento ao jogo ou de comentar o desenho! Acrescentava sempre algo, transformava sem modelar.

O que ele me ensinou a ver o mundo interno daqueles com quem comunicava, e a autenticidade com que permitia que assistíssemos ao espetáculo e comentássemos depois. Não se exibia porque tomava muito em consideração o intercâmbio com a assistência. Era um verdadeiro Professor!

Quando fiz um estágio em Genève com o Prof. Ajuriaguerra e com a equipa do Serviço Médico-Pedagógico (1963), muito beneficiei do que já tinha aprendido com João dos Santos. Ele foi realmente um pioneiro e um inovador europeu no que respeita à SAÚDE MENTAL INFANTIL. Lisboa estava a par de Paris e de Genève nos anos 60-70. Em Lisboa só falhávamos na pobreza e na organização dos Serviços. Foi por sua iniciativa que foram criados os CENTROS DE SAÚDE MENTAL INFANTIL, na década de 80.

Foi através de João dos Santos que me sensibilizei para a Psicanálise e segui a minha formação na SPP com zelo e dedicação, viajando semanalmente do Porto para Lisboa, durante anos. Muito mais difícil para mim do que o Curso de Medicina e a especialização em Psiquiatria.

O livro que publiquei em 1999 “Pais-Filhos em Consulta Psicoterapêutica“ foi dedicado à memória de João dos Santos a quem chamo “Meu Mestre e Companheiro de Viagem,” e nele transcrevo um trecho do seu FALAR DAS LETRAS (1983), que aproveito a relembrar:

O equilíbrio e o bom funcionamento mental, tal como as várias perturbações psíquicas da criança e do adulto, dependem muito da forma como se aprendeu a falar e a calar. Da forma como se aprendeu a funcionar mentalmente.

O silêncio aparente das palavras pode ser rompido pelos sintomas, mas os próprios sintomas podem silenciar-se pela repressão medicamentosa ou educativa ou pela angústia que persiste ou se acentua. Neste caso, a própria inteligência poderá ser bloqueada no seu desenvolvimento. A repressão dos sintomas e a repressão da fantasia podem matar a inteligência. A criança pode calar-se definitivamente ou aprender a falar como os papagaios amestrados; sem pensar próprio. Silêncio pode ser vida, silêncio pode ser morte.

Alguns colegas criticaram a familiaridade com que lhe chamei “Companheiro de Viagem“, mas é verdade, foi mesmo companheiro de viagem a Macau e à China (c. 1984) e recordo com saudade a sua presença, os seus comentários pertinentes ao que ia observando, as suas crónicas. Em plena China disse-me: ”Oh Celeste já reparou na sorte que temos em ser europeus! nós devemos, neste aqui e agora, ser os únicos psicanalistas na ÁSIA!” Achei graça e senti-me honrada por ele já me considerar, ao seu lado, uma psicanalista. O mundo que nos rodeava era realmente exótico e bem diferente do nosso. O Mundo pareceu-me imenso… e eu muito pequena, mas segura ao seu lado.

João dos Santos, ”meu companheiro de viagem“, é também verdade se viagem for entendida como percurso de Vida! João Santos foi realmente um companheiro que me abriu os olhos para a Vida, para os outros, para a comunicação com a criança em devir que trazemos dentro de nós, para um mundo interno aberto ao fascínio do que nos rodeia. Sim João dos Santos foi para mim, um verdadeiro MESTRE.

 

PORTO, 20 de Maio, 2013

 
 
 *Professora Doutora Celeste Malpique, psiquiatra e psicanalista
 
  
 
 
 
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  • Proposta de Lei n.º 34 / XIII – Definição de ATO MÉDICO

    O XXI Governo Constitucional, no seu programa para a saúde, estabelece como prioridades aperfeiçoar a gestão dos recursos humanos e a motivação dos profissionais de saúde, apostando em novos modelos de cooperação entre profissionais de saúde, no que respeita à repartição de competências e responsabilidades e melhorar a qualidade dos cuidados de saúde, apostando em modelos de governação da saúde baseados na melhoria contínua da qualidade de garantia da segurança do doente… (Siga esta LIGAÇÃO para aceder ao documento de Proposta de Lei n.º 34/XIII.).

    Existe actualmente uma proposta de diálogo relativo à formulação do Artigo 5 desta proposta de lei, em que se define o ATO MÉDICO.

     
     
     

     
     
  • Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos em conversa

    Clique na seguinte ligação para para visualizar este vídeo do Instituto de Tecnologia Educativa – RTP (1975) A Escolinha de Arte de Cecília Menano – com Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos, que foi muito generosamente disponibilizado pelo Dr Daniel Sasportes (19 minutos). [Clique nesta ligação]

     


  • Programa IFCE no Ar, Radio Universitária

    Entrevista sobre o andamento do curso à distância “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”

    Entrevista gravada com a coordenadora do curso “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”, Professora Patrícia Holanda da Linha de História da Educação Comparada da UFC (Universidade Federal do Ceará), com o Doutor Luís Grijó dos Santos (filho de João dos Santos), e a coordenadora pedagógica do curso Professora Ana Cláudia Uchôa Araújo da Directoria da Educação à Distancia do IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará). A entrevista foi realizada pelo jornalista Hugo Bispo do Programa IFCE no Ar em 3 de Novembro de 2016.

    Para ouvir a gravação desta entrevista clique nesta ligação.

     


     

  • “Histórias de mulheres” é finalista da 58º edição do Prêmio Jabuti

     

    O livro "Histórias de mulheres: amor, violência e educação", organizado por Maria Juraci Maia Cavalcante, Patrícia Helena Carvalho Holanda e Zuleide Fernandes de Queiroz, é finalista na categoria "Educação e Pedagogia" da 58ª edição do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, considerado o mais importante prêmio do livro brasileiro.

    A obra, lançada em 2015 pelas Edições UFC, conta, entre outros, com artigos da Professora Patrícia Helena Carvalho Holanda e do Professor Pedro Parrot Morato “A Mulher e a Família à Luz do Referencial Santiano na Perspectiva Comparada Brasil-Portugal”, e da Dra Clara Castilho “A Mãe e a Escola como Promotores de Inclusão Social das Crianças com Necessidades Especiais na Abordagem de João dos Santos”.

    Maria Juraci Maia Cavalcante e Patrícia Helena Carvalho Holanda são professoras da Faculdade de Educação da UFC. A obra pode ser adquirida na Livraria da Universidade Federal do Ceará (área 1 do Centro de Humanidades – Av. da Universidade, 2683, Benfica).

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