O LAGO E A CASCATA

Mário de Carvalho MEDIUMMário de Carvalho
Escritor
4 de Junho de 2013 *

Quando uma instituição sabe honrar os que engrandeceram o país fica ela própria mais honrada e engrandecida. Neste sentido, apraz-me saudar A CML e a Empresa pública CTT por estes momentos em que João dos Santos é evocado. Não posso dizer que é lembrado, porque ele não foi esquecido.

Há certas figuras cuja obra ressoa, através dos tempos e das contingências, vibrando em fundo, como um fresco madrigal numa floresta. A presença de João dos Santos, o que escreveu, o que reflectiu, o que ensinou, a sua inteligência inovadora, o seu sentido da descoberta deixaram uma impressão funda nos que lidaram profissionalmente com ele. A sua humanidade e afabilidade, a serenidade e distinção do trato pessoal deixaram uma memória aprazível e benigna em todos.

Chegado a este ponto da minha vida, que já se vai alongando, eu tenho de confessar o privilégio de no decorrer dos tempos ter privado, de uma forma ou doutra, com vários grandes homens, daqueles que contribuíram para sermos mais do que nós, parafraseando a célebre fala do homem do leme, no poema da «Mensagem»: «Aqui ao leme sou mais do que eu». João dos Santos foi, efectivamente, um desses homens.

Conheci-o em família, em rodas de serão, convívio de amigos, sessões informais de confraternização — no «conviver- conversando», para usar a própria expressão de João dos Santos — quando era, pelos mais íntimos, tratado alegremente por «John». Anotei, nestes relances da convivência de outra geração, aquela peculiar fleuma, a tranquilidade repousada de quem às vezes — entre contares e gargalhadas –, no seu sorriso aquiescente, mão pousada sobre o queixo, parecia pensar noutras coisas – e se calhar pensava mesmo. Nunca levantava a voz, não consigo imaginá-lo a dar um grito ou a ter um gesto brusco, ou a descair em qualquer desatino. Exprimia-se baixo, pausadamente, com uma escolha criteriosa da frase. E não recorria nunca à retórica exuberante e consabida de quem pretende a todo o custo persuadir ou divertir. Numa nota mais pessoal, apraz-me recordar a paciência educada com que ouviu a argumentação esquemática e um tanto primária com a qual eu, na minha verdura, me dignava a explicar o mundo e a sociedade. Mas aquela figura pequena, morena, pausada, discreta, que nos habituámos a ver num abandono de perna cruzada, numa sala, ou à mesa dum restaurante, em revoadas de amigos, tinha quase sempre, na sua bela casa de Sesimbra, a presença de um escritor, de um artista, de um cientista, rendido à elegância da sua conversação esclarecida.

Ora essa mesma personalidade branda e recolhida desenvolvia uma actividade assombrosa, pertinaz, de um dinamismo sem limites, contra a inércia do conformismo, contra uma perseguição política cega e mesquinha, contra o marasmo das ideias e a renúncia à indagação. Como foi possível conciliar uma tão grande tranquilidade de espírito, e um vagar sem pressas (sem «stress», diríamos hoje) com uma movimentação criativa tão intensa, quotidiana, variada e continuada? É um mistério de que João dos Santos tinha o segredo e a cuja enunciação responderia, certamente, com um sorriso.

Sobre o amplo labor criativo de João dos Santos, fora do meu pequeno círculo, haverá quem se pronuncie de maneira mais qualificada e conhecedora (embora eu possa declarar que ainda sou beneficiário dessa ressonância, porque tenho netos no Pestalozzi) mas eu gostaria de relatar agora um rasgo de generosidade e espírito solidário que ocorreu comigo e devido a circunstâncias da minha vida pessoal. Esse relato pode começar por uma catedral.

Todos conhecem, pelo menos em reprodução, a célebre escultura de Rodin: duas mãos esguias aproximam-se. Dobram-se, um pouco, uma mais que outra, como para conter qualquer coisa. Quase se tocam como para se acariciar. Desdobram-se para o alto, como a querer o infinito. Estão prestes a entrelaçar-se num enlace de afecto. Estão imóveis, e no entanto, giram e rodam. São duas mãos direitas de homens diferentes. Rodin chamou-lhes «A Catedral». A figura belíssima e um pouco sofrida, recortando-se com suavidade sobre o que podemos imaginar ser um fundo de música, poderá ter para os especialistas, críticos e historiadores todas as leituras que a arte e o seu contexto costumam carregar de polissemia.

Para mim, no momento em que a recebi, em postal ilustrado, endereçado ao estabelecimento prisional de Caxias, com o abraço de João dos Santos, teve um sentido pessoal muito intenso: o de uma afirmação solidária de humanidade, um apelo amigo à coragem, numa circunstância de cerco e isolamento.

Por razões de resistência política, eu tinha sido preso em Abril de 1971, pela DGS, nome com que a polícia política, PIDE, se rebaptizou durante o marcelismo. Na maior parte dos casos, se não em todos, a polícia política maltratava os presos. Alarmada, nomeadamente pela falta de notícias, a minha família requereu a visita de João dos Santos, alegando preocupação pelo meu estado de saúde psíquico. Encontrei há dias, por mero acaso, cópia dessa petição, assinada por minha mulher, pais e sogros. A visita foi para mim, que me encontrava ainda em isolamento, após onze dias de privação do sono, um rasgo de claridade, no meio da incerteza cinzenta e ameaçadora, que me rodeava. Durante breves minutos, na enfermaria do forte de Caxias, aquela presença serena e aquele abraço amigo significaram, por si sós o encorajamento e a solidariedade dos homens livres. Dias mais tarde, receberia, enviado e autografado por João dos Santos o postal com a reprodução da Catedral de Rodin, acompanhado de um livro, também rubricado, que ainda conservo: «Le Guide Marabout du Yoga».

Esta visita de João dos Santos, naquele tempo e condicionalismo tem um duplo significado:

— Por um lado, atesta que o prestígio do grande médico e intelectual que o regime tinha perseguido, privado de emprego e forçado ao exílio, era, na altura imenso, a ponto de obrigar a própria polícia política a uma concessão rara;

— Por outro lado, é mais uma comprovação da disponibilidade generosa e solidária de João dos Santos que nunca se comprometeu, nem vergou ao autoritarismo despótico que então vigorava.

Hoje – e por enquanto – é preciso acrescentar uma palavra para explicar o que este gesto representou. Uma pessoa que já não era jovem, com múltiplas actividades, respeitado no seu meio, com o tempo preenchidíssimo, bem conhecedora, por experiência própria, da capacidade retaliatória do regime, expõe-se novamente, desloca-se à prisão de Caxias, sujeita-se a burocracias, a más memórias, porventura a vexames e incómodos (o que felizmente – sejamos justos – não foi o caso), por causa de um jovem que nem sequer conhecia de muito perto.

Pessoalmente, nunca esqueci, nem esquecerei aqueles momentos de cumplicidade, nem aquele sorriso tranquilo, corajoso e confiante que me é tão grato à lembrança.

Não queria terminar sem umas palavras de apreço pelos ideais de liberdade em que João dos Santos foi educado, na sua família, e que soube, tão elevadamente, transmitir. Muitos da minha geração receberam-nos e transfiguraram-nos, um pouco como a dele já havia feito com o republicanismo dos seus pais. É com ternura que eu evoco as esperança, a confiança e a vontade daqueles jovens, que na demanda de um mundo melhor passaram pelo esperantismo, com a sua promessa de fraternidade universal, pelo campismo e naturismo, como resposta a um ramerrão cinzento e opressivo, e afirmaram uma causa, mesmo quando, após a derrota republicana em Espanha, sofreram o tormento de ver a barbárie Nazi/fascista a alastrar pelo mundo, de uma forma que então parecia irreversível.

Antes de ser fuzilado no Mont Valérien, um homem, um resistente, chamado Gabriel Péri, apelou numa derradeira carta, para «os amanhãs que cantam». A expressão ficou célebre e tem sido vilipendiada, e amplamente escarnecida por muito ignorante-repetidor, por muito comentador cínico ou pela propaganda esmagadora dos interesses dominantes. É como justa provocação que a recupero e proclamo. Creio que esta homenagem a um homem generoso é uma boa ocasião para isso. Notem: o que se propõe são «amanhãs que cantam», não os que excluem, não os que humilham, não os que violentam, não os que dividem. Não os que assassinam… Cantam — como expressão superior de uma afirmação de humanidade. As canções heróicas dessa geração e o canto livre da minha, tão multiplicado e tão intenso, assinalando rebeldia, inconformismo e modernidade vinham anunciar essoutro cântico de uma humanidade mais unida e mais fraterna.

Utopia – aquilo que não tem lugar em parte nenhuma, excepto no coração dos homens. A aspiração por um mundo melhor, mais justo e livre ficou indelével na construção – sempre ameaçada — da nossa própria humanidade. João dos Santos alinhava com aqueles que – estejam onde estiverem — acreditam na possibilidade de um futuro melhor e nunca perdem de vista esse horizonte transformando-o em proposta de vida.

Mário de Carvalho

4/6/2013

 
 
* Discurso proferido pelo Escritor Mário de Carvalho por ocasião do lançamento do livro “Prevenir a doença e promover a saúde” e da apresentação pública do selo do psiquiatra e psicanalista João dos Santos, que se realizou no dia 4 de Junho, na Sala do Arquivo dos Paços do Concelho em Lisboa

 
 
 
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  • Proposta de Lei n.º 34 / XIII – Definição de ATO MÉDICO

    O XXI Governo Constitucional, no seu programa para a saúde, estabelece como prioridades aperfeiçoar a gestão dos recursos humanos e a motivação dos profissionais de saúde, apostando em novos modelos de cooperação entre profissionais de saúde, no que respeita à repartição de competências e responsabilidades e melhorar a qualidade dos cuidados de saúde, apostando em modelos de governação da saúde baseados na melhoria contínua da qualidade de garantia da segurança do doente… (Siga esta LIGAÇÃO para aceder ao documento de Proposta de Lei n.º 34/XIII.).

    Existe actualmente uma proposta de diálogo relativo à formulação do Artigo 5 desta proposta de lei, em que se define o ATO MÉDICO.

     
     
     

     
     
  • Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos em conversa

    Clique na seguinte ligação para para visualizar este vídeo do Instituto de Tecnologia Educativa – RTP (1975) A Escolinha de Arte de Cecília Menano – com Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos, que foi muito generosamente disponibilizado pelo Dr Daniel Sasportes (19 minutos). [Clique nesta ligação]

     


  • Programa IFCE no Ar, Radio Universitária

    Entrevista sobre o andamento do curso à distância “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”

    Entrevista gravada com a coordenadora do curso “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”, Professora Patrícia Holanda da Linha de História da Educação Comparada da UFC (Universidade Federal do Ceará), com o Doutor Luís Grijó dos Santos (filho de João dos Santos), e a coordenadora pedagógica do curso Professora Ana Cláudia Uchôa Araújo da Directoria da Educação à Distancia do IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará). A entrevista foi realizada pelo jornalista Hugo Bispo do Programa IFCE no Ar em 3 de Novembro de 2016.

    Para ouvir a gravação desta entrevista clique nesta ligação.

     


     

  • “Histórias de mulheres” é finalista da 58º edição do Prêmio Jabuti

     

    O livro "Histórias de mulheres: amor, violência e educação", organizado por Maria Juraci Maia Cavalcante, Patrícia Helena Carvalho Holanda e Zuleide Fernandes de Queiroz, é finalista na categoria "Educação e Pedagogia" da 58ª edição do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, considerado o mais importante prêmio do livro brasileiro.

    A obra, lançada em 2015 pelas Edições UFC, conta, entre outros, com artigos da Professora Patrícia Helena Carvalho Holanda e do Professor Pedro Parrot Morato “A Mulher e a Família à Luz do Referencial Santiano na Perspectiva Comparada Brasil-Portugal”, e da Dra Clara Castilho “A Mãe e a Escola como Promotores de Inclusão Social das Crianças com Necessidades Especiais na Abordagem de João dos Santos”.

    Maria Juraci Maia Cavalcante e Patrícia Helena Carvalho Holanda são professoras da Faculdade de Educação da UFC. A obra pode ser adquirida na Livraria da Universidade Federal do Ceará (área 1 do Centro de Humanidades – Av. da Universidade, 2683, Benfica).

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