Homenagem a João dos Santos 2013

Dra Maria Fernanda Goncalves Alexandre MEDIUMMaria Fernanda Gonçalves Alexandre
Psicóloga Clínica, Psicanalista da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da Associação Internacional de Psicanalistas
Junho 2013

Estávamos nos princípios dos anos setenta quando regressei de Paris, trazendo comigo a esperança e o entusiasmo de trabalhar em Portugal duma forma mais profunda e criativa, sentimentos que naturalmente foram ampliados pela experiência inesquecível da revolução de Abril e foi neste momento particular da minha vida que tive o grande privilégio de conhecer João dos Santos. Numa primeira fase seguia com atenção e curiosidade as suas conferências feitas na Saúde Escolar – onde então trabalhava – que tinham a particularidade de serem muito claras e nos tocarem internamente, devido à sua capacidade de metaforizar através de histórias simples e passageiras a complexidade dos afectos e a profundidade da teoria analítica. Mais tarde, pedi-lhe para assistir à sua supervisão que fazia às quartas-feiras, nas reuniões clínicas da equipa coordenada por Teresa Ferreira. Através da apresentação dum caso clínico podíamos contactar com a sua enorme sensibilidade para os pequenos detalhes da sessão, que condensavam aspectos importantes da vida psíquica do paciente ou da sua família, assim como aproximava-nos da dinâmica da relação transferencial entre a criança e o colega que estava a apresentar o caso. A sua capacidade empática em relação ao sofrimento dos jovens pacientes e o seu talento para figurabilizar, através de histórias, ajudava-nos a melhor compreender a dinâmica da relação psíquica dos pacientes e das suas famílias contribuindo para o desenvolvimento da nossa capacidade de rêverie.

Em 1981, quando entrei na formação psicanalítica na Sociedade Portuguesa de Psicanálise, tive o privilégio de ter João dos Santos como meu Professor. Tinha um enorme prestígio entre nós porque tinha sido um dos Fundadores da nossa Sociedade. Recordo-me dos Seminários das quintas-feiras, que eram antecedidos pelas nossas passagens pela Pastelaria “Ideal das Avenidas”, que ficava ao lado da Sociedade e onde ficávamos à conversa com João dos Santos, que tinha sempre muitas histórias para nos contar, até iniciarmos o nosso trabalho. Desse tempo lembro-me com nostalgia de alguns momentos que se revelaram importantes para a minha formação. Recordo-me duma daquelas manhã outonais de Lisboa, com um céu escuro e com uma chuva miudinha que nunca mais parava, descer, com receio de escorregar, a Travessa de Santa Quitéria a caminho da minha primeira aula de observação de bebés, com João dos Santos, no Centro de Saúde Sofia Abecassis. Essa aula foi inesquecível! Sentámo-nos à volta duma mesa redonda e João dos Santos pediu a uma enfermeira do Centro que trouxesse uma mãe com um bebé. Nós em silêncio seguíamos as observações que João dos Santos ia fazendo a propósito da dinâmica da relação do bebé com a mãe. Em determinada altura pede o guarda-chuva à mãe e com ele aberto esconde-se por detrás, de maneira que o bebé não o visse, para logo a seguir surpreendê-lo com o seu aparecimento. O bebé começa a procurá-lo e o reencontro é seguido de fortes gargalhadas. João dos Santos com esta sequência do jogo que era constituído por dois momentos, o seu desaparecimento e o seu retorno dava-nos uma lição sobre a consciência da permanência dos objectos internos. Também com este simples jogo lançava-nos uma ponte para introdução à leitura do livro de Freud (1920) Para Além do Princípio do Prazer.

João dos Santos tinha o dom, que os grandes Professores têm quando ensinam, que é de interrogar como se não soubessem e de responder com pequenas histórias que aparentemente parecem não ter ligação com a questão posta mas que metaforiza e nos mostrava a força do inconsciente. Tive também o privilégio de tê-lo como Professor no Seminário da Obra de Freud. Deu-nos a Neurose de Angústia, tema que vai retomar e aprofundar, através dum relatório, no Congresso de Psicanalistas de língua Francesa, em 1984.

Mas o meu contacto mais próximo e inesquecível foi, nos últimos cinco anos finais da sua vida, nas supervisões que tive com ele de crianças e de adolescentes. Apresentava-lhe as sessões e ele escutava com muita atenção e, aparentemente sem sabermos bem porquê, no final contava uma experiência pessoal que tinha tido com uma criança ou adolescente semelhante àquela que estávamos a apresentar. Essas histórias simbolizavam quase sempre os afectos que a dinâmica da relação de campo entre analista e paciente ressaltavam. Um dia levei-lhe um caso duma criança de seis anos que me trazia sérias dificuldades no estabelecimento do setting terapêutico. Metade da sessão teimava em sair da sala e ia abrir uma janela que dava para uma varanda. Essa situação, embora tivesse sido interpretada não teve efeitos dinâmicos e sobretudo desencadeava em mim uma grande inquietação por receio que ele caísse da varanda. João dos Santos, duma forma empática, percebeu as minhas apreensões e, mais uma vez, contou-me uma história que mostrava como é que ele estava em sintonia com o que eu estava a sentir. Conta-me então que em determinada altura, quando estava em Paris, ao fazer uma consulta com um rapazinho e ele fugira da sala e foi para cima do telhado. E acrescenta, com o humor que lhe era peculiar, que ele e Serge Lebovici andaram no telhado à procura do rapaz. Fez-se um silêncio entre nós. Com simplicidade assegurou-me que o rapaz que eu seguia poderia sair da sala mas que voltaria. João dos Santos tinha uma profunda compreensão e uma capacidade para empatizar e representar a qualidade da dinâmica da relação entre paciente e analista.

João dos Santos tinha as qualidades genuínas que encontramos nos grandes Mestres que nos ensinam, através de interrogações e de pequenas história, que nascem das grandes lições da vida feitas de experiencias psíquicas, culturais e cívicas. Estou grata por ter sido sua aluna!

 
 
 
 
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    Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos em conversa

    Clique na seguinte ligação para para visualizar este vídeo do Instituto de Tecnologia Educativa – RTP (1975) A Escolinha de Arte de Cecília Menano – com Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos, que foi muito generosamente disponibilizado pelo Dr Daniel Sasportes (19 minutos). [Clique nesta ligação]

     


  • Programa IFCE no Ar, Radio Universitária

    Entrevista sobre o andamento do curso à distância “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”

    Entrevista gravada com a coordenadora do curso “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”, Professora Patrícia Holanda da Linha de História da Educação Comparada da UFC (Universidade Federal do Ceará), com o Doutor Luís Grijó dos Santos (filho de João dos Santos), e a coordenadora pedagógica do curso Professora Ana Cláudia Uchôa Araújo da Directoria da Educação à Distancia do IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará). A entrevista foi realizada pelo jornalista Hugo Bispo do Programa IFCE no Ar em 3 de Novembro de 2016.

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