A CULTURA DA CRIANÇA

Professor Doutor Daniel Sampaio MEDIUMDaniel Sampaio*
Setembro 2013**

Comemora-se este ano o centenário de João dos Santos, psiquiatra, psicanalista e pedagogo (1913-1987). Foi o grande mestre da psiquiatria da infância e adolescência, tendo influenciado muitos técnicos de saúde e de educação, através da sua inteligência, saber e criatividade. Tive o privilégio de participar num seminário de observação de crianças e jovens que João dos Santos dirigiu, durante vários anos, no Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria. Aí aprendi a importância de saber ouvir a gente nova e os seus pais, antes de decidir projectos terapêuticos ou intervenções educativas intempestivas. Compreendi também que a relação com a criança e o adolescente é o caminho que nos conduzirá ao seu mundo interior, por isso o terapeuta tem de se “dar a conhecer” como pessoa, antes de determinar o que fazer com quem está à nossa frente.

É verdade que João dos Santos viveu numa época em que os conhecimentos neurobiológicos eram incipientes e as formulações teóricas sobre a doença mental muito especulativas. Tudo era explicado pelas perturbações da relação da infância ou pelas vicissitudes do desenvolvimento em famílias perturbadas: hoje sabe-se que há crianças com doenças “mesmo” biológicas, outras com temperamento difícil desde uma fase muito precoce da vida, outras ainda com disfunções de causa genética que as tornam particularmente vulneráveis. Assim, deveríamos ser agora capazes de ter uma visão mais aprofundada dos mecanismos geradores do mal-estar infantil e, se não tivermos uma visão dogmática, poderíamos dar uma resposta terapêutica integrada de melhor qualidade. No entanto, é também agora evidente o excesso de medicação em muitas situações, o provável exagero no diagnóstico de hiperactividade com défice de atenção e o recurso excessivo a institucionalização de crianças e jovens, em muitos casos sem o necessário trabalho prévio com as famílias de origem (existem cerca de 11.000 menores de 18 anos em regime de institucionalização), para não falar da escassez de técnicos com boa formação em saúde mental infanto-juvenil.

Os novos conhecimentos, todavia, deveriam tornar ainda mais conhecida a obra de João dos Santos. Porque poderemos conhecer bem o cérebro de alguém, mas se não nos relacionarmos com essa pessoa de modo intenso, pouco saberemos se vai ser honesto ou ladrão, ou desconheceremos como irá reagir em circunstâncias que o obriguem a fazer escolhas no plano moral.

Ao fundar com Manuela Ramalho Eanes o Instituto de Apoio à Criança (a que, aliás, queria apenas chamar Instituto da Criança), João dos Santos chamava a atenção para a necessidade de uma verdadeira cultura da criança. Tal significa que a criança não tem sempre razão (como vejo ser defendido por alguns pais permissivos), mas quer dizer que o respeito pelos mais novos deve constituir um pilar essencial da organização de uma sociedade. As crianças e os idosos, os mais vulneráveis, devem merecer todo o apoio, em todas as circunstâncias.

Saiu agora a público o meu novo livro Diário dos Tempos de Crise, uma selecção de textos publicados nesta revista. Embora sempre presente no meu pensamento, não está lá expressa, como deveria, a minha homenagem ao meu mestre João dos Santos, que agora aqui ofereço aos leitores.

 

 

 
 
*     Professor Doutor Daniel Sampaio
       Professor Catedrático de Psiquiatria e Saúde Mental da Faculdade de Medicina de Lisboa
**  Texto publicado na Revista 2 do Público, domingo, 15 Setembro 2013
 
 
 
 
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  • Proposta de Lei n.º 34 / XIII – Definição de ATO MÉDICO

    O XXI Governo Constitucional, no seu programa para a saúde, estabelece como prioridades aperfeiçoar a gestão dos recursos humanos e a motivação dos profissionais de saúde, apostando em novos modelos de cooperação entre profissionais de saúde, no que respeita à repartição de competências e responsabilidades e melhorar a qualidade dos cuidados de saúde, apostando em modelos de governação da saúde baseados na melhoria contínua da qualidade de garantia da segurança do doente… (Siga esta LIGAÇÃO para aceder ao documento de Proposta de Lei n.º 34/XIII.).

    Existe actualmente uma proposta de diálogo relativo à formulação do Artigo 5 desta proposta de lei, em que se define o ATO MÉDICO.

     
     
     

     
     
  • Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos em conversa

    Clique na seguinte ligação para para visualizar este vídeo do Instituto de Tecnologia Educativa – RTP (1975) A Escolinha de Arte de Cecília Menano – com Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos, que foi muito generosamente disponibilizado pelo Dr Daniel Sasportes (19 minutos). [Clique nesta ligação]

     


  • Programa IFCE no Ar, Radio Universitária

    Entrevista sobre o andamento do curso à distância “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”

    Entrevista gravada com a coordenadora do curso “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”, Professora Patrícia Holanda da Linha de História da Educação Comparada da UFC (Universidade Federal do Ceará), com o Doutor Luís Grijó dos Santos (filho de João dos Santos), e a coordenadora pedagógica do curso Professora Ana Cláudia Uchôa Araújo da Directoria da Educação à Distancia do IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará). A entrevista foi realizada pelo jornalista Hugo Bispo do Programa IFCE no Ar em 3 de Novembro de 2016.

    Para ouvir a gravação desta entrevista clique nesta ligação.

     


     

  • “Histórias de mulheres” é finalista da 58º edição do Prêmio Jabuti

     

    O livro "Histórias de mulheres: amor, violência e educação", organizado por Maria Juraci Maia Cavalcante, Patrícia Helena Carvalho Holanda e Zuleide Fernandes de Queiroz, é finalista na categoria "Educação e Pedagogia" da 58ª edição do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, considerado o mais importante prêmio do livro brasileiro.

    A obra, lançada em 2015 pelas Edições UFC, conta, entre outros, com artigos da Professora Patrícia Helena Carvalho Holanda e do Professor Pedro Parrot Morato “A Mulher e a Família à Luz do Referencial Santiano na Perspectiva Comparada Brasil-Portugal”, e da Dra Clara Castilho “A Mãe e a Escola como Promotores de Inclusão Social das Crianças com Necessidades Especiais na Abordagem de João dos Santos”.

    Maria Juraci Maia Cavalcante e Patrícia Helena Carvalho Holanda são professoras da Faculdade de Educação da UFC. A obra pode ser adquirida na Livraria da Universidade Federal do Ceará (área 1 do Centro de Humanidades – Av. da Universidade, 2683, Benfica).

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