No centenário de João dos Santos

Dra  Maria José Gonçalves SMALLMaria José Gonçalves
Psicanalista ( SPP ), Pedopsiquiatra
Abril de 2013

O meu contacto com João dos Santos aconteceu no final de 1973, quando comecei a trabalhar no Centro de Saúde Mental Infantil, a meca de todos os que se interessavam pela saúde mental das crianças. Mas muito antes, ele já tinha exercido sobre a minha vida uma influência duradoura. Quando, após ter terminado o Internato Geral, se me deparou a escolha de uma especialidade médica (Cardiologia?, Gastroenterologia?), um grupo de amigos muito voltados para a Psiquiatria e para a recentemente instalada em Portugal Psicanálise, entusiasmou-me com a ideia de poder beneficiar dos ensinamentos desse já renomado Psicanalista e Psiquiatra João dos Santos, à volta do qual se gerou grande entusiasmo e expectativa sobre novas formas de abordar a doença mental na criança e que eu já tinha encontrado ocasionalmente.

Também por razões pessoais, acabei por seguir esse caminho e fiz a minha formação em pedopsiquiatria com J.Ajuriaguerra (influência de João dos Santos com quem me aconselhei) e René Diatkine.

Desde o meu regresso a Lisboa até ao seu falecimento em 1987, mantive sempre com ele um contacto estreito, quer em termos pessoais, manifestando-me sempre o seu afecto e apoio, quer em termos profissionais, estando sempre presente nesse meu percurso.

No contacto pessoal era uma pessoa encantadora, alegre, apreciadora da vida e dos seus prazeres, óptimo contador de histórias, com que entretinha os seus convivas horas a fio, em tardes na sua casa de Sesimbra, na sua quinta de Sintra ou em casa de um ou outro de cada um de nós, que constituíamos o seu círculo de colaboradores e simultaneamente amigos, como a quinta da Penha Verde em Sintra, de Rodrigo Rau e de Teresa Ferreira.

Do ponto de vista profissional foi um privilégio trabalhar com ele. Tinha um rigor, entusiasmo e determinação nos seus objectivos, dos quais destaco a promoção da saúde mental da criança e a pedagogia terapêutica, à qual era impossível resistir.

Retirei muitos ensinamentos do contacto com João dos Santos que, ainda hoje, sem me dar conta, me norteiam.

No C.S.M.I.L aprendi que para tratar crianças em sofrimento era imperativo “des-medicalizar” a minha intervenção. Não era a receita médica que salvava crianças, era a Escuta.

Aprendi ainda que para haver saúde mental, o saber tem de ser “des-hierarquizado”, que todos os membros de uma equipa de saúde mental, qualquer que seja a sua especificidade, devem partilhar uma base comum de conhecimentos e aceitar pôr à discussão o seu trabalho clínico.

J. Santos era um clínico de excepção. A sua capacidade de observação e comunicação com os pacientes adultos e crianças era assombrosa, bem como o respeito que mostrava pelas pessoas que entrevistava e as suas reuniões clínicas eram muitíssimo participadas.

Convidou-me para sua assistente na Faculdade de Psicologia e das Ciências de Educação na Universidade de Lisboa, onde leccionámos durante 4 anos (1978-1982) as cadeiras de Psicopatologia Dinâmica da Criança e do Adolescente e do Adulto. Foi uma experiência rica e muito divertida. João dos Santos gostava do contacto com os estudantes e estava no seu elemento, a dar as aulas práticas (por sua opção, enquanto eu dava a teoria), com entrevistas presenciais, o que entusiasmava os alunos pelo ineditismo do modelo e pela forma como expunha as suas ideias. Adoravam-se mutuamente!

João dos Santos foi um dos introdutores da Psicanálise em Portugal e um dos fundadores do Grupo de Estudos Português de Psicanálise. Vindo de Paris nos anos 60, onde tinha convivido com psicanalistas franceses de alta craveira, como René Diatkine, Serge Lebovici, Michel Soulé, Pierre Luquet, tendo sido este última presença assídua na formação da SPP, participava activamente nas reuniões e nas discussões da SPP. Seu membro didacta, pertencia à Comissão de Ensino e empenhava-se na formação dos candidatos, sobretudo através das supervisões. Foi meu supervisor durante largos anos, como o foi de muitos dos actuais psicanalistas, e ainda hoje recorro, na minha memória, aos seus ensinamentos. Teve sempre uma atitude compreensiva com as minhas inseguranças e estimulante com o meu trabalho.

Também lhe devo o estímulo para a criação da UPI, unidade de tratamento psicológico de bebés e suas famílias, em 1983, e que de algum modo foi consequência do I congresso Mundial de Psiquiatria do Bebé que se realizou no Estoril em 1980 e do qual foi o Presidente do Comité Local e para o qual me convidou. Foi um trabalho difícil, mas muito estimulante que nos permitiu contactar com figuras maiores da Psicanálise na área da infância e adolescência, do outro lado do Atlântico (Margaret Mahler, Erik Erikson, James Anthony, Eleanor Galenson, etc.).

Ao escrever estas linhas, tomo consciência de que tive oportunidade de beneficiar do contacto com João dos Santos em actividades muito diversificadas e posso dizer que com ele aprendi muito do que hoje caracteriza a minha prática clínica, mas que sobretudo, com João dos Santos, aprendi a SER.

Por isso e pela sua amizade, estou-lhe para sempre grata.

Maria José Gonçalves

Lisboa, 7 de Abril de 2013

 
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  • Proposta de Lei n.º 34 / XIII – Definição de ATO MÉDICO

    O XXI Governo Constitucional, no seu programa para a saúde, estabelece como prioridades aperfeiçoar a gestão dos recursos humanos e a motivação dos profissionais de saúde, apostando em novos modelos de cooperação entre profissionais de saúde, no que respeita à repartição de competências e responsabilidades e melhorar a qualidade dos cuidados de saúde, apostando em modelos de governação da saúde baseados na melhoria contínua da qualidade de garantia da segurança do doente… (Siga esta LIGAÇÃO para aceder ao documento de Proposta de Lei n.º 34/XIII.).

    Existe actualmente uma proposta de diálogo relativo à formulação do Artigo 5 desta proposta de lei, em que se define o ATO MÉDICO.

     
     
     

     
     
  • Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos em conversa

    Clique na seguinte ligação para para visualizar este vídeo do Instituto de Tecnologia Educativa – RTP (1975) A Escolinha de Arte de Cecília Menano – com Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos, que foi muito generosamente disponibilizado pelo Dr Daniel Sasportes (19 minutos). [Clique nesta ligação]

     


  • Programa IFCE no Ar, Radio Universitária

    Entrevista sobre o andamento do curso à distância “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”

    Entrevista gravada com a coordenadora do curso “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”, Professora Patrícia Holanda da Linha de História da Educação Comparada da UFC (Universidade Federal do Ceará), com o Doutor Luís Grijó dos Santos (filho de João dos Santos), e a coordenadora pedagógica do curso Professora Ana Cláudia Uchôa Araújo da Directoria da Educação à Distancia do IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará). A entrevista foi realizada pelo jornalista Hugo Bispo do Programa IFCE no Ar em 3 de Novembro de 2016.

    Para ouvir a gravação desta entrevista clique nesta ligação.

     


     

  • “Histórias de mulheres” é finalista da 58º edição do Prêmio Jabuti

     

    O livro "Histórias de mulheres: amor, violência e educação", organizado por Maria Juraci Maia Cavalcante, Patrícia Helena Carvalho Holanda e Zuleide Fernandes de Queiroz, é finalista na categoria "Educação e Pedagogia" da 58ª edição do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, considerado o mais importante prêmio do livro brasileiro.

    A obra, lançada em 2015 pelas Edições UFC, conta, entre outros, com artigos da Professora Patrícia Helena Carvalho Holanda e do Professor Pedro Parrot Morato “A Mulher e a Família à Luz do Referencial Santiano na Perspectiva Comparada Brasil-Portugal”, e da Dra Clara Castilho “A Mãe e a Escola como Promotores de Inclusão Social das Crianças com Necessidades Especiais na Abordagem de João dos Santos”.

    Maria Juraci Maia Cavalcante e Patrícia Helena Carvalho Holanda são professoras da Faculdade de Educação da UFC. A obra pode ser adquirida na Livraria da Universidade Federal do Ceará (área 1 do Centro de Humanidades – Av. da Universidade, 2683, Benfica).

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