Amar a criança ainda antes de ela ser criança

Gloria Marreiros MEDIUMGlória Maria Marreiros*
Maio de 2013

Foi na primeira metade dos anos 50 do Séc. passado que a Drª Maria Amália Borges teve a feliz ideia de me apresentar ao Dr. João dos Santos. Acabara recentemente de terminar o curso de parteira na Faculdade de Medicina de Coimbra e estava em Lisboa a trabalhar na Maternidade Alfredo da Costa. Desabafara a minha desilusão em relação a algumas práticas do foro da Saúde Mental aplicadas a crianças e adolescentes no Hospital Psiquiátrico Sobral Cid onde estagiara como aluna de enfermagem psiquiátrica, carreira que não quis seguir. Falou-me aquela minha amiga, com entusiasmo das ideias avançadas do Dr. João dos Santos chegado havia pouco de Paris.

Foi o primeiro passo para o conhecimento que fiz com essa personalidade ímpar de quem, por sorte minha, fui colaboradora, amiga e consequentemente admiradora. Fui aluna também porque seria impossível lidar de perto com o Mestre mais discreto e eficiente que conheci, sem reconhecer que todos os dias com ele aprendíamos.

Como sua secretária, inexperiente nessa área, aprendi a ser metódica; como enfermeira dos seus doentes privados aprendi a ser discreta e paciente com as eventuais excentricidades destes. Enquanto me licenciava em Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa, ensinou-me, em conversas informais, a olhar de forma diferente as teorias Freudianas e a desbravar a originalidade de Wittgenstein. Como mãe devo-lhe ter-me ajudado a compreender os altos e baixos da minha filha, a entrar na adolescência, com um pai ausente.

Sempre a aprender a ler o mundo à minha volta, acompanhei desde a ante primeira hora, a equipa que fundou o Centro Infantil Helen Keller constituída pelo oftalmologista Dr. Henrique Moutinho, a pedagoga entusiasta do método Freinet, Drª Maria Amália Borges e por ele, Dr. João dos Santos, mentor, por excelência, do grupo, no que respeita a psicopedagogia.

Quando por motivos, alheios à minha vontade, tive que abandonar a escola Helen Keller, mantive as relações de amizade com a equipa pelo que, em 1960, ao desejar publicar o livro Maternidade – para orientação da Futura Mãe, pedi ao Dr. João dos Santos que me desse a sua opinião. Depois de ler, fez as melhores referências mas… no seu geito próprio, sugeriu-me que não incluísse o capítulo relativo às patologias da gravidez explicando-me o porquê da sugestão que, de imediato, aceitei. Retirei cerca de 20 páginas.

Se refiro o episódio anterior é porque no prefácio da obra citada, o Dr. João dos Santos teve a amabilidade e a generosidade de referir como mérito meu o que só a ele, à sua sensibilidade e saber se deve. Depois do que relatei e fazendo justiça, aqui se transcrevem as suas palavras:

O livro de Glória Maria Marreiros parece-nos poder ser incluido na categoria de escritos de acção cultural que podem ajudar os leitores a pensar sem lhes levantar grandes problemas emocionais. Conscientemente a autora evitou divulgar os aspectos patológicos da maternidade, pois esses só os médicos na sua acção directa podem resolver.

Voltemos agora aos primeiros tempos da minha colaboração com o Dr. João dos Santos. Falei-lhe com entusiasmo do curso de preparação para o parto pelo método psicoprofiláctico que frequentara sob a direcção do Dr. Pedro Monjardino no Hospital do Ultramar, hoje Hospital Egas Moniz.

Para encanto meu, o Dr. João dos Santos era profundamente conhecedor da base teórica do método aplicado no chamado parto sem dor, a partir do reflexo condicionado de Pavlov. Conhecera em Paris o entusiasmo que rodeava o Dr. Lamase que trouxera o método da União Soviética e o aplicara. Estivera com o Dr. Pierre Vellay colaborador e continuador do Dr. Lamase após a morte deste.

Entre nós os dois primeiros médicos psiquiatras que se interessaram pelo parto pelo método psicoprofiláctico foram o Dr. Seabra Dinis e o Dr. João dos Santos. Na sua obra Parto Sem Dor e Psicoterapia, João dos Santos, além de salientar os benefícios para a parturiente, fá-lo também em relação às vantagens para o bebé e revela uma série de regras para o bom sucesso do método porque como diz: o modelo de comportamento é essencial em toda a acção psicoterápica.

Deixei intencionalmente para o fim esta especial e grata recordação do Dr. João dos Santos, e que motivou o título deste modesto testemunho de admiração pelo Mestre que mais influenciou a minha postura na sociedade como Pessoa de corpo inteiro e que, desde cedo e sempre, se preocupou com o bem-estar e o são desenvolvimento da criança, mesmo ainda antes de ela ter nascido.

Maio de 2013, Glória Maria Marreiros

*Enfermeira e Licenciada em Filosofia

 
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  • Proposta de Lei n.º 34 / XIII – Definição de ATO MÉDICO

    O XXI Governo Constitucional, no seu programa para a saúde, estabelece como prioridades aperfeiçoar a gestão dos recursos humanos e a motivação dos profissionais de saúde, apostando em novos modelos de cooperação entre profissionais de saúde, no que respeita à repartição de competências e responsabilidades e melhorar a qualidade dos cuidados de saúde, apostando em modelos de governação da saúde baseados na melhoria contínua da qualidade de garantia da segurança do doente… (Siga esta LIGAÇÃO para aceder ao documento de Proposta de Lei n.º 34/XIII.).

    Existe actualmente uma proposta de diálogo relativo à formulação do Artigo 5 desta proposta de lei, em que se define o ATO MÉDICO.

     
     
     

     
     
  • Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos em conversa

    Clique na seguinte ligação para para visualizar este vídeo do Instituto de Tecnologia Educativa – RTP (1975) A Escolinha de Arte de Cecília Menano – com Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos, que foi muito generosamente disponibilizado pelo Dr Daniel Sasportes (19 minutos). [Clique nesta ligação]

     


  • Programa IFCE no Ar, Radio Universitária

    Entrevista sobre o andamento do curso à distância “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”

    Entrevista gravada com a coordenadora do curso “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”, Professora Patrícia Holanda da Linha de História da Educação Comparada da UFC (Universidade Federal do Ceará), com o Doutor Luís Grijó dos Santos (filho de João dos Santos), e a coordenadora pedagógica do curso Professora Ana Cláudia Uchôa Araújo da Directoria da Educação à Distancia do IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará). A entrevista foi realizada pelo jornalista Hugo Bispo do Programa IFCE no Ar em 3 de Novembro de 2016.

    Para ouvir a gravação desta entrevista clique nesta ligação.

     


     

  • “Histórias de mulheres” é finalista da 58º edição do Prêmio Jabuti

     

    O livro "Histórias de mulheres: amor, violência e educação", organizado por Maria Juraci Maia Cavalcante, Patrícia Helena Carvalho Holanda e Zuleide Fernandes de Queiroz, é finalista na categoria "Educação e Pedagogia" da 58ª edição do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, considerado o mais importante prêmio do livro brasileiro.

    A obra, lançada em 2015 pelas Edições UFC, conta, entre outros, com artigos da Professora Patrícia Helena Carvalho Holanda e do Professor Pedro Parrot Morato “A Mulher e a Família à Luz do Referencial Santiano na Perspectiva Comparada Brasil-Portugal”, e da Dra Clara Castilho “A Mãe e a Escola como Promotores de Inclusão Social das Crianças com Necessidades Especiais na Abordagem de João dos Santos”.

    Maria Juraci Maia Cavalcante e Patrícia Helena Carvalho Holanda são professoras da Faculdade de Educação da UFC. A obra pode ser adquirida na Livraria da Universidade Federal do Ceará (área 1 do Centro de Humanidades – Av. da Universidade, 2683, Benfica).

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