João dos Santos: O milagre do mundo a acontecer…

Teresa VasconcelosProfessora Coordenadora Principal (aposentada)Escola Superior de Educação de LisboaAbril de 2013  Os adultos podem desprezar, detestar, amar ou venerar acriança, mas a nenhum adulto a criança pode ser indiferente.Não se pode ser indiferente nem à própria infância, nem àinfância dos outros. O segredo do homem é a própria infância.(João dos Santos)  Podem acontecer, e então a música
decerto estará lá.
as palavras surgirão então, o sol, o girassol, a luz
que gira em torno do eixo feito de outra luz.
Poderia ser Deus, ou paz.
Sentir. E de repente o mundo acontecer,
o milagre do mundo a acontecer(Ana Luísa Amaral) 

Na celebração dos 100 anos de um Mestre que foi meu proponho-me elaborar sobre o texto acima transcrito – O segredo do homem é a própria infância –, tecendo-o com fragmentos de um poema de Ana Luísa Amaral de que gosto especialmente. Que me perdoe o mestre pedagogo e a poeta se tomo demasiadas liberdades “literário-pedagógicas.” Mas as metáforas de um poema são as que melhor podem ilustrar o que quero dizer sobre o “Poema Vivo” que foi João dos Santos. Para iniciar, relembro as palavras de Sérgio Niza sobre o sentido da palavra mestre: “Mestres, são os discípulos que os nomeiam” (comunicação na ESELx, Fevereiro 2013). Deste modo, eis-me a explicar porque João dos Santos é um Pedagogo-Mestre com quem volto a estabelecer um diálogo muito pessoal nestas linhas:

(…) A nenhum adulto a criança pode ser indiferente.

Tem razão, caro João dos Santos, nunca podemos ser indiferentes a uma criança. Porque ela está ali, a olhar para nós, exigindo-nos atenção, respeito e escuta profunda, como tão bem fez na sua prática de psicanalista e de pedagogo descrita, entre outros, nos “Ensaios sobre Educação” e em “A Casa da Praia.” Relembro o título de um desses ensaios: “A Criança, quem é?”, ensaio esse que inspiraria qualquer um dos sociólogos da infância, muito antes de se ter reconhecido a sociologia da infância como ciência. Eis uma primeira área em que foi percursor.

Poderia ser Deus. Ou paz. Sentir.

Sentir-me a mim própria. Analisar-me. Refletir sobre a minha história e sobre a história da minha infância, — para poder ser educadora, pedagoga, formadora de outros educadores, investigadora das “coisas” da infância: um ser humano que se interroga e que interroga a criança. Nessa paz interior de uma “viagem” revisitada honestamente e com o possível rigor – será que existe por completo, esse rigor? – poderei dançar então a dança da vida com as crianças: as nossas alegrias e tristezas, as nossas feridas e respetiva integração em quem somos hoje. Pessoalmente tenho procurado ensinar-lhes algo que foi decisivo na minha própria infância e juventude: a resiliência, essa maravilhosa capacidade de, tal como “cana agitada pelo vento,” me tornar flexível para não quebrar, balançando-me no movimento de ventos e tempestades. Ajudar a criar na criança condições e competências de resiliência, isto é: força física, mental e espiritual; o usufruto das artes enquanto linguagens da cultura mas, também, de reparação; a interdependência com aqueles em quem confiamos… É nesse transcender de mim própria, olhando para a frente e, simultaneamente, para a maravilha de estar viva, que posso colocar “andaimes” para que a criança que trago pela mão reganhe essa mesma confiança. Assim, com o mestre que, também, foi percursor deste conceito de resiliência, reafirmo esta ser parte da minha filosofia enquanto profissional ligada à educação de infância.

Não se pode ser indiferente nem à própria infância nem à infância dos outros

Revisitar a nossa infância para poder visitar a dos outros. Ajudar as crianças a nomear o que se passa dentro de si próprias, para as poder abordar com um imenso respeito e cuidado desvelado. Lembra-se quando falava nos perigos da pré-escolarização do jardim de infância? Afirmava então: O Verde é Teu, Respeita-o! Interpelava-nos, já em 1983: ”aos que agora estão em vias de lançar o ensino pré-primário a partir dos instrumentos que se tornarão repressivos; de salas, mesas e cadeiras, papel e lápis, a promover um terrível estatismo massacrante, eu diria: acordem em vós a criança que lá existe e respeitem-na!” (in: Ensaios sobre Educação II). Mestre, como sempre, antecipou-se… se pudesse ver o que se passa hoje, depois de termos investido tanto numa educação de infância de qualidade para todos! Posso contar-lhe uma coisa? Há dias telefonou-me uma educadora, a exercer num jardim de infância num agrupamento público de escolas, a quem a diretora tinha exigido (assim mesmo, textual!) que elaborasse uma avaliação quantitativa de cada criança na base da escala de 1 a 5 (!!!). Caro João dos Santos: como o feitiço se volta contra o feiticeiro… como tinha razão em nos mandar respeitar o verde!

As palavras surgirão então, o sol, o girassol

As suas palavras inspiraram durante muitos anos os meus alunos/as da Escola Superior de Educação de Lisboa. Enquanto futuros educadores/as de infância ou professores do 1º e 2º ciclo, todos eles estudavam a sua obra como pedagogo e a denominada “pedagogia terapêutica.” Eles aderiam a esta proposta de alma e coração: sabe porquê? Pela identificação profunda que sentiam com o seu pensamento à medida que se preparam para se tornarem no educador/professor que desejariam ser. Essa experiência de estudo — qual “girassol orientando-se para o sol” –, terá tido um papel “fundador” que orientará a sua vida para sempre: a atenção às crianças, a cada criança individualmente, ao seu sofrimento, às suas questões e formulações, à descoberta do papel que um/a educador/a atento e disponível pode ter nas suas vidas ou na vida daquela criança em particular que os preocupa.

[Os adultos podem desprezar, detestar, amar ou venerar a criança, mas] “não tenham medo de frustrar as crianças!”

Professor João dos Santos, como soube intuir os tempos que aí vinham!… Tempos da criança ao centro qual “principezinho” entronado e tirano, imaginando que o mundo todo gira em volta de si: a criança (tão condicionada ela está…) que precisa de “ter” e não de ser, um “reizito” engordado à força de comida cheia de químicos e de açúcares ou, mesmo, engordado à força de tantos objetos e coisas que mal lhe dão tempo e espaço para olhar para si própria em interação com os outros… Tenho vindo a falar e a escrever sobre esta questão: com o “colonialismo anglo-americano” da “child centered education” – espero que esta formulação não o choque… -, que fizemos dos outros prováveis “centros” do processo educativo? As famílias, os irmãos, os amigos e colegas de escola, os/as profissionais que cuidam das crianças e promovem a sua educação? Não será a infância tecida numa rede de interações em que a criança é central mas não o centro? Como o senhor se antecipou também a esta verdadeira doença do século XXI… – em que curva da história deixámos a perspetiva de educação transformadora de Paulo Freire?

A luz que gira em torno do eixo feito de outra luz

Caro Mestre, o senhor foi uma das figuras fundadoras da minha vida e da minha “profissionalidade.” Relembro as colunas que ia publicando no saudoso “Jornal da Educação” – no tempo em que refletir sobre educação justificava uma edição semanal de um jornal de enorme qualidade, conduzido pelo também saudoso Afonso Praça. Esperávamos sofregamente a saída do jornal para nos apropriarmos do sentido que emprestava às suas crónicas. Enquanto jovem profissional sentia-me “iluminada” pelas palavras que ia escrevendo; como a minha prática e o meu modo de olhar a criança girava em torno do seu eixo inspirador! Estive consigo face a face numa formação para as primeiras educadoras de infância da rede pública. Dizia-nos então: “Antes de sentarem as crianças em mesas e cadeiras e lhes darem papel e lápis para a mão (ou marcadores… ou lápis de cera, pincéis…), sentem-se com elas no chão. Conversem com elas, ouçam-nas, tentem entender o mundo que está por trás de cada criança”, ouçam os seus pontos de vista sobre o mundo (como diria hoje Jerome Bruner). “A partir daí é possível provocar o seu desenvolvimento e entrar, com elas, num processo educativo”.

O milagre da vida a acontecer

Educar com autenticidade, “a partir de dentro.” Obrigada, João dos Santos, por este “raro e luminoso momento” que foi a sua vida entre nós (Graça Vilhena, in: Cadernos de Educação de Infância). O milagre da uma vida – 100 anos! – continua a acontecer apesar de o Mestre já não estar entre nós. Ou está?… Acredito que o seu exemplo fundador e a obra escrita que deixou nos continuam a ajudar a ser vigilantes, educadores vigilantes “em tempos sombrios” (H. Arendt). Acredito, com Rilke, que “a morte é apenas o lado da vida que não iluminamos” e, por isso, o “raro e luminoso momento” permanece, estendendo-se, renovando-se, reconstruindo-se… por nós e entre nós!

Perdoe-se o excesso de metáforas, mas sei que me entenderia, meu saudoso João dos Santos, pelo que deposito nas suas mãos, qual girassol, este poema final:Essa pequenina luz bruxuleanteLuz que […] brilhaNão na distânciaAquiNo meio de nósBrilha.(Jorge de Sena)

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