No centenário de João dos Santos: como se cria um mestre*

Sérgio Niza Psicopedagogo, Professor Universitário Julho de 2013*

Não há mestres sem que os discípulos os tenham instituído e nomeado. Ser mestre depende da emergência de um discípulo que o idealize, identifique e mantenha como seu mestre.

Oferecer-se como mestre não satisfaz a condição de ser aceite como tal. Essa surpreendente dádiva do discípulo que declara o mestre e reconhecendo-o o cria, acontece porque o cria para si.

Tal acontecimento não decorre de uma certificação institucional. Os mestres não se formam em instituições concebidas para o efeito. O seu estatuto não decorre do exercício técnico de uma profissão especialmente certificada como a de professor, médico ou psicólogo. O seu poder advém-lhe do outro e depende de condições particulares de relacionamento e intermediação. No dizer de António Nóvoa podemos apresentar-nos como professores, ou universitários, ou cientistas. Mas mestre é qualidade que apenas os outros nos podem atribuir.

Se é pela determinação de quem se torna discípulo que o mestre acontece, é pela generosa solicitude do mestre que esse encontro se pode tornar libertador.

João dos Santos, ao situar a origem dessa atribuição na natureza especial do encontro, evoca as condições de disponibilidade e de intersubjetividade que se impõem:

(…) mestres são os que acreditam no valor da relação humana, no florescer das ideias que são mito, e que sabem viver na floresta do conhecimento (…). Os mestres são modelos, modelos de disponibilidade. Ser ou estar disponível é ter uma vida interior que se organiza em termos de deixar espaço para a sensibilidade e para a sabedoria dos outros. O encontro não é só obra do acaso, é também obra da disponibilidade recíproca daqueles que se encontram. O encontro depende da convicção do que de perene existe nos nossos semelhantes (Santos, 1983, p. 267).

Sei hoje como a incitação inspiradora dos discípulos ao ocupar o espaço de acolhimento que os mestres lhes reservam imprime força mútua e torna cativante o caminho árduo mas entusiástico que esse encontro suscita.

Vem isto a propósito do meu mestre João dos Santos quando decorrem cem anos do seu nascimento. Dizia ele: “os meus mestres encontrei-os na vida e alguns na escola, porque eram meus mestres, são meus amigos” (Santos, 1983, p. 266).

É com a alegria do nosso privilegiado encontro que procuro evocar alguns suportes duradouros que a ele devo, para melhor compreender a vida e o devir do mundo. [Ler artigo completo na Revista do Movimento da Escola Moderna] * Artigo publicado na Revista do Movimento da Escola Moderna, No1, 6a Série, 2013

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