Comentário à apresentação do Livro “Hiperativos – Psicomotricidade Relacional com crianças Hiperativas” de João Costa, 2017

Comentário à apresentação do Livro “Hiperativos – Psicomotricidade Relacional com crianças Hiperativas” de João Costa, 2017

Vera Oliveira – Psicomotricista

Vera Oliveira, psicomotricista
22 de Novembro de 2017

Sou leitora do João desde 2001, quando nos conhecemos pela 1ª vez… era eu estagiária na Clínica do Parque… sob sua orientação. Ler é muito mais do que o ato de juntar letras em palavras e palavras em frases. “Ler” vem do latim “lego” que significa reunir, colher, juntar peças… criar… Naquela altura o João, embora ainda não o tivesse passado para o papel, já punha em prática com os meninos (alguns agitados) do parque, que tinham entre outras coisas, muitas dificuldades em aprender… já punha em prática que para fazê-los ler tinham muito mais do que saber juntar letras em palavras e palavras em frases. Tinham sobretudo que sentir – sentir o movimento, os materiais (os poucos que existiam na sala de psicomotricidade do parque naquela atura), sentir o outro! – era o impacto… as sensações… acompanhadas com emoções e afectos que precisavam, para serem capazes de produzir sentimentos. E que seria essa sensorialidade, neste livro designada “sensorialidade afectiva” que, dando lugar às memórias afectivas (como descreve António Damásio) fariam a criança reter alguma coisa, e progressivamente aprender coisas sobre alguma coisa.

Como eu tenho Lido (sem papel) o João desde 2001, o que eu vou tentar fazer é, com base neste seu livro… uma espécie de lista resumida das razões pelas quais eu Leio o João Costa.

A 1ª é a seguinte: O João toma posição! E não tem medo de tomar posição –  não toma posiçõezinhas, toma posições… com estardalhaço!

A posição que ele tem sobre a psicomotricidade é muito clara – é clínica! Não é pedagógica… não é recreativa – é clínica.

Outra posição que ele tem, é sobre a “atitude do terapeuta” – como “estabelece a relação com a criança, como lida com o seu próprio corpo, como lida com o toque corporal e com a proxémia”. Incentiva por isso o trabalho direcionado para o terapeuta, como condição para um bom trabalho com a criança. Mas como não basta dizer, e é preciso fazer… o João tem levado a várias partes do país, o trabalho direto de Formação Pessoal do Psicomotricista.

Com a mesma preocupação, e sem medos, tem criticado currículos e planos de estudo das Universidades com quem colabora (e até podia ter medo.. sob receio de não voltar a ser convidado). Mas ele é um Homem de peito feito – oferece opções justificadas sobre como preparar o Psicomotricista para uma relação de ajuda. Para uma “escuta ativa da criança”, para a leitura correta da sua psicopatologia. E neste aspeto tem sido um notável contributo na formação profissional de centenas de Psicomotricistas portugueses. Com um único propósito: continuar a “respeitar a dignidade da criança”.

Tem o cuidado de “não menosprezar outras áreas científicas, outras ideias, orientações e profissionais” – valores que aprendeu, como refere neste livro, com Margarida Mendo, não é por isso que deixa de questionar também o uso intempestivo da medicação: “Será que evoluímos para uma sociedade falhada, porque tivemos de drogar as crianças para as poder educar?” – pergunta.

“Quem Não sabe ensina… Quem sabe, faz!” – parafraseando o dramaturgo  G. Bernard Shaw. O João reconhece que a atividade é o caminho para o conhecimento e portanto… Cria! Esta é a 2ª razão pela qual eu Leio o João Costa:

Criou uma prática, que designou de: “Psicomotricidade Relacional de âmbito Clínico”. Vem fundamentada no seu livro: “Um olhar para a criança” e agora, neste, enquadra-a no trabalho com as crianças hiperativas. Esta prática é resultante da sua carreira, em ambiente clínico e hospitalar, na área da saúde mental infanto-juvenil e em estudo e colaboração estreita, como refere, com outros colegas, como Pedro Onofre e sob a influência de João dos Santos, Margarida Mendo, Coimbra de Matos e Maria José Vidigal – figuras que ao longo do livro enaltece.

Há pouco mais de um ano, um neurocientista Português – Rui Costa foi galardoado na Holanda por ter provado que os circuitos neuronais que interferem na aprendizagem, na reflexão e na atividade intelectual, são os mesmos responsáveis pela coordenação motora e estruturação espaço-temporal. Enquanto isto, em Portugal, um Psicomotricista chamado João Costa, punha em prática (há uns anos valentes) a criança a movimentar-se, para estruturar o pensamento.

Conhecedor do “movimento como elaborador do pensamento” – influenciado por Henri Wallon, e partindo do pressuposto fenomenológico de Merleau Pontyde que “a criança tem conhecimento do mundo através do seu corpo”, o João alerta com este método que “este movimento, porém, deve ser um movimento espontâneo, dirigido por uma carga de intencionalidade, onde a criança tem que estar envolvida relacional e afetivamente” – não tivesse recebido ele a influência da Pedagogia Terapêutica de João dos Santos (percursor da psicomotricidade em Portugal)com quem aprendeu que “para ajudar uma criança é preciso antes de mais compreendê-la, isto é, relacionar-se com ela”. E avança… “Só acompanhadas com emoções e afectos, as sensações sensoriais produzem sentimentos. Se a sensorialidade não transportar em si o afecto, a aprendizagem fica memorizada mas sem identificação afectiva, portanto não terá grande utilidade”.

A 3ª razão pela qual eu leio o João é porque ele não é nada poupadinho no papel, e também não sabe fazer negócio:

Quando li pela primeira vez este livro, ainda em processo de edição, disse-lhe que o que aqui tinha dava pelo menos para 3 ou 4 livros… ao que o João me respondeu absolutamente nada, encolhendo os ombros. E o que é que fez a seguir? Cortou mais de 100 páginas… mas manteve tudo!

Baseado nas neurociências, e conhecedor de que a criança “para aprender também precisa de refletir e portanto, de um apaziguamento do movimento”, o João expõe neste livro uma nova abordagem de alcançar a descontração, especificamente adaptada a crianças que têm dificuldade em relaxar pelos métodos tradicionais, como é o caso da criança hiperativa. O procedimento parece demasiado simples… evoca-se a consciência da passagem do tempo… Fará parte de uma das razões pelas quais as crianças aderem com tanta facilidade a este método? Pergunto-me porque o confirmei. Assisti progressivamente à “emergência da passividade; o seu corpo relaxa, o limiar tónico baixa e a criança liberta-se de uma parte da sua tensão. Consegue-se finalmente promover o mapeamento cerebral em relação ao estado tónico-emocional. “Quando o corpo relaxa a mente descansa”, como refere o autor.

Na mesma linha de “fazedor” de coisas. O João apresenta neste livro um Método de Observação próprio, não intrusivo, que permite ao Psicomotricista atender aos sinais importantes da criança, sem submetê-la aos habituais constrangimentos de uma avaliação. Desse método faz parte uma  “Grelha de Observação Psicomotora” Embora esta grelha só agora seja formalmente publicada, já tem vindo a ser amplamente utilizada por vários Psicomotricistas, quer em trabalho clínico, quer em trabalhos académicos e de investigação. Esta é outra das características do João… não é ganancioso… oferece materiais, como se estivesse a oferecer copos de água.

O autor propõe a utilização desta grelha enquadrada no “ambiente não inquiridor, não medidor de conhecimentos, mantendo a atitude de interesse mútuo, empatia e sintonia afectiva”, que diz necessária para a “solidificação de uma boa aliança terapêutica”.

A grelha permite inventariar, entre outras coisas: fatores psicomotores e capacidades de ser e de agir num contexto. A qualidade espontânea dos seus gestos, da linguagem, do jogo simbólico, a imagem corporal. Dimensões não verbais da comunicação, como o olhar, o tónus… A qualidade da relação com o terapeuta e com os colegas, (comportamentos de oposição, dificuldades em lidar com a frustração, cooperação, espírito de iniciativa ). E até com os pais ou prestadores de cuidados, prestando atenção às dificuldades de separação, dependência, assim como a posição de submissão ou de liderança. Os aspetos somáticos, o investimento na imagem e na higiene, a amplitude dos movimentos, o planeamento motor, o controlo respiratório, a agitação motora, os tremores ou os tiques, são também fatores que não deixa de reparar.

Depois disto tudo, ainda neste livro, descreve um método – o MAALE, desta vez para facilitar o processo da leitura e da escrita, resultante do seu trabalho ao longo dos anos com crianças que apresentam dificuldades nestas áreas – muito interessante… e não só com aplicabilidade em crianças hiperativas, mas também para outras, nomeadamente nas Perturbações do Espectro do Autismo.

A parte menos interessante do livro é o capítulo da conceptualização da PHDA [i]. Mas até este é investido pelo autor com uma responsabilidade e rigor que até hoje não assisti noutros livros sobre o mesmo tema: caracteriza a doença com base nos principais manuais, caracteriza a criança e descreve a possível evolução do diagnóstico ao longo da vida, e etiologicamente aprofunda os modelos explicativos (genéticos, neurobiológicos, afectivos e relacionais, nutricionais, sistémicos…). E depois faz uma coisa que eu acho que é um verdadeiro contributo cívico do autor, como um dever para a saúde publica e respeito pela dignidade da criança: Foca as possibilidades de significados da PHDA, com um olhar para o que pode estar “por detrás do sintoma”. Sob a forma de vinhetas clínicas, personaliza… na Carla ou no Pedro o exemplo de que o mesmo sintoma pode ter causas completamente diferentes e portanto formas de tratamentos necessariamente distintas.

Como refere Magda Mendo no prefácio deste livro “deixou tanto de se olhar a criança no seu todo com o seu sofrimento e reconhecê-lo (…) para a olhar restritivamente através de um conjunto de sintomas”. Entrou a PHDA da pior maneira na linguagem comum”. E é um facto que hoje, antes de chegar ao médico pedopsiquiatra ou neuropediatra, a criança já vem diagnosticada com “Hiperatividades”, quer tenha sido pelo especialista do talho, pela dona da mercearia ou pela educadora que até sabe o que o petiz tem que tomar para ficar mais sossegadinho…

Este é um livro técnico, cujos temas poder-se-iam pensar mais exclusivos para técnicos de saúde mental, mas devido a esta infeliz banalização, o autor teve o cuidado, com uma maneira distinta de escrever, de torna-lo acessível a outros técnicos, professores, educadores e pais… que tanto necessitam de o ler.

E vem assim a 4ª razão pela qual eu leio o João Costa. É que os livros técnicos do João, não são, na verdade… livros técnicos… só. Eles são uma espécie de híbrido entre um género técnico-didáctico-científico e poético.

Vejamos este livro: além de esmiuçar a PHDA, a sua etiologia e o seu significado, o impacto que tem na criança e no que está à sua volta, expõe uma série de propostas práticas, materiais, atitudes, princípios orientadores da intervenção individual ou de grupo, inclui um estudo de investigação piloto, onde fundamenta a prática e ainda expõe de forma humanística, estratégias e métodos de focar e conquistar a atenção da criança, dedicados, a quem a ela se quer dedicar:

Por exemplo:

  • aos adultos… sugere a “educação pela estética da natureza”: desaconselha auto-estradas! Aconselha a “apreciar os lugares, as pessoas, os costumes locais, a parar para ver o pôr do sol” ou “o sorriso misterioso do flamingo”
  • aos adultos que pretendem ser pais: que “conversem com os seus amigos sobre a sua própria infância…que “partilhem momentos de recordação… os bons e os maus…”; que “namorem, que viagem”; que “percebam que as pessoas inteligentes respeitam as diferenças”
  • aos pais: recomenda “dançar com os filhos ao colo músicas de paixão e de amor”, “fazer piqueniques “, “deixar os filhos correrem até se estafarem” e “que guardem tempo para fazer absolutamente nada”
  • aos professores: sensibiliza para o “trabalho com emoção e prazer” – para bem do instrumento cognitivo da criança, sugere um “ensino com autoridade e firmeza, mas sem repressão ou rejeição” e recorda, entre outras coisas, que “o elogio deve ser público e a punição deve ser privada”

Em resumo… na maior parte das vezes eu LEIO o João para saber o que é que eu própria penso! Ou melhor… para saber o que é que eu pensaria se eu tivesse a capacidade de relacionar assuntos, a experiência e a inteligência do João Costa.

Obrigada João!

[i] Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção


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    Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos em conversa

    Clique na seguinte ligação para para visualizar este vídeo do Instituto de Tecnologia Educativa – RTP (1975) A Escolinha de Arte de Cecília Menano – com Cecília Menano, João dos Santos e Maria Emília Brederode Santos, que foi muito generosamente disponibilizado pelo Dr Daniel Sasportes (19 minutos). [Clique nesta ligação]

     


  • Programa IFCE no Ar, Radio Universitária

    Entrevista sobre o andamento do curso à distância “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”

    Entrevista gravada com a coordenadora do curso “Introdução ao Pensamento de João dos Santos”, Professora Patrícia Holanda da Linha de História da Educação Comparada da UFC (Universidade Federal do Ceará), com o Doutor Luís Grijó dos Santos (filho de João dos Santos), e a coordenadora pedagógica do curso Professora Ana Cláudia Uchôa Araújo da Directoria da Educação à Distancia do IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará). A entrevista foi realizada pelo jornalista Hugo Bispo do Programa IFCE no Ar em 3 de Novembro de 2016.

    Para ouvir a gravação desta entrevista clique nesta ligação.

     


     

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